Escreve Maria Helena Palma:
Alentejo, meu Alentejo …
“No rescaldo do programa Prós e Contras acerca do Alentejo, várias foram as emoções que senti, e vários os pensamentos que me assolaram. De louvar o tempo de antena que foi dado a uma região tradicionalmente esquecida, para relembrar aos poderes públicos que existe um território a sul de Lisboa, por onde velozes automóveis circulam para chegar ao Algarve, ou a Espanha. Grata ao Bruno Ferreira e ao Florival Baioa pela forma como defenderam a nossa “dama” chamada Beja.
Tendo por base a grande precocupação com a situação de seca actual, diferentes temas foram abordados pelos vários intervenientes, colocando o dedo na ferida, no que respeita ao despovoamento, à falta de condições de vida e desenvolvimento, de uma grande superfície do território alentejano, tendo mais uma vez ficado bem patente o desprezo e o alheamento a que os responsáveis governamentais votam um Alentejo que não gira em torno de Évora, e onde existem pessoas que por lá tentam construír as suas vidas, numa atitude perfeitamente estoicista.
Triste constatar que para o Governo, ou para quem o representa, o Alentejo se resume ao Alqueva, ao que em torno dele se tem feito, e que com um comportamento completamente autista e quiçá arrogante, afirma e proclama maravilhas, tendo a ousadia de referir que a auto-estrada chegou ao Alentejo que a linha ferroviária vai ter um enorme investimento, que um novo hospital vai ser construído, que grandes empresas se fixaram, mas … não afirmou em tempo algum que esses investimentos são apenas numa pequena parte do território alentejano: Évora. Triste também verificar que o debate, para o Sr.Ministro, não foi mais do que um discurso político, como melhor lhe conviu, fazendo a apologia do poder instalado, e obviamente, seguido no formato do discurso, por aqueles que a mesma cor têm vestida, e que não querendo crispação, apenas referiram também as “maravilhas” das suas regiões e dos seus interesses.
Não sou céptica quanto ao Alqueva, aliás reconheço a mais valia que foi para muitas regiões do Alentejo a sua construção, e toda a transformação que tem trazido, quer à paisagem, quer à economia alentejanas. A diversificação de culturas permitiu mudar o paradigma instalado durante várias décadas, e o regadio é sem sombra de dúvida uma aposta ganha. No entanto, sendo um investimento determinante para o Alentejo, e encontrando-se uma parte significativa deste investimento em território do Baixo Alentejo, como o Sr.Ministro referiu, não podem as respectivas populações ser votadas a um completo desprezo, porque o Estado já aqui investiu o que havia a investir …. enquanto, numa parcela do Alto Alentejo continua a investir, a desenvolver e a potenciar a instalação de indústria que irá contribuír para a fixação de pessoas, e fazer crescer a economia local. Num Alentejo que ocupa 31 551 km², não é justo que apenas se olhe para 7 393 km² do distrito de Évora, e se marginalizem 6 065 km² do distrito de Portalegre, e 10 229,05 km² do distrito de Beja, tão somente o maior distrito de Portugal, não esquecendo que os restantes 7.863,95 K2 pertencem aos distritos de Santarém e Setúbal. O Baixo Alentejo não se esgota no Alqueva. É muito mais do que isso. E o Alentejo não se esgota em Évora. É também muito mais do que isso. O distrito de Beja, tem tudo para ser um polo de desenvolvimento regional e nacional, bastando para tal, que exista real vontade política. Tem agricultura e algumas inerentes indústrias agro-alimentares, tem litoral com praias de grande qualidade, tem gastronomia, tem património histórico, tem uma cultura ímpar, tem gentes que querem trabalhar e empreender. Faltam condições para atraír investimento e fixar populações. Faltam infraestruturas de apoio fundamentais que possam potenciar o desenvolvimento do aeroporto, ainda que numa vertente de carga, de ensino, ou de desmantelamento. Falta investimento hoteleiro que só será realidade se os investidores virem forma de o rentabilizar. Falta um hospital com maior capacidade e melhores condições. Falta dinheiro a circular. Faltam tantas outras coisas que encadeiam umas nas outras, e que só com a economia regional a funcionar, poderão acontecer. E falta aquilo que vemos desaparecer cada vez mais, e que é o maior e o melhor capital de uma região: as pessoas.
