O meu contributo semanal para o programa “Palco das Artes” (RADIO Pax, 101.4 FM,5ªs 18h-19h00), onde falo de blogs e blogosfera.
Nota: Esta crónica foi escrita para o programa da passada semana, não tendo sido emitida porque o programa não se realizou. Julgo não ter perdido actualidade.
De há uns tempos para cá tenho assistido a um fenómeno nos blogues que me parece indiciar uma doença qualquer.
São os chat-blogues.
O que é um chat-blogue?É simples.
É um blogue que vive não do que escreve o seu editor mas sim do que é deixado nas caixas de comentários dos respectivos blogues.
Eu diria mesmo, que são blogues que sobrevivem da quantidade de comentários que têm e não da substância desses mesmos comentários.
Quis fazer a experiência no meu blog, para tentar avaliar como o sistema funcionava e, em 24 horas, um post que não dizia absolutamente nada teve mais de 250 comentários.
No meu caso avisei que aquele era um post vazio e que, quem quisesse, escrevesse o que entendesse e da forma que lhe apetecesse.
Entretanto fui visitando os chat-blogues que conheço, para ver como é que a coisa funcionava e tentar importar para o meu post vazio a metodologia praticada nesses blogues.
E a coisa é assim.
O sistema funciona em circuito fechado. Com 4 ou 5 amigos chegamos às centenas de comentários. O Zé escreve uma coisa qualquer no seu blogue e o primeiro comentário é da Antónia. Depois vem o Luís que responde ao Zé e à Antónia. O Zé, por sua vez, responde ao Luís e à Antónia. A Francisca, que já chegou tarde, comenta o Zé, a Antónia e o Luís. A pescadinha volta a morder no rabo quando o Zé decide responder à Francisca, à Antónia e ao Luís.
Tudo o que se escreve é para consumo interno, fechado.
O grupo de amigos torna-se coeso, as afinidades são postas a descoberto e o circuito não se abre.
Um forasteiro lê aquilo tudo, tenta compreender do que é que se fala e arrisca dar uma opinião. Tramou-se. Cometeu um grave erro.
As pescadinhas caiem-lhe em cima, dizem-lhe que ele não tem razão e mandam-no porta fora. Mas não podem fechar a porta, pois caso contrário não podem ver ao espelho os seus e os umbigos uns dos outros.
O sistema funciona, é barato e dá milhões (de comentários).
Não sei qual é o futuro da blogosfera se muitos editores de blogues aderirem a esta moda.
Mas estou em crer que isto é mesmo uma moda, um vírus ou, se quiserem, uma mania.
Como todas as modas, esta dos chat-blogues também terá o seu declínio.
Deseja-se que a moda passe depressa, pois um blogue vale pelo que nele se escreve, pela qualidade de um comentário e não pelas manifestações onanistas patentes em centenas de comentários.