Violadores: os bons e os maus
18 de Maio de 2011
foto: rapex
A opinião publicada portuguesa convergiu num ponto: a condenação da violação sexual. Ponto final.
Porém, há nuances interessantes na abordagem que os opinadores fazem aos dois casos mais mediáticos.
No exemplo português, de um psiquiatra violador, a indignação penetrou duplamente nos textos de opinião: condenou-se o que é relatado “«O arguido começou a massajar o tórax e os seios da ofendida. Esta levantou-se do dito divã e sentou-se no sofá. O arguido foi então escrever uma receita. Quando voltou com ela, aproximou-se da ofendida, exibiu-lhe o seu pénis erecto e meteu-lho na boca, para tanto agarrando-lhe a cabeça, enquanto lhe dizia “estou muito excitado” e “vamos, querida, vamos”. A ofendida levantou-se e tentou dirigir-se para a porta de saída; no entanto, o arguido, aproveitando-se do estado de gravidez avançado que lhe dificultava os movimentos, agarrou-a, virou-a de costas, empurrou-a na direcção do sofá fazendo-a debruçar-se sobre o mesmo, baixou-lhe as calças (de grávida) e introduziu o pénis erecto na vagina até ejacular» e levantaram-se veementes protestos pela decisão do tribunal “acordam os juízes deste Tribunal da Relação em conceder provimento ao recurso interposto pelo arguido B… e, em consequência, alterando-se a matéria de facto nos termos supra referidos, revogam o acórdão recorrido, absolvendo o arguido do crime por que foi condenado, bem como do pedido cível formulado pela assistente/demandante C….” (daqui) e foi dito por aí que a justiça é cega em excesso mas, neste caso, mandou-se às malvas a presunção da inocência.
A violação mediática envolvendo Strauss-Kahn (cuidado com a pronúncia pois este Strauss não dança a valsa) tem outra escala, mundial, com fronteiras em França e nos States, com passagem por um hotel de cinco estrelas. Aqui a opinião publicada, defensora acérrima da presunção da inocência, alertou para uma cabala desencadeada pelos serviços secretos franceses, por uma suposta maquinação para tirar Strauss-Kahn do caminho da reeleição de Sarkozy (posso enganar-me, mas este súbito alívio da direita francesa ainda lhe poderá custar muito caro) e imaginaram-se mais não sei quantas bruxarias que levaram o homem do FMI a cair na esparrela de tomar duche nu e aviar, de forma violenta, uma afro-americana de 30 e frescos anos. Não pertencesse o francês a uma agremiação de malfeitores (FMI) e veríamos como os nossos opinadores fariam do sexo anal e oral não consentido uma via democrática para derrubar o marido da Carlita.
Ambos os casos têm várias coisas em comum. Pondo de parte os pormenores libidinosos, eles demonstram como, no caso português, a justiça é estrábica e, no caso franco-americano, a justiça é mesmo cega. Há mais características comuns. Ambos os presuntos implicados são homens que andam a tapar buracos (literalmente): o português, enquanto psiquiatra, tapa os buracos da alma. O francês, homem do FMI, tapa os buracos de governos incompetentes.
Pelo meio ficam as opiniões de doutos espertos, para quem a violação não é mais do que uma página de uma revista cor-de-rosa.
Faça-se justiça!








