Arquivo da Categoria ‘Intimidades’

ENIGMA -1-

27 de Junho de 2004

Já é a segunda noite (seguida) em que me deito mais tarde do que o habitual.
Há algo que me agita e me roga: “Não te deites!”
Vou combatendo o sono ao som do teclar de uma escrita que parece não ter fim.
Sem sentido, algumas das palavras aparecem e assemelham-se. Fogem para o mesmo significado.
Sem razão aparente, por estes dias apetece-me repetir uma e outra vez o olhar estrelas.
No firmamento e em terra.

Há pois qualquer coisa que me diz: “Não vás!”
Intrigado, estou tentado em ir.
Só assim saberei se a cama onde me deito é a mesma que acolhe o meu corpo.
Enigmas!

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NOCTURNA

6 de Junho de 2004

Uma ocorrência nocturna:

Não peço para que sejas minha, mas peço-te que me deixes ser teu!

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UMA VISITA

3 de Junho de 2004

Ontem, no telejornal da noite, falava-se do fenómeno dos objectos voadores, observado um pouco por todo o país. E disse o locutor que seria previsível a repetição do mesmo, sensivelmente à mesma hora.
Olhei para o relógio. Ainda teria que esperar uma boa horinha. Decidi chegar à varanda, olhar para os céus e tentar descortinar a aproximação de almas de outros mundos. Tudo sossegado!
Pensei com os meus botões: “Mando um sms para o ar, um amável convite, e pode ser que alguma alma me responda”. E assim fiz. “Convido-te para um chá de hortelã, bem fresquinho, com boa música” e acrescentei a localização.
Como ainda tinha algum tempo, aprontei tudo como manda a etiqueta, bem limpinho, desliguei a TV, não fossem as ondas interferir na vinda da tal alma, coloquei o mais recente cd dos simply red, ajustado àquela música que até faz ir às lágrimas qualquer coração empedernido (“You make me feel brand new”…) e aguardei com ansiedade uma resposta do além.
Perto da hora prevista, sinal de mensagem no telemóvel. Pensei, a operadora a informar que tenho menos de 5€ de saldo (quanto custará uma mensagem para o espaço?). Foi com uma grande admiração que li “Vou tentar dar com isso. Estou a sair já!”.
Não vinha assinada, nem trazia o tradicional bjs. E donde viria? Estaria a sair donde? Quem iria eu enfrentar? Estaria eu em segurança ali naquele sítio? Seria melhor ir para um local público?
Demorou cerca de meia hora a chegar.
Assim que nos falámos, percebi que eu não tinha razão para tantas questões e dúvidas.
À minha frente não estava uma alma do outro mundo. De carne e osso, bem pragmática, preferiu o tradicional café. A conversa fluiu, como é hábito entre gente que sabe conversar.
À despedida acompanhei-a até à rua.
Percebi alguns olhares malandros na vizinhança.
Quando ela se afastou, olhei bem, e vi que estava rodeado de ET’s!
Há noites assim….

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SO IST DAS LEBEN!

5 de Abril de 2004

Sabia que ela tinha o gosto da escrita. E pela Literatura. Que já havia publicado algumas letras, em forma de estudos – ou ensaios, quando ainda frequentava a Faculdade de Letras. Foi aqui que a conheci. Ou melhor, foi na Universidade que a reconheci.
Sempre lhe apreciara as formas e o pisar elegante nas passadeiras da praia. Era então uma jovem com ar rural, mas percebiam-se-lhe intenções urbanas.

