Arquivo da Categoria ‘Intimidades’

CONTO DA MADRUGADA -4-

18 de Abril de 2005

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foto: alex opsitaru

Ele prometera-lhe uma visita para que finalmente se conhecessem.
Há semanas que se falavam pelo msn, trocavam mensagens e, uma vez ou outra, chegaram mesmo a falar ao telefone.
Ela queria, porém, saber quem era o homem que dizia palavras que a incendiavam. Queria ter um rosto na sua frente. Desejava aquele homem.
Esperou-o. Sem nervosismo, mas ansiosa.
Quando a campainha tocou, levantou-se do sofá, ajeitou o vestido vermelho que lhe cobria a pele, passou a mão pelo cabelo e, com entusiasmo, abriu a porta.
Um homem, com um ramo de flores, sorriu-lhe. Ela, com uma sensação de desilusão, mandou-o entrar. Ele, porém, entregou-lhe o ramo, com um cartão, e afastou-se rapidamente.

“Hoje não posso ir. Amanhã também não. Talvez nunca.”
Jogou-se para cima do sofá. E, já despida, imaginou mais uma vez como poderia ser o homem que tanto a excitava.
A desilusão não a fez perder a libido.
Exausta, levantou-se. Num gesto impulsivo, jogou as flores para o lixo, vestiu-se e saiu porta fora.
Na rua começava a chover.

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CONTO DA MADRUGADA -3-

15 de Abril de 2005

Júlio é um rapaz que anda a frequentar umas aulas de desporto de grupo, pois os pais diagnosticaram-lhe uma timidez que o leva a afastar-se do convívio dos adolescentes da sua idade.
Apesar dos seus 15 anos e do diagnóstico paternal, Júlio é um leitor assíduo da revista do Expresso, gosta de navegar na Internet, colecciona os cd’s dos U2 e olha para a SIC Radical de quando em vez.
O que o torna diferente.
Também o facto de não vestir calças XXL com o cós a roçar as nádegas e de trazer os cordões das sapatilhas Adidas sempre bem apertados, tornam o Júlio uma raridade na C+S que frequenta com bons resultados.
Até o boné com as iniciais de New York é usado com parcimónia, pois passa longas e poeirentas temporadas pendurado por detrás da porta do quarto de estudos.
A única vez que se lhe viu alguma tentativa de integração foi quando participou, embora durante pouco tempo, numa manifestação de alunos do ensino secundário que protestavam com as pilas e rabos à mostra contra, não se sabe bem, o ensino ou os professores. Foi até talvez devido aquelas exteriorizações das partes íntimas, que Júlio abandonou a demonstração.
Não se lhe conhece uma experiência, ou sequer ensaio de relacionamento com as meninas da sua Escola.
Tem sido nas aulas de desporto em grupo que o Júlio evidencia a sua excessiva timidez. É incapaz de se despir em frente aos colegas e deixa-se ficar para último quando chega a altura do duche.
Para os médicos esta situação não é alarmante, pois o diminuto desempenho social do Júlio é normal para a sua idade. Mas a entidade paternal assim não o entende.
O pai, um oficial de cavalaria, habituado a uma permanente solicitação para eventos de carácter social, gostaria de ver o seu filho tornado um cavalheiro, de sorrisos largos e sabendo beijar a mão. A mãe, por sofrer de asma, desempregou-se assim que casou. Habituou-se à solidão das longas ausências em serviço e tinha esperanças que o seu filho fosse o outro lado do diálogo.
Foi por isso com grande estranheza que a mãe lhe descobriu numa gaveta, no meio de revistas duvidosas, uma caixa de preservativos.
O diálogo foi seco e consequente:
“Mãe, a professora de desenho convidou-me para me dar umas explicações no seu apartamento. Como não acredito no amor à primeira vista, vou protegido”.

