Sentei-me no carro, desta vez decidido. Não poderia adiar por mais tempo uma conversa que teimava em não surgir. Quando, naquela noite, depois da súbita visita de Mariana, e já muito depois da sua saída, liguei o telefone, reparei que Célia havia tentado chamar-me uma dezena de vezes. Estranhamente não me deixara nenhuma mensagem nem nada para que eu pudesse perceber aquela ânsia.
Há alguns dias trocámos algumas palavras, curtas, pois as suas mais recentes decisões haviam-lhe cortado a liberdade. Agora sentia-se refém de si própria. Sabia que todos os seus passos estavam a ser seguidos e que o próprio telemóvel era sujeito a inspecção. Numa das mais recentes missivas dizia-me que não amava o homem com quem escolhera viver. Mas que não tinha outra alternativa se não continuar a seu lado e a acompanhá-lo em mais esta missão no estrangeiro. Seria a última do diplomata e, para ela, provavelmente, também um ponto final na felicidade que procurava. Deu-me a entender que seria quase impossível voltarmos a conversar longamente e os contactos telefónicos tornar-se-iam raros. Talvez uma carta ou outra, mas mesmo essas ela tinha receio que fossem interceptadas. O diplomata era pessoa influente e ela, com os seus medos e, não tenho dúvidas, inseguranças, sentia-se espiada por toda a parte.
Antes de sair, hesitei em dar-lhe um toque para o telemóvel. Tinha consciência que esse era um risco demasiado grande. Tentaria vê-la, ao longe, e quando a soubesse livre, ligar-lhe-ia para lhe dizer que estava ali, bem perto, e pedir-lhe-ia uma breve conversa.
Verifiquei se levava comigo a carta que lhe ia entregar. Não sabia se teria tempo disponível para lhe dizer que seguisse o seu caminho, pois que eu teria que seguir o meu. Sabia que aquelas seriam palavras duras, para ambos, mas eu não poderia continuar a viver numa correria desenfreada para o abismo. E se ela já tinha visitado as profundezas da depressão e de uma tentativa de suicídio, eu não me podia permitir acompanhá-la nessa viagem.
Quando ponho o carro em marcha, para percorrer as centenas de quilómetros até à capital, e sem saber sequer se a conseguiria ver, toca o telemóvel e vejo que é Célia:
“Estou aqui perto de ti. Vai ter comigo ao Parque. Tenho pouco tempo.”
Não me deu tempo para responder.
Segui a toda a pressa para o sítio combinado e, meio perdido, procurei-a.
Ao vê-la, naquela manhã de céu cinzento e nuvens carregadas, mas por onde o Sol ainda conseguia romper, senti que tudo o que lhe queria dizer não fazia sentido.
“Só tenho meia hora”.
Foi o tempo suficiente para decidirmos os nossos futuros.
Li-lhe a carta. A seguir rasguei-a e entreguei-lha num sinal de perdão.
Guardou os pedaços daquela escrita e, naquele momento, soubemos ambos compreender o significado deste gesto.
Nessa noite convidei Mariana para um jantar.