Arquivo da Categoria ‘Intimidades’

despertar

4 de Outubro de 2008


foto: martin engelbrecht

Chegas encoberta pelo silêncio da noite. No escuro procuras-me e os teus dedos encontram-me.
Desperto nesta alvorada, onde deixaste as tuas nas minhas mãos.

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aroma

1 de Outubro de 2008


foto: patricia pastore

Descubro-te novos aromas enquanto limpas o corpo
Onde há pouco me desfiz, como a seiva que em ti derramei.

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Amanhecer

28 de Setembro de 2008


foto: adolfo valente

Desperto-te.
Sorris-me de olhos fechados.
Adormeço.
E é o meu sorriso que nos desperta.

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Escrever é um gesto perverso

28 de Setembro de 2008


foto: autumn

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Alvorada

25 de Setembro de 2008


foto: david le beck

Amanheces deixando que a luz ilumine a forma do teu corpo
Onde a pele ainda exala os aromas dos frémitos nocturnos
E da humidade que senti
Nos dedos
Nas mãos
Nos abraços.
E no silêncio da alvorada abandono-me
No leito dos teus encantos.

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Ouve-se

23 de Setembro de 2008

Gosta-se. Ouve-se. Gosta-se.
E não se agradece, porque só assim se gosta.

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do desejo

22 de Setembro de 2008


foto: gabriele rigon

Sinto no teu gesto um suspiro de desejo.
Toco-te e o teu corpo desliza sobre o meu.
São breves as palavras.
Intensos os movimentos que com as nossas bocas
Dizemos o silêncio.

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Outonal

16 de Setembro de 2008


foto: xenteks

Respiro no olhar a quietude do momento que precede o abraço.
Sei que são esses os olhos que iluminam o bosque, onde quero deixar entrar o Sol
E onde as folhas de Outono sirvam de cama ao fervor dos corpos
Que se abraçam. E desejam em fim de estação.

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A posta final

29 de Agosto de 2008

Chego de um almoço com gente interessante, que sabe falar de si, desconhece a vida dos outros. Revisitamos lugares, situações. Olhamos para a frente, para aquilo a que nos habituámos a chamar de
futuro.
Estamos ali a falar de nós. Os bancos do Liceu
tanta coisa
e depois dizemos adeus, um verdadeiro até logo e fica-se num vazio quando se percorrem as ruas até chegar a casa.
Um vazio de pessoas que nos digam mais do que um “olá, como estás?” ou esse surdo “está tudo bem?” e eu digo que sim, olho-os na face e não os vejo
gente infeliz
porque vou em passo ancorado, não preciso que me digam a vida que levam, desinteressam-me as nódoas que têm na roupa ou na alma
preciso de ir comprar tabaco
e chego e digo, alguém perdeu esta nota de 5 euros,
deverias ter ficado com ela
se calhar foi o cliente da bomba 5
chego a casa, sorrio,
os meus abrigos estão a chegar
e há coisa mais importante que tê-las aqui?
perto, muito perto de mim
A escrita com imagens. Desejar bom fim de semana a quem por aqui passa, mantendo hábitos e vícios.
Mensagens, mails, telefonemas e tudo parece que se descarrega com a força do vento de hoje
já tenho na minha agenda
e afogo-me nas últimas páginas da única literatura que me alimenta
– “Menino
e a poisar-me devagar os dedos no cabelo”

e escrevo, mais um parágrafo, umas vírgulas.
Apetece-me o ponto final.
e vais acabar com isso?
claro que não, mas vão deixar de saber qual a cor das meias que uso e se estou sentado
com quem?
numa esplanada ou num bordel.
Marcho-me para onde só eu me leia
escreve, escreve
e decido-me por esta redacção
final?
que é, afinal, um parágrafo.

(bom fim de semana a quem me lê. até já)

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A cama

21 de Agosto de 2008

Esta noite dormi no outro lado da cama. Aquele lado, vazio enquanto não se preenche, para onde se viram sonhos e insónias. É também o lado onde habitam memórias recentes, más companheiras de cama, que ressonam, esbracejam, dão pontapés, são agitadas. Falo com elas e insulto-as, tento expulsá-las do meu leito, digo-lhes que daquele lado só quero amor e sexo e carinho, que ali não há espaço para memórias. Viro-lhes as costas e deito-me no meu lado.
De manhã, ao acordar, a cama parece-me mais vazia. Ali só restam agora ténues manchas de uma noite de luta, de muitas horas de sexo, amor e carinho. De memórias que se apagam.

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Novo dia

20 de Agosto de 2008


foto: Thich Quang Duc

Deito-me e receio que a penumbra regresse com a tua forma.
Porém, desperto com um sorriso nos lábios, quando te vejo como uma sombra a sair pela porta que antes deixaras entreaberta, pronunciando os silêncios da despedida.
Lá fora o Sol anuncia um novo dia.

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Conto da madrugada

18 de Agosto de 2008


foto: robert wasinger

O banquete seria servido à meia noite, segundo uma ementa definida previamente pela anfitriã. Sem rituais, os convidados deveriam escolher um só e único prato.
Sentados, salivando e desejando iniciar o repasto, não repararam na ausência de pratos, talheres e copos.
Cada um por si, consultou o cardápio. Trocaram olhares de admiração, de surpresa, de frustação.
Um a um foram-se retirando, deixando a anfitriã sozinha sentada à mesa.
De sorriso nos lábios, dirigiu-se à cozinha onde a esperava o mestre de cerimónias. Ali mesmo, em cima da mesa redonda, consumiram-se em sexo, ardente.
O tampo da mesa quebrou-se e a ementa caiu no chão, deixando aberta a página onde se podia ler “comei-vos uns aos outros, como gostariam de me comer a mim“.
Juraram não repetir a ementa.

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