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Das mãos…

14 de Abril de 2005

… que me aquecem
e me tocam o corpo
e me fazem rodar sobre ti
lançando-me numa espiral
de prazer e loucura.
… que me provocam
quando, em silêncio,
me agarram e me levam
a sentir-te mais mulher,
mais tu
mais nós!

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Do rosto…

12 de Abril de 2005

No teu rosto encontrei uma expressão.
Suave, leve, mágica.
Nenhum quadro a pode desenhar
Em nenhuma imagem a registo.
Perco-me no teu olhar,
no teu sorriso…
suave,
leve e
mágico.

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foto: joão espinho

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CONTO DA MADRUGADA -2-

7 de Abril de 2005

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Por engano, pegou no porta-chaves que tinha a chave da sua anterior casa, aquela onde vivera enquanto casado. Nunca a devolvera, pois deixara lá alguns dos seus livros e outras coisas sem importância. Adiou sempre esse regresso. Não lhe apetecia voltar a ver a casa onde, durante 6 anos, construíra o seu grande amor.
Olhou para a chave e decidiu-se por, finalmente, ir buscar os seus haveres. Ligou para o telemóvel da ex-mulher que, por estar na hora de serviço, não atendeu.
Entrou na casa, com passo decidido, pois não queria estar a ver que tipo de alterações haviam sido feitas, dirigindo-se para o escritório. Estranhou um certo desalinho, com roupa jogada para o chão e pensou no quanto ela se havia transformado, desde que lhe dissera que já não o queria. Olhou atentamente para aqueles vestuários e percebeu que era lingerie, muito sensual. Imaginou-a vestida com aquela roupa interior. Uma certa nostalgia invadiu-lhe o espírito.
Quis seguir para o escritório, mas um ruído que vinha dos lados da casa de banho, fê-lo mudar de rumo. Ela teria, certamente, deixado alguma torneira aberta.
Foi com um espírito de ajuda que abriu a porta.
Viu-se envolto numa nuvem de ar condensado que vinha do duche. Olhou.
Deixou cair as chaves que trazia na mão.
Ao sair da casa de banho, hesitou, mas voltou a olhar para o que, há segundos atrás, lhe parecia uma miragem.
Quando se meteu no carro e antes de meter a chave na ignição, reflectiu uns segundos.
Arrependeu-se por nunca ter querido conhecer a sua mulher.

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Do corpo…

5 de Abril de 2005

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foto: markus s.

E quando com a língua em fogo
Me derretes o desejo
E depois
Te debruças para que em ti
Lance a chama desse desejo
Nesse momento em que te olho
E dos lábios se libertam beijos
É sim, nesse instante,
Que do corpo se soltam
Os silêncios
As imagens
As cores
De um oásis de prazer.

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Conto da madrugada -1-

4 de Abril de 2005

(Que escrevi em 2002.
No mesmo espaço de uma casa, muitas histórias.
A mãe, a filha, o ex-marido, o pai, outras mulheres e outros homens. Fui descobrir estas coisas numa disquete esquecida. Começam hoje a apanhar ar
).