Não é possível fixar populações quando não existem condições nem perspectivas de trabalho. Por isso, na região de Beja, são cada vez mais os jovens e os menos jovens que saem e não voltam. Espalhados pelo país, pelo mundo, os jovens do Baixo Alentejo, procuram oportunidades e constroem as suas vidas, muitas das vezes com o sentimento amargo de terem a sua região natal como madrasta. Ao falar-se de jovens empreendedores na região, é bom que se tenha a consciência de que os jovens empresários agrícolas existentes, na sua grande maioria, desenvolve explorações que já pertenciam às suas famílias, cujas estruturas estavam montadas, e que apenas dão continuidade àquilo que os seus pais e avós faziam, agora numa nova realidade de culturas e distribuição. Um jovem que queira iniciar actividade na agricultura de regadio, que não tenha património fundiário de família, muito dificilmente consegue levar avante o seu projecto, já que os valores de venda do hectare inflaccionaram de tal forma, que chegam a atingir 35.000 euros/ha, e existe ainda todo o restante investimento para efectuar, o que com recurso a financiamentos bancários, se torna perfeitamente inviável. Quando se fala de apoios, eles existem, mas se não forem bem analisados os requisitos e as obrigatoriedades, bem como um plano de exploração adequado e rigoroso, caír no caos é muito fácil. De facto, o regadio é excelente, tem um desempenho económico muito bom, mas apenas para quem já tinha património fundiário, ou para os grandes grupos que cada vez detêm mais hectares no Alentejo, ousando dizer que se num passado algo distante estávamos nas mãos de meia dúzia de famílias, agora arriscamo-nos a estar nas mãos de meia dúzia de grupos económicos.
Inerente a estas explorações agrícolas de grande dimensão, a evolução tecnológica que se impôs, com rega programada, vistoria das propriedades com drone, e todo um conjunto de medidas que se impõe para que os investimentos possam ter alta rentabilidade. A mão de obra permanente local é muito escassa, limitando-se na maior parte dos casos a alguns técnicos, e pessoal “todo o terreno”, que asseguram o dia a dia. Nas alturas de “pico” a mão de obra barata recrutada fora do país, povoa a região, para logo regressar aos locais de origem, e não acrescentando qualquer tipo de riqueza às localidades. São escassos os que permanecem e se radicam, com uma consequente integração na sociedade.
Preocupante, muito preocupante, a actual situação de Beja e do Baixo Alentejo. Uma região estagnada, cuja tendência descendente não vislumbra inversão, uma vez que os seus cerca de 23 400 habitantes do perímetro urbano, 35 854 habitante do concelho e 152 758 habitantes do Distrito, não são preocupação suficiente para o poder central, quando comparados com concelhos como por exemplo Amadora com 175 136 habitantes, Almada 174 030 habitantes, Sintra 381 728 habitantes, logo, mais eleitores e mais votos(dados retirados do Censos 2011).
Directamente relacionada com as pessoas está a habitação. Não sendo Beja uma região em expansão, a construção nova é praticamente nula, e apesar de a tão falada crise do imobiliário estar a ser ultrapassada nos grandes centros urbanos e no Algarve, a verdade é que em Beja o mercado está perfeitamente adormecido e sem crescimento. Foi recentemente publicado um artigo onde está bem patente a actual realidade do Alentejo face ao resto do país. Falamos apenas de índices de avaliação bancária, mas sendo a habitação uma parte importante das nossas vidas, um direito, e um barómetro da economia e do desenvolvimento, basta ler, para perceber as diferenças e tirar conclusões:
“A avaliação bancária subiu na média nacional, mas os valores para o Alentejo continuam a ser significativamente inferiores ao resto do país:
– Entre 1,5% e 2,1% na região de Lisboa e Açores e Madeira respectivamente, face a 0,8% no Alentejo
– Nos apartamentos o valor médio teve uma subida de 3,3% nos Açores, versus 0,7% no Alentejo.
– Os valores de avaliação no Algarve e na área da grande Lisboa foram de 26 e 22% superiores aos verificados no resto do país.
Perante estes valores verificamos a assimetria do País, continuando o Alentejo à margem do crescimento e do desenvolvimento.
Sr. Ministro, Srs Governantes, o Baixo Alentejo não é uma folha de excel, onde investimentos passados, não justifiquem investimentos actuais e futuros. O Baixo Alentejo é composto por pessoas que trabalham e querem trabalhar cada vez mais e melhor, e que merecem a vossa atenção. O Baixo Alentejo é composto por pessoas que precisam de cuidados de saúde sem terem que se deslocar 200 km de ambulância por estradas secundárias. O Baixo Alentejo tem massa crítica e pessoas competentes para colaborar no seu desenvolvimento e crescimento. O Baixo Alentejo é um património nacional, como qualquer outra região do país, que paga os seus impostos e cumpre os seus deveres. Não merecemos despezo. Não somos cidadãos de segunda, e por favor, não brinquem connosco ao afirmarem que está tudo muito bem, e que ficam escandalizados e ofendidos quando falamos do Alentejo real, daquele em que vivemos no dia a dia, e não naquele que os Srs. visitam em feiras e eventos, ou em fins de semana relaxantes, onde tudo vos é servido de bandeja em prato de excessivo optimismo.”