“Em três dias em Beja com imigrantes que trabalham na agricultura, ouvi histórias de exploração, intimidação e abandono, vi os sítios onde vivem, a que não ouso chamar “casas”. Mariana Carneiro, enviada do Esquerda.net.
No domingo, dia 6 de fevereiro, as seleções de futebol do Senegal e do Egito disputaram a Copa Africana de Nações. N’ A Pracinha, situada na Praça da República nº 9, foi montada uma tela para projetar o jogo, agendado para as 19h. Pouco a pouco, vários imigrantes juntaram-se no local.
Eu já conhecia inúmeros dos rostos que me rodeavam, passei o dia anterior e o próprio dia na sua companhia. Inclusive, tive o privilégio de, no domingo, jantar no local onde alguns vivem, mesmo ali ao lado. Dois frangos com arroz para catorze pessoas passaram a alimentar quinze bocas. Comemos de pé, à luz da lanterna de um telemóvel. Ali não há eletricidade e nem água quente. Enquanto comíamos o repasto, disposto em duas bandejas improvisadas, tentavam frequentemente empurrar pedaços de frango para o meu lado da travessa, para garantir que eu ficava bem alimentada. A responsabilidade por preparar a comida e por lavar a louça vai rodando, para que todos participem nestas tarefas. Neste espaço vivem entre 12 a 14 imigrantes senegaleses, todos homens, a maior parte com pouco mais de 30 anos.
Depois do jantar, fizeram-me uma visita guiada ao sítio onde dormem: são duas pessoas por quarto. Parte do edifício está desabitada, já que as restantes assoalhadas, de uma antiga residencial, estão em estado de grande degradação. Muitas zonas do teto já caíram.

Naquele momento, éramos todos senegaleses. O jogo foi decidido nos penáltis e o Senegal ganhou a taça. A alegria foi contagiante e a coca-cola que transbordava das latas assemelhava-se a champanhe (ali praticamente ninguém bebe álcool). Pouco depois de acabado o jogo, foi hora de arrumar o espaço. Eu tive de voltar para Lisboa, mas a festa continuou com uma passeata pelas ruas de Beja. Pouco depois de arrancar, tive a nítida sensação de que teria de regressar em breve. E assim foi, na quinta-feira seguinte voltei a rumar ao Alentejo.
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Dos perto de trinta trabalhadores imigrantes senegaleses com quem falei, com idades compreendidas entre os 20 e os 40 anos, apenas um veio para a Europa de avião. Os restantes fizeram a travessia de barco, a partir de Marrocos ou da Mauritânia.
O Sidy saiu há um ano do Senegal. Veio para a Europa num barco a partir da Mauritânia. Esteve dez dias no mar antes de atracar em Espanha. Durante quatro dias não teve comida e nem água. Ao todo, eram 43 homens, de várias nacionalidades: Senegal, Congo, Mali, Mauritânia… Cada um pagou 650 euros pela viagem. O Moustafah também viajou, durante seis dias, apenas com homens: 52 no total. O barco que trouxe o Medounesall era maior. Transportava 118 pessoas, entre as quais mulheres e crianças, que estiveram perto de nove dias no mar. Já o Siny fez a travessia a partir de Marrocos, por 500 euros. Foram quatro dias de viagem, na companhia de mais 34 pessoas, incluindo cinco mulheres e duas crianças. O Mbara fez outra opção: comprou, com mais cinco pessoas, um barco a remos, que lhes custou 1500 euros, 250 euros a cada.
A grande maioria dos imigrantes senegaleses passou por outros países antes de chegar a Portugal, como Espanha, Itália, França ou Alemanha. Nesses países, as condições de trabalho eram menos duras e ganhavam melhor, mas era bastante mais difícil regularizarem a sua situação.
Todos têm a sua família no Senegal e enviam o dinheiro que podem para a ajudar. Caso contrário, os seus familiares arriscam passar fome.
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