Arquivo da Categoria ‘Célia’

Célia -14-

15 de Abril de 2004

“Será que posso, pelo menos, tentar ser feliz?” – aquela era mais uma exclamação do que uma pergunta. “Sinto-me aprisionada”, lamentou-se.
Medi, com muito cuidado, as palavras que queria dizer. Este momento de fragilidade podia tornar-se numa verdadeira tempestade. Sem intenções, digo-lhe que as oportunidades não se dão, criam-se, inventam-se. É preciso ter vontade. “Mas eu fiz a minha escolha no momento certo; mas este já não é o meu momento”. Percebi-lhe uma determinação em fechar, definitivamente, aquela porta.
Foi com a certeza de uma imprudência que, sem pudor, lhe digo para assumir a ruptura. Rasgar aquele que não era o seu momento.
Imperturbável fisga-me: “E tu já estás preparado para o teu momento?”
Eu sabia que a tempestade se aproximava. Era uma questão de momento….

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CÉLIA-13

23 de Março de 2004

Recebi o sms quando liguei o aparelho. Sem saber a hora nocturna da missiva, adivinhei a fonte.
Era certamente alguma questão não esclarecida, mas à qual encontrara resposta nas suas horas de ócios insólitos.
“Desculpa se não to disse, mas amar é um privilégio!.”
Hesitei entre responder logo, deixar para depois ou mesmo ignorar.
E como me acontece, sempre que não sigo o impulso inicial, sou apanhado desprevenido e recebo o segundo toque.
“Inacreditável, não é? Já tinhas pensado nisso?”- agora não tinha outra solução.
Seguir em frente, esquecer, ignorar?
Naquele momento tomei a decisão mais acertada.
Ocultei a mensagem no arquivo, sabendo que mais tarde ou mais cedo vou ter que a encarar.
São assim as mensagens do arquivo.

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CÉLIA -12-

14 de Março de 2004

Mas afinal onde conheceste o Jin Li? Queria aproveitar aquele momento de fragilidade. Seria a ocasião para lançar os habituais sofismas sobre comportamentos, ligações! Agora era Célia, pensei eu, quem se debatia com as suas dúvidas, depois de provocar uma saída. Desejada.
Não terás sido inocente na tua escolha? Joguei eu, triunfal.
“Já reparaste que não há escolhas com conteúdo definitivo?”.
Apeteceu-me incomodá-la, falando-lhe dos mistérios que se prendem ao coração.
Não me deu tempo: “Tens as tuas memórias; são pequenas gotas de felicidade, até que se transformem em lágrimas de tristeza”.

Afinal Célia já fez a sua escolha!

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CÉLIA -11-

29 de Fevereiro de 2004

Em sobressalto, levantei-me da lassidão de um sofá à beira da lareira.
Sem saber bem porquê, foi com um sorriso que peguei no trinco da porta. Tão pouco percebo porque desta vez evitei o intercomunicador.
A fronteira do meu refúgio esfumou-se em segundos.
“Surpresa?”, como será que fui capaz de mentir naquele instante, dar ares de um enorme espanto, quando sabia que aquele toque, àquela hora, naquele dia, só podia partir de um súbito impulso. Esperado, previsto, desejado.
“God, it’s you!….” e o resto da música que acabara de me ser oferecida crepitava ao som de um lume que não se consumiu naquela hora.
Desejei, por um momento, conseguir gritar as palavras que escapavam do aparelho.
“Então, não era isto que te apetecia ouvir?”
Submergi na resposta que fui capaz de dar…!

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CÉLIA -10-

24 de Fevereiro de 2004

Subitamente, aparece-me Mariana no outro lado da linha. Não deveria ser assim. Àquela hora combinada daquele fim de tarde, só Célia poderia invadir um espaço que lhe estava reservado.
“Preciso de te ver”, ao fim de quase 3 meses de ausência já o esquecimento se apoderara dos sentidos. Quis adiar, mais tarde, agora não posso, “mas então quando?”, e eu sem saber dizer-lhe que não era aquele o momento certo para acabar com as esperanças de uma reedição (em que ponto ficámos?). Liga-me mais tarde, e era eu uma vez mais incapaz de dizer “não”.
E nesse fim de tarde o telefone tocou. De uma outra maneira. Nem deixei que trocássemos o vulgar olá e já estava eu temeroso a balbuciar um gostava de te ver.
“Gostavas ou queres?”. Não sei distinguir esses verbos quando o desejo é enorme.
“Não sabes esperar?”, para quê tanta pergunta quando se tem receio de que aquele espaço, que ainda há minutos me parecia inviolável, esteja a diluir a sua fronteira….!?
E, sem preparação, diz-me “não hesites”!
Era precisamente aquilo que eu não queria ouvir.

