Arquivo da Categoria ‘Célia’

CÉLIA -26-

18 de Julho de 2004

Tornou-se num hábito trocarmos os nossos “Bom Dia!” de uma forma rápida, telegráfica. Um gesto de e a marcar presença. A ausência desta fórmula cria-nos logo uma torrente de questões: “Então, está tudo bem?”.
Nesse dia apeteceu-me dizer-lhe algo mais. Explicar-lhe que o espaço agora parcialmente ocupado esteve antes vazio, muito vazio, completamente nu. E dizer-lhe que sabia exactamente a dimensão desse vácuo.
E Célia deve saber isso. De outra forma não me teria arremessado com um “Quando abrires a porta, estarei lá para penetrar e ocupar esse espaço”.
Não tenho dúvidas que, para se fazer luz, alguém tem que clicar no interruptor.

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Célia -25-

12 de Julho de 2004

“Porque será que o tempo deixa marcas?”
Perguntei-lhe a que tempo se estava a referir. Até porque, olhando para ela, essas marcas não seriam bem visíveis. Tinha conseguido manter-se com uma pele fresca e bem cuidada. O corpo era o de quem se importa com a saúde. Disse-lhe que não se preocupasse, pois não havia razões de queixa. Não havia nem um cabelo branco, uma ruga, para contrariar a minha opinião. Intimamente imaginei-a, naquele momento, mais cintilante.
“Não, não é esse tempo, nem essas marcas. São os sulcos provocados no coração”.
Sem me deixar esboçar um pensamento, e com uma determinação impressionante, diz-me que “parece que o coração tem olhos. Vê aparecer e desaparecer. E sempre que alguém aparece é mais uma marca que cresce. Para depois, na hora da abalada, esse sinal ficar como uma dor”.
O tempo passou. E naquele mesmo instante soubemos que estávamos a marcar o nosso tempo.
Ao final da tarde, olhou-me: “Valeu a pena termos tentado, não valeu, João?”
Precipitadamente respondi-lhe “Depende das marcas que deixámos”!
Uma imprudência….

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Célia -24-

6 de Julho de 2004

“Preciso de te ver”.
Amanhã seria melhor, pois teríamos mais tempo, e certamente que a conversa, com aquela urgência, demoraria demasiado para o meu gosto.
“Não. Tem que ser já!”
Ao entrar, descalçou as sapatilhas e avançou, colando-se-me ao corpo.
Não falámos.

Descobri a diferença entre ver e falar!

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Célia -23-

5 de Julho de 2004

“Gostava de passar a noite contigo”.
Assim, sem pedir licença, aquela mensagem entrou-me pelo coração. Eu estava a pensar em Célia, é verdade, mas sempre duvidei de coincidências.
Nesse momento, e é garantido que não há coincidências, toca o telefone da sala.
Não quis acreditar que a sugestão viesse agora também por via oral. Ela não tem esse hábito.
Quando levanto o auscultador oiço estupefacto: “Que estavas a pensar?”
Sem querer adiantar muito, poupei nas palavras. Curiosamente, não fugi à verdade.
Percebi, nesse instante, que tinha desfeito uma fronteira. A minha. Que eu julgava intransponível e resistente.
Não fui eu quem um dia perguntou – “até quando”?

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CÉLIA -22-

2 de Julho de 2004

Disse-lhe que não a poderia ir buscar ao aeroporto.
Sabia que, finalmente, me iria contar todas as suas desgraças na relação que mantivera durante quase uma década com Jin Li.
Já uma vez tentara explicar-me as razões de uma discussão. Por causa das festividades do Ano Novo. Dizia-me ela que achava interessantíssimo comemorar a primeira Lua Cheia do Ano. Mas já não suportava que essa comemoração tivesse a duração de 15 dias. Percebi na altura que o momento da ruptura tinha chegado.
E que, mais tarde ou mais cedo, eu estaria envolvido em percursos de compromisso.
Abandonar a ideia do aeroporto foi pois a minha defesa.
Com a certeza de que se tratava de um adiamento.
Não tardou muito.
Quando me bateu à porta, disse-me: “É só por umas horas. Quero despedir-me de ti”.
Conheço Célia suficientemente bem para saber que as suas despedidas têm o exacto valor de um “Olá”.
Desta vez também não me enganei.

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CÉLIA -21-

24 de Junho de 2004

Quando entrou na sala percebi-lhe uma ligeira inquietação.
– É por aquela fotografia nova? questionei, sabendo que a resposta seria sempre negativa.
Mas o seu olhar não despegava daqueles contornos de beleza.
Tentei explicar-lhe a técnica usada. A luz, a sombra, a osmose entre ambas. O contraste da lucidez da pele com o negro de fundo. Fiz argumento sobre a localização naquela parede.
Os seus olhos tinham agora um brilho especial.
Compreendi-lhe o gesto de, ao sentar-se, tentar esconder a face com os cabelos que descaíam, escondendo a perturbação do momento.
Passou os dedos das duas mãos pelo cabelo, ergueu a face e olhou-me profundamente. Pediu-me para me sentar ao seu lado.
Quando nos demos as mãos, sabíamos que não era aquela a ocasião para perguntas.
Ao beijo que trocámos, não soubemos dar resposta.

