
foto: joão espinho
Escreve Maria Helena Palma:
“Ainda acerca da reportagem do Sexta às 9, e do debate do Sexta às 11, sobre o Alentejo Esquecido, são várias as questões que me assolam e com diferentes conteúdos. Desta forma, na minha qualidade de cidadã livre e politicamente independente, permito-me expressar o meu ponto de vista, o qual secciono por temas, a cujas publicações dou início hoje, com continuação nos próximos dias.
BEJA, OU A HISTÓRIA DO PATINHO FEIO …
Os problemas relacionados com Beja (enquanto cidade e enquanto distrito), são muito antigos, e revestem várias nuances. Existe um problema fulcral de “abandono” da região por parte do poder central, que entronca na história. O Baixo Alentejo de antes de 1974, era uma região pobre, onde o principal recurso era agricultura (de sequeiro à época), os serviços escassos e o comércio de subsistência. Existia uma classe média confortavelmente colocada, entre a população empobrecida que trabalhava os campos, e os proprietários das grandes herdades, maioritariamente residentes na zona de Lisboa, onde os seus filhos tinham um melhor acesso à educação e ao mercado de trabalho.
Pelas deficientes vias de comunicação e meios de transporte, a região foi sempre ficando isolada, à margem do desenvolvimento e do acesso à cultura e à educação. Quem podia partia para estudar em Lisboa, Porto ou Coimbra, e raros eram os que regressavam. O distrito foi ficando progressivamente envelhecido e só aqueles que por opção queriam ficar, ou que por outro lado, não tinham as mínimas condições para ousar partir, aqui permaneciam na calma cadência dos anos.
Após Abril de 1974, e com o exultar da revolução, o panorama alterou-se bastante. A chamada reforma agrária, desfez a maior parte das casas agrícolas, dando lugar a uma nova textura económica e social, mas que praticamente não contribuiu para a criação de riqueza na região, cujo desinvestimento por parte do poder central, se foi acentuando cada vez mais. A desertificação cresceu, e sem criação de riqueza e sem investimento, a debandada dos residentes era esperada. Afinal, havia esperança e melhores condições de vida junto aos grandes centros urbanos e ao litorial. O Baixo-Alentejo, foi ficando assim, entregue a si próprio, arredado das preocupações de quem em Lisboa decidia. Afinal, os votos eram tão poucos, e por sinal, maioritariamente de uma ideologia contrária aos vários governos, que nem valeria a pena pensar muito nesta população que se resignava a ver um crescendo de Serviços ser transferido para a capital de distrito mais acima, obrigando a uma consequente “migração” de pessoas, ou ainda a ver lá instaladas empresas que fariam mais sentido em Beja, ou a ver o comércio definhar por falta de poder de compra.
Beja, ficou reduzida a um marasmo, esvaziada de gente, de indústria, de comércio. Causas políticas? Sim, certamente. Política é tudo aquilo que se faz em prol do desenvolvimento e de melhores condições de vida. Seja qual for a cor que lhe associemos, todo o desenvolvimento, ou a ausência dele, é uma opção política.
Mais recentemente, e muito por força do plano de irrigação associado à Barragem do Alqueva, assiste-se a uma grande expansão no ramo agro-alimentar, mas cujos produtos necessitam de escoamento compatível com o investimento efectuado por parte dos empresários.
Mais uma vez, o poder central vive à margem da região. As acessibilidades estão como todos sabemos, e não se vislumbra vontade de mudar. O Baixo Alentejo, para quem vem de fora, é um local bonito para se passar um fim de semana, comer e beber bem e com qualidade, e quiçá pernoitar em turismos rurais que proporcionam experiências “campestres” divertidas para quem vem da cidade. Depois… bem, depois é tentar chegar o mais rapidamente possível à auto-estrada, porque já chega de estradas estreitas e esburacadas, e nem sequer há um comboio rápido para mandar os miúdos que já tinham um compromisso e estão em cima da hora.
Mas para nós, que aqui vivemos com as nossas famílias, aqui trabalhamos, e aqui vamos construindo os nossos sonhos, o Baixo Alentejo é um diamante por lapidar. Possuímos enquanto pessoas uma capacidade inata de lidar com adversidades – a começar pelo clima -, somos pessoas de trabalho, capazes de nos reinventarmos, e de espírito empreendedor. Carregamos connosco a alegria que a luz do sol nos traz, e mesmo nos dias de chuva, procuramos o raio de sol escondido, para pormos o melhor sorriso. Temos uma cultura própria, que privilegiamos. De cá têm saído para o país e para o mundo inúmeros talentos, por demais reconhecidos.
Em termos geográficos, temos tudo: centralidade face a Lisboa, Sines, Algarve, Espanha. Faltam as acessibilidades concluídas.
Em termos económicos temos neste momento condições para expandir as indústrias agro-alimentares e seus derivados, aumentando significativamente as exportações. Falta uma plataforma de escoamento destes produtos, que poderá muito bem passar pelo aeroporto de Beja.
O sector do turismo apresenta um acréscimo, e também aqui a tendência é de crescimento. Falta uma aposta mais forte por parte dos investidores, que está directamente ligada aos factores atrás mencionados.
Por fim, o sector da aeronáutica, com projectos concretos para serem implementados em Beja, e que poderão constituír uma alavanca determinante no desenvolvimento e crescimento da cidade e da região. Tem faltado, aparentemente, a vontade política para a sua realização.
Façamos então um exercício de conjugação de todos estes factores, e chegamos à conclusão que a região de Beja, hoje, poderá ser o patinho feio do poder central, mas num futuro não muito longínquo poderá transformar-se num belo cisne .
Vamos acreditar que os vários bloqueios vão desaparecer, e que finalmente a região vai deixar de ser marginalizada.
Porque Beja merece!”
HP