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CÉLIA -9-

14 de Fevereiro de 2004

Algo me levou a ligar-lhe há pouco. Talvez pela raridade, houve um sorriso de surpresa. Mas terá que ser mais tarde.
Ainda houve tempo para “E sabes que dia é hoje?“.
Apeteceu-me naquele momento verbalizar o que penso sobre estes dias, mas arranquei com um “e significa alguma coisa para ti?”
Sim, é um dia em que “a espera é dolorosamente agradável por saber que vou estar contigo”!

Da janela da sala vi que afinal estava Sol!

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CÉLIA -8-

6 de Fevereiro de 2004

“O que é que te perturba, João?” – São por vezes as palavras demasiado extensas para significantes tão simples, tento eu explicar-lhe, superando uma imensa vontade de lhe dizer que há expressões sem significado. E com um desejo, quase ardente, de uma declaração sobre os signos da linguagem.
“Mas então porque não simplificas?”, arremata-me sem dó nem piedade.
Há sentimentos que não se podem assingelar, e rogo-lhe que me deixe continuar nesta paz.
Faz-me o ponto final: “Insustentável, João, é insustentável!”
Porque será que eu sei que ela tem razão?

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Célia -7-

29 de Janeiro de 2004

“e não percebes que esse luto constante, essa falta de confiança e esse permanente paladar a pessimismo vos está a afundar para um poço de ficção? Que deixaram de ter a percepção do caminho que escolheram sem querer, que derramam as lágrimas desnecessárias quando as deveriam saborear nas vossas corridas contra o vento? Para que querem vocês o Sol?”
Arrebatadora, lança a farpa “E tu onde estavas nessa fatídica noite?”
Embaraçado, apanhado como a criança a mentir, joguei-lhe cummings:

“(.) for life´s not a paragraph
And death I think is no parenthesis”

que a vida não é um parágrafo
E a morte julgo nenhum parêntesis

Não me convenci!

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CÉLIA -6-

28 de Janeiro de 2004

“João, que é feito da tua liberdade poética?.” Disse-lhe que não entendia a questão. O facto de revolver o sótão da tralha escrita, não significava que estivesse a desarrumar os baús das recordações.
“Mas então porque me mandaste aquele grito?”
Às vezes apetece saber que há coisas que estão bem onde estão, tentei explicar-lhe.
“E então essa coisa de recordar, não é também…?” Não, não é!
É só um certificado de que há memórias que já não o são.
“E não tens nada de novo?.”
Sim, tenho! .?????.
Tu.

Há palavras que deixaram de ser acessórios!

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CÉLIA -5-

21 de Janeiro de 2004

“Estás disponível agora?”
Em que sentido? – foi a minha reacção.
“Não, não quero ir tão longe.“, disse Célia com a sua voz normalmente cativante, “só aquela disponibilidade para ouvires.”
E avancei com a habitual ‘desde que não me faças perguntas’, o que me obrigaria a desenvolver respostas.
“Pois era mesmo para te fazer a pergunta se…“, diz, não tenhas receios! ‘Eu continuarei calado!.’
Foi o telefonema mais longo deste novo ano.

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CÉLIA -4-

14 de Janeiro de 2004

Foi ontem à noite que Célia perdeu o prumo. No silêncio de uma noite que começava, despertou-me do sono em que eu queria permanecer. As suas palavras saíram sem misericórdia. Não precisavam de embelezamentos de ocasião. O telefone é frio.
Pareceu-me pouco inocente a escolha da hora.
Não respondi.
Disse tão só que quero continuar a dormir. Não me apetece entrar no sonho que se me oferece àquela hora.
É tempo de resistência. Por quanto tempo?

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CÉLIA -3-

13 de Janeiro de 2004

Telefonou a dizer que chegara. Meia hora de diálogo circundante. Jurámos permanecer impermeáveis.
Fiquei pálido quando me rematou: “João, não andas à procura da química certa que revele o rolo que há dentro de ti?”.
A última vez que me questionaram assim, parti para outros caminhos….

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