Arquivo de Agosto de 2004

CÉLIA -30-

2 de Agosto de 2004

Ao virar a página daquele caderno, reparei no que me parecia o texto de uma carta. A entrada não enganava. Um esclarecedor “Olá amor!” só poderia significar uma comunicação. Fechei o caderno. Não me podia autorizar a violar um espaço que sabia ser mais do que privado. Estavam ali os seus desejos mais íntimos. O relato cru de emoções e sentimentos. Tudo escrito na 1ª pessoa.
Entreguei-lhe o caderno.
Fitou-me profundamente e perguntou-me: “Queres ler essa carta?”
Achas que devo?
Tinha curiosidade em saber como é que Célia se relacionava com a pessoa que amava. Ao mesmo tempo assaltava-me um medo de que aquelas palavras me provocassem algum desconforto.
“Lê, e peço-te silêncio”.
Prometo.
Abri de novo o caderno no sítio onde me parecia que estaria aquela carta.
De dentro do caderno solta-se um pedaço de papel que me cai aos pés. Apanho-o e consigo ler: “Olá amor! Escrevo-te estas pequenas linhas para te dizer simplesmente que te amo. És o oásis do deserto onde vivo. De todas as palavras que te escreva, estas são as mais sinceras. Um beijo”.
Guardei o papel no meio do caderno e preparava-me para ler a carta quando Célia, sem hesitar, me diz:
“Não vale a pena leres a carta”.
Fechei o caderno.

A letra do manuscrito que me caíra aos pés não era a de Célia.

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SEM TíTULO

1 de Agosto de 2004

Dá-me vontade de te ter a meu lado
Vendo-te a olhar para mim
Sei que estou apaixonado
Mas não posso ficar assim

Deitado num rochedo canto para ti
Como um pássaro livre que voa sem fim

Porque é que a vida nos trama
Quando alguém se ama?
Ter de partir
E não poder sorrir

Porque é que choras?
Porque é que dizes o meu nome
Sem nunca me poderes tocar?

Tenho saudades de te ver
Vontade de te abraçar
Sózinho tocando um guitarra
Junto ao mar

Recordo-me de ti
E imagino porquê
A tua cara a flutuar

Porque é que a vida nos fascina?
Tantas vezes nos domina?
Acreditar que no amor
Não se sente a dor

Mas é mentira!
Mentira! Mentira!

(“Mentira” – de João Pedro Pais)

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ENIGMA -15-

1 de Agosto de 2004

Não sei como será o último acto desta peça que estamos (vamos) escrevendo.
Temo que quando o pano se fechar, esteja cada um em seu palco.
Tenho a certeza que nenhum de nós estará na plateia para aplaudir o outro.

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