Arquivo da Categoria ‘Intimidades’

Pai

19 de Março de 2009

Foi dos primeiros a partir. Novo, e eu, então, ainda muito novo nos meus 27 anos.
Há dias, no final de um dia de trabalho, aguardava-me à porta de casa um senhor com mais de oito décadas de vida. A idade que o meu pai teria hoje. Abraçou-me, primeiro sem palavras, e depois falou de si, de mim, do mundo, do que escrevo, do que conhece de mim.
E do meu pai.
Não sei quantas lágrimas derramei nessa noite. Saudades, nostalgia, ausência, recordações. Tudo em instantes se misturou.

Hoje, ao acordar, beijei as minhas filhas. Talvez com mais carinho ainda. Com um grande sorriso.
Porque me lembrei do meu pai.
E do encantamento de ser e me sentir pai!

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instantes intensos

17 de Março de 2009


foto: Mastowka

Contemplo-te nesta manhã em que, exaustos da noite que nos despiu o coração e secou os lábios, nos refugiamos do brilho deste sol ardente, como se a penumbra nos cegasse e nos prendesse às palavras que em surdina trocamos.
E olho-te, vejo o teu corpo adormecido onde respirei a alma destes instantes intensos. Devolves-me um sorriso e com ele o renascer destas alvoradas onde em ti mato a sede e o meu desejo.

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nocturna

13 de Março de 2009


foto: joão espinho

Construo o pensamento aos pedaços: cada
ideia que ponho em cima da mesa, é uma parte do
que penso; e ao ver como cada fragmento
se torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.
Filosofia – Nuno Júdice

a blip a day

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Semente do desejo

10 de Março de 2009

Há
(sinto-o)
Um batimento crescente,
Cada vez mais forte,
A ecoar nas paredes desta muralha
Na minha transformada redoma
Onde só eu
E os meus sonhos
Habitamos serenamente.

Há
(ouço-o)
Um constante tremor
À volta do meu muro
Como se alguém tentasse desconstruí-lo,
Tijolo a tijolo,
Deixando que entre os grãos de areia
Se façam espreitar raios de luz
Que lutam por abraçar
O único sobrevivente das minhas fantasias.

Há
(sei-o)
Um pulsar a agitar esta minha meia-luz
Erguida telha a telha
Onde renasço desvairado nas noites inundadas de luar
E me alberga
Em madrugadas desventradas
Pelo absinto das palavras que escrevo
E proclamo.

Há
(pressinto-o)
Um apetite de paixão que inflama
Os campos onde me abrigo
E onde as estrelas
São as gavetas dos meus espelhos.

Há
(conheço-a)
Esta semente de desejo.

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Mudança

9 de Março de 2009

“Todo o mundo é composto de mudança”.

Mudo. Mudo-me.
Todos os dias mudo de camisa e de cuecas.
Mudo de meias e de calças.
Mudo.
Mudo os lençóis da cama e as fronhas das almofadas.
Mudo de champô e de gel de banho.
Mudo.
Mudo a fechadura da porta e a forma como estaciono o carro.
Mudo de sapatos, de camisola de malha, de lenço.
Mudo.
Mudo de sorriso e de humor. Mudo o que ouço. Em casa, no mp3, na viagem.
Mudos os canais de TV, os filmes, as séries.
Mudo.
Mudo de espelho, de pente, de isqueiro, de marca de tabaco.
Mudo o sítio onde escrevo, mudo a caneta, o teclado.
Mudo.
Mudo de amor, de paixão. Mudo da noite para o dia.
Mudo da lua para o sol. Mudo da praia para o campo.
Mudo.
E mudo faço a minha mudança.

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a volúpia dos segredos

5 de Março de 2009


foto: a j kahn

O vento trouxe-me a brisa do teu olhar
O perfume do teu sorriso
Transformando o mar encrespado
Num campo de pétalas frescas
Onde me aconchego em silêncio
Deixando que os sentidos se incendeiem
No poente destes corpos que derramam
Seiva e mel, exaltação e prazer
Na volúpia dos nossos segredos.

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palavras interditas

4 de Março de 2009


foto: diana bodea

(…) e sem pudor
arranco-te a pele com a minha língua
que te devora em sofreguidão.

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Mood

3 de Março de 2009


foto: a j kahn

As tuas mãos terminam em segredo.
Fernando Pessoa

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emoções

3 de Março de 2009

palavras repetidas e sempre um som crescente a despertar a intensidade de cada momento.
marés de expressões reditas e cada vez mais entoadas em clamores desconhecidos.
fases de um planeta que me alimenta esta antologia emocional de viver.
uma palavra, um gesto e todos os vocábulos se perdem num infinito cintilante
onde o horizonte não se consome, não se fina, porque é ali que te sonho.

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olhos feitos de poesia

28 de Fevereiro de 2009


foto: jan scholz

Esta noite pousei em ti como uma borboleta
Saciei-me no teu pólen e aromas
E na minha boca ficou este sabor florido
Que me invade e faz estremecer
Num desejo constante que a primavera chegue
E com ela a luz dos teus olhos feitos de poesia
Que reacende este fogo impregnado de ti.

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canção

24 de Fevereiro de 2009

Em que margem do rio estou que não me consegues tocar.
De que lado da montanha ando eu que não me descobres.
Qual o hemisfério que me acolhe e me afasta de ti.
Em que estação me encontro que não me deixo colher.
Que sorriso é esse que me faz cantar?

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no segredo da noite

21 de Fevereiro de 2009

Todas as noites me deito contigo nos lábios
E com eles escrevo-te poemas e dito-te segredos
Onde surge a palavra que se reparte pelo meu corpo
fragmentado de pele e poros que aguardam a tua chegada.

Todas as noites em que me desejas e em mim te fundes
É com a língua que te desenho as palavras imaginadas
E com a boca percorro todos os recantos do teu poema
Até que o amanhecer nos inunde o leito
E transforme os nossos beijos em estrelas incandescentes.

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