(crónica publicada no “Correio Alentejo”, de 24/3/2006)
Preparou a mochila com as máquinas e objectivas com que habitualmente registava na película as imagens de uma planície policromática. Era uma das suas paixões, assinalar em fotograma todas as mutações naturais da terra onde nascera. Os horizontes longínquos, o arvoredo que trazia penumbras refrescantes quando o Sol queimava, as papoilas, o trigo e as cearas que serpenteavam à hora do ocaso.
Toda esta paisagem começara porém a povoar-se de fantasmas.
“As pessoas?” – interrogava-se ele, olhando para o casario das aldeias abandonadas em ruas sem gentes e donde a morte ecoava em silêncio.
E fotografava o branco coalhado da cal naquelas paredes que faziam o contraste deste ou daquele, raro e fortuito habitante que vagueava o tempo trajando de luto.
Rostos de expressão sulcada pelo tempo. Mãos gretadas de desgraça.
E pensava no poeta que chorava
“Oh Alentejo prostrado
derrotado
resignado….”
e fugia da solidão em busca de outras caras, outras faces, de semblantes vivos.
Nesse dia percorreu a cidade em busca de vida, de gente que anima num vaivém as avenidas e alamedas. Almas apressadas que sustentam a urbe e em cujos rostos se vê um olhar distante do mundo rural. Quis registar o movimento que é o bilhete de identidade de um progresso anunciado, apregoado, prometido.
Descansou na praça.
Sentado, olhou em redor e no centro um vazio de gente embalou-o para um sonho.
A sua cidade era agora um emaranhado de civilizações e culturas. O velho dera lugar ao novo, o antigo convivia orgulhosamente lado a lado com o moderno. As pessoas passavam apressadas num final de tarde em busca do lazer, do prazer.
A Praça era energia e enchia-se de artistas, de mil cores. A música dava as mãos à palavra e os poetas sussurravam estrofes de paixão e de escárnio. Os públicos concentravam-se junto à ementa que lhes dava mais gozo. Trocavam-se olhares e acolá havia até quem se arriscasse a desvendar os seus amores. Água a refrescar, a matar a sede, a abrilhantar com o seu bailado em repuxo os espaços livres de multidão.
No céu uma nuvem trazia-lhe o filtro que as suas imagens desejavam para que tivessem bons contrastes e sombras bem proporcionadas.
À sua volta reinava uma harmonia que lhe agradava.
Um casamento ideal entre marcas que ele pensava impossível reconciliar. Ali havia um aroma de campo, à mistura com sons da cidade.
Longe de subúrbios amontoados de carros e cimento. Afastado de adormecidas almas conformadas à estagnação de uma vida macilenta. Distante de obstinados resistentes às mudanças e aos novos ares.
A cidade no seu centro fazia-se metrópole. Uma agitação alegre no núcleo pedestre, onde não faltava o equilíbrio, o bom senso e uma oferta vasta.
Estava na altura de puxar da máquina e fazer, finalmente, o retrato de uma terra com vida e com gente viva.
Subitamente uma mão toca-lhe no ombro. Desperta e vê uma fila de pessoas a entrar para uma repartição pública, ar pesaroso, desgastado, de quem vai em cumprimento de uma dolorosa obrigação. À sua volta eram eles os únicos sobreviventes do sonho urbano. Uma Praça deserta, um ancião sentado no banco ao lado. Outro mais velho ainda, sucumbia ao tempo de espera de um dia anunciado de dor, mais além meia dúzia de pombos tentavam levantar voo para outras paragens.
O seu olhar era agora de interrogação. Aquele que há pouco o despertara não o deixou indagar. “É a bicha do IRS”, veio pronta e arrastada a explicação.
Levantou-se, verificou se tinha o telemóvel, colocou a mochila às costas e, num último olhar pela praça, pensou para si: “Afinal há bichas na Praça”.
Desandou e foi em busca de outra terra.
De uma cidade.
João Espinho – 24/3/2006