Luísa acabara de se levantar. A noite havia sido de transes e esquecimentos. Bebera e fumara, a sua forma de comemorar o Dia da Mulher.
Apesar da fortíssima ressaca, Luísa ainda tinha os olhos cheios dos avultados músculos do sexo masculino que se exibiram nessa noite de streap-tease só para fêmeas.
O cheiro a álcool fermentado, à mistura com o desarrumo de peças de roupa lançadas ao acaso na escuridão da madrugada, faziam-na sentir um mal estar quase à beira do vómito.
Afasta-se do ambiente da cozinha. Nenhum sumo de laranja e nem uma dose de Guronsan a conseguirão fazer sentir-se melhor.
Recusa olhar para o espelho vertical que o ex-marido não quis levar no dia em que assinou o divórcio, mas que a filha única de 18 anos exige que ali se mantenha.
É por ela que não liga a música nem abre as cortinas. Talvez também ela tenha ido comemorar o seu dia.
Sem ter a certeza se valeria a pena, decide-se por um duche que lhe alivie aquela sensação que tem na cabeça e que se assemelha ao bater das asas de uma bando de frenéticas gaivotas que esvoaçam à beira mar em dia de vendaval.
A frescura da água e o aroma do gel de banho levantam-lhe a auto estima. Deixa-se ficar longos minutos envoltos naquele ambiente de ar condensado. Recorda por momentos as horas nocturnas de uma excitação iludida, do lugar e do palco que agora lhe pareceu um talho a vender carne fresca. Preferiu esquecer.
Saiu do banho com uma nova disposição. Ia acordar a Márcia e desafiá-la para um passeio fotográfico às cercas da praia do Guincho. Uma boa salada de marisco, na companhia da filha e do mar, restituir-lhe-iam a dignidade.
Estava decidida quando, ao abrir a porta do quarto, lhe pareceu ouvir um gemido e recordou que também ela se sentira assim há pouco tempo atrás.
Abre as janelas para deixar entrar o Sol, mas aquele cheiro era mais forte e ela conhecia-o. Tal como aqueles gemidos de prazer.
Não quis olhar. Não queria acreditar em inocências perdidas.
De saída, e a fugir, encalha naquela roupa e sapatos de homem, joga-se para o sofá da sala e pega no livro que nunca conseguira acabar:  “Não há coincidências”.

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Do amor…

1 de Abril de 2005

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foto: gereon mueller (adaptação)

(…)
O dia de hoje
Cinzento e com vento
Veio trazer mais terra
E alimento
Para que o alicerce
Da nossa paixão
Se transforme em raízes
Sólidas e eternas.

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Noite

31 de Março de 2005

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Esta noite apetece-me
Ler e só ler.
Até que o Sol desponte
E me abra os olhos
Onde as letras que escreves
Desenham o sorriso
Das manhãs de Primavera.

E quando os primeiros raios
Despontarem no horizonte da madrugada
Não quero ler mais.
Quero, sim, quero
Ouvir a tua boca sussurrar
As palavras que pintam
A aguarela dos meus sonhos.

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Do teu corpo…

30 de Março de 2005

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foto: michael boerm

Olhar-te e sentir
Que o teu corpo é uma alameda
De sensualidade
Onde os teus cabelos
São as folhas de uma árvore
Em forma de torso
Que do teu corpo exalam
Línguas de fogo que brotam
Flores de prazer
Que me abraçam
Que me beijam
E em explosão faminta
Me bebem a saliva
Nua de um corpo endurecido
Onde a volúpia me acontece
Nessa alameda que é o teu corpo.

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Do amor…

29 de Março de 2005

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foto: e. was

Entregas-me o teu corpo
E como num fruto
Alimento-me do teu sabor
Bebo o teu néctar
Trago o teu prazer.

Devolvo-te a minha pele
E do suor fazes açúcar
Da minha carne o teu proveito.

É a paixão que nos incendeia
Nascida de uma mesma árvore.
Porque eu e tu
Somos um só fruto!

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Porque a Primavera tem poesia!

21 de Março de 2005

E foi há segundos que te conheci
E era Primavera e já passaram
Horas, dias e meses
E parece que são anos e o tempo
Esse
Também passa e agora é Primavera.
Quantas estações passaram
Desde o minuto em que te olhei
Nem sei se são dias ou meses
Ou talvez anos
De um tempo sem estações
Sem dias nem horas nem minutos.

E nesse dia em que era Primavera
Não olhaste o relógio
Não sentiste passar o tempo
E a estação passou e é Verão, Outono
E o Inverno lá longe derramou lágrimas
Que o tempo apagou e hoje é Primavera!

Olho-te, hoje!
E sei que o tempo passou.
E outra estação virá
E o relógio não se detém
No calendário das emoções.

Hoje, olho-te
E vejo que és a Primavera dos meus desejos.

(Para ti, Madalena, no dia em que celebramos a Primavera e a Poesia)

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