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Célia -20-

22 de Junho de 2004

Era mais um Sábado, igual a tantos em que apetece não pensar. Deixar que a luz de fim de tarde entrasse pela janela, suavizando a sua intensidade ao passar pelos cortinados brancos de linho, olhar sem ver, não tentar um esforço, pareceu-me a melhor solução.
Nenhum dos livros à mão me apetecia. A música estava, mas sem fazer companhia.
Peguei no telefone e comecei a escrever uma mensagem. Apaguei-a. Não fazia sentido.
Decidi-me por um “Morre-se de tédio? Hoje é mesmo dia de São Nada”.
Ficou por ali à espera de destinatário.
Pensei nela e em mandar-lhe o texto. Mas não me apetecia ter que responder a alguma dúvida ocasional.
Que fazer a uma mensagem sem destinatário?
Que fazer num Sábado em que nem as mensagens se arriscam a partir?
Decidi-me: Opções – Enviar!
Suponho que se tenha perdido.
Como aquele Sábado.

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CÉLIA -19-

19 de Junho de 2004

“Deixas-me seduzir-te?”

(Quantas noites passarás a tentar seduzir-me…!)

E naquela noite a inquietação tomou conta de nós.
Até quando?

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Célia -18-

1 de Junho de 2004

A mensagem era pequena, mas imensa na sua vontade:

“Quiseste-me nesse tardio encontro. E com um beijo e o calor das tuas promessas, soltaste-me.
Sinto que inflamaste o meu sossego. E que aos poucos me tenho dado lugar a quem sou.
De verdade.
É por isso que, neste dia, sentada a ler as tuas palavras, te posso dizer: Obrigada!”.

Há palavras que não se traduzem.

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Célia -17-

27 de Maio de 2004

Quase em súplica, pedi-lhe que parasse.
Tinha colocado o leitor de cd’s em reprodução automática.

A música repetia-se. Tal como nós duplicávamos o enlevo dos afagos.
Como se alguns se tivessem perdido no tempo da inexistência de afectos.
Procurámos o verbo cativar.
“Estou cansada!” – entendi-lhe aquele sofrimento de quem esgotou forças nas demandas da outra alma. Repetiu-me que lhe era insustentável estar mais tempo com Jin Li.
E eu? Sabia que a resposta não teria rodeios.
“ João, não sei se me deixarei arrancar este amor”!
A promessa soou ao mesmo tempo que as colunas murmuravam, pela enésima vez, as palavras de Caetano Veloso em “Currucucu Paloma”.

Não deixámos que a música nos abandonasse.

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CÉLIA -16-

13 de Maio de 2004

Sentou-se de uma forma distendida. Pouco usual para quem enfrentava pela primeira vez a lente de uma máquina. Agarrou no malmequer e com ele cobriu suavemente o seu rosto. Sugeri-lhe que se cobrisse com aquela seda quase transparente e inclinasse ligeiramente o torso. A luz difusa iluminou os seus seios deixando na penumbra o rosto que, curiosamente, se confundia agora com a flor.
A seda, ao descair, revelou a beleza do seu corpo. Num movimento alongado, a imagem penetrou na película, gravando um momento que identifiquei como belo.
Pousou a flor no ventre.
A luz continuou difusa.

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Célia -15-

20 de Abril de 2004

Quando me passou os seus dedos pelo cabelo, senti uma enorme vontade de lhe perguntar mil e uma coisas.
Estranho, este meu súbito desejo. E quantas perguntas teriam a resposta que eu queria? Quantas me seriam negadas?
E o que é que tudo isso importaria?
Decidi-me por enfraquecer as resistências. Deixar que o momento fosse aquilo que nós quiséssemos.
Estendida na sua beleza, pareceu-me ver-lhe um raio de felicidade. Julgo que comungávamos aquele instante com a intensidade de um apetite reprimido e subitamente libertado.
Deixámos de falar enquanto nos cruzávamos nas nossas fantasias.
Sentíamos a delícia de um encanto e de um silêncio que não queríamos desperdiçar.
Contemplando-a, admirei os seus olhos infinitamente femininos.
Antes que partisse, quis oferecer-lhe uma frase que não tivesse o sabor de um sumário ou de uma conclusão. Há momentos em que a solidão deixa de ter sentido, balbuciei-lhe.
Quando se despediu, a expressão tornou-se mais sedutora e, como se fosse num primeiro beijo, segredou-me: “Não te inquietes, porque até as noites têm horizontes”.

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