Quando a reencontro nas aulas de Introdução aos Estudos Linguísticos, destacava-se por cuidar da pele e dar retoques na pintura, isto perante o plenário, que eram as nossas aulas na Universidade. Nada a incomodava, muito menos as permanentes citações a Saussure, sim o Ferdinand, que nos dava cabo da cabeça. Tal como ela.
Curiosamente, as suas notas nos testes suplantavam largamente a média geral (que já era bastante alta).
Foi numa aflição em Alemão que ela se socorreu de mim.
Fizemos logo um contrato: os trabalhos de Língua Alemã (em grupo, pois claro) seria eu a fazê-los. Escreveria o seu nome como tendo participado na elaboração da tarefa.
Em troca, o meu nome constaria nas aflições das Literaturas.
Com esta estratégia, víamo-nos com menos frequência.
Era por vezes o comboio que me trazia para o Sul, e a ela mais para sul ainda, o local onde fazíamos um balanço da semana.
Os tempos correram – fugiram!
Eu virei-me para o lado que me dava mais conforto e ela desapareceu.
Foi com grande surpresa que, há dias, lhe reconheci o perfume, uma mistura de eucalipto e pinheiro.
Teria voltado às origens?
Sem tocar no açúcar do café que estava na sua frente, desenrolou a sua vida, mexendo porém a colher, como se esse movimento fosse o espelho da sua vida.
Reconhecemo-nos em vários pormenores.
Eu, no entanto, fiquei boquiaberto quando me descreveu a sua actividade de assessora da administração de uma grande empresa…alemã. E que estava a residir na grande metrópole berlinense.
Não lhe perguntei, mas certamente que guarda carinhosa e agradecidamente cópias dos trabalhos (em grupo) que fizemos na Faculdade.
So ist das Leben!

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A AMIGA

4 de Abril de 2004

Desde que a conheci, sempre assim foi. Inconstante. Imprevisível.
Saltava de compromisso em compromisso.
Isso obrigava-a a ir de mesa em mesa, de café em café.
O primeiro emprego também não a segurou. O segundo não sei se ainda o mantém.

Depois, com o tempo, corria pela noite à procura de um desconhecido que lhe oferecesse um ombro, um carinho ou, como ela dizia, uma malícia (tinha algo a ver com carícia, mas era diferente).
Nunca encontrou ninguém à sua medida.
Os obstáculos que criava, faziam-na fugir. Mas a culpa não era dela.
Com o aparecimento dos telemóveis, a amiga ficou ainda mais estranha. As mensagens, os toques, a permanente solicitação para novos encontros.
Enquanto trabalhava, era-lhe proibido andar no frenesim das chamadas, mas descobriu a forma de, durante essas horas, estar em contacto com o seu mundo. Colocava discretamente o aparelho entre os seios, em modo de vibração, e assim ela vibrava à chegada de cada mensagem ou toque não atendido. Sentia-se feliz, vibrava, porque sabia haver alguém a pensar nela.
Agora, soma as vibrações aos contactos com os messengers na net. Comprou, ou pediu emprestada, uma webcam. Vive refugiada nas vibrações de um smile, de um kiss ou de uma rosa que lhe oferecem.
Liga e desliga! E sempre que sabe que estou por ali perto, com receio que a veja, desliga-se. Desconhece as tecnologias. E volta a ligar-se.
E eu sento-me a olhar a sua fotografia, com pena de a ver pendurada numa linha.
Todos temos uma linha. A da amiga é assim.

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ARRUMAR A CASA

3 de Abril de 2004

Como podem verificar, a casa ainda está sem mobiliário. Tem o frigorífico ligado – sinal que há corrente nas tomadas – e a única lâmpada que está a funcionar é mesmo e só a do frigorífico.

Tudo o resto está ainda na casa antiga. Estou à espera da ajuda preciosa do dono do imóvel, pois só ele é que tem as chaves das portas das diversas assoalhadas.
Esta fase de não estar num lado nem no outro tem as suas complicações.
Ontem à noite, por exemplo, quis convidar uma companhia agradável para vir tomar um chá de ervas galegas mas, como era de esperar, não tinha chávenas disponíveis. Ainda fiz a proposta de virmos para esta casa, mas aí a coisa tornava-se complicada, pois aqui ainda não tenho água.
E não sei fazer chá sem água.
Ficámos pela casa antiga, mas com um certo desconforto.
Decidimos então ir dar uma volta, a ver a nocturna bejense.
Desinteressante. Morta. É assim a cidade em tempo de férias.
Vamos então deitar, foi o que dissemos!
A meio do caminho expliquei que não sabia onde tinha a cama.
Se na casa velha se na nova.
Ah! E os lençóis?
E….
Acabámos por ver nascer o Sol junto ao Cemitério.
Era por ali que passaria a “boleia” da minha companhia.
Desconfio que nunca mais aceitará um convite para beber chá comigo.

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