sem título
18 de Novembro de 2007
foto: joão espinho
“É tarde e és tu.
acima de tudo,
entre a manhã e as árvores,
à luz dos olhos,
à luz só do límpido olhar.”
Nuno Júdice, in “subitamente surge. tem o teu nome” - Poesia Reunida 1967-2000

foto: joão espinho
“É tarde e és tu.
acima de tudo,
entre a manhã e as árvores,
à luz dos olhos,
à luz só do límpido olhar.”
Nuno Júdice, in “subitamente surge. tem o teu nome” - Poesia Reunida 1967-2000
“Oxalá o Sol continue (…) parado sobre mim e eu embalsamado nele. Vestido dele. Afogado nele. (…)”
António Lobo Antunes - in Visão - Outubro 2007

foto: eric kellermann
“(…) Entregai-me depressa à lua cheia (…)”
Vinicius de Moraes
(more…)

foto: serge g.
Esta manhã, quando acordei, e a tua imagem
se atravessou à minha frente, ainda olhei pela
janela, não fosse ter nascido da luz que entrava.
Depois, pensei que podia ter sido um pedaço de
sonho que se partiu durante a noite, quando
o atirei para o chão. Mas não vi
nada, à minha volta, como se uma imagem pudesse
ter desaparecido de um momento para o outro,
ou a noite nunca tivesse existido. Saí
de casa, atravessei a rua até ao café e, enquanto
o bebia, fechei os olhos. E a imagem voltou,
tão real que, quando olhei de novo para a frente,
a mesa vazia transformara-se num sofá onde
estavas estendida, em repouso, como se o dia todo
tivesse passado por ti, e a noite te envolvesse
com o seu peso branco.
Nuno Júdice
“Era uma noite como outra qualquer. Por acaso até era uma noite especial, embora naquele local sem história, o especial que se comemorava lá fora, era banal aqui dentro. Os corpos repousavam num improvisado sofá, corpos banais, com falhas e imperfeições, de uma banalidade mítica que só se conhecem nos momentos especiais.
Bocas nervosas verbalizavam sem se deter, cientes na força do silêncio, propulsor do abraço quente e forte que os corpos exigiam, em gritos mudos. Tocaram-se, motivados pela fome canina do desejo, entregues na paixão do efémero, consomem-se com a volúpia da primeira e única vez. Comem-se com a suprema tesão dos amantes furtivos, vasculhando com lábios insaciáveis todos os recantos de um corpo que era seu sem nunca o ter sido. Mas são traídos por gestos e olhares, mais expressivos que as palavras que não querem ou sabem dizer! Afastam-se, cada um segue mudo o seu próprio destino, depois de fingirem foder quando se amaram!”
Amélia
(contributo para um dos Passatempos referentes ao Festival do Amor)
Essa espécie de faísca invisível em que revejo a luz
Que te envolve o corpo húmido após o orgasmo
Consome o breve rumor e o ciciar dos lençóis
Onde deixámos as marcas invisivelmente físicas
De um imenso repetir de protestos prematuros.
E sempre tão adolescentes na distância que guardamos
A vergonha desnuda dos corpos tingidos da sombra
Do sémen que inunda a inconsistência do instante
E percorre o calor do teu peito ainda entumecido
Revendo na tua língua um fluxo desconhecido.
Delfos (António Bettencourt)
(contributo para um dos passatempos referentes ao Festival do Amor)

foto: bernd botschen
“Meu ser vive na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim.”
Fernando Pessoa

Nasceu a 12 de Agosto de 1907. Cumpre-se hoje, por isso, o 1º centenário do seu nascimento.
Prospecção
Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado
Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.
Miguel Torga

foto: joão espinho
as paredes caiadas de branco repelem o sol quente da manhã
escuto rumores do destino que esvaziam as ruas cinzentas
à cidade já não regressam os que partem inseguros do amanhã
sem eles os largos são covas gigantes e lamacentas
o que acontece passa ao largo da planicie extensa e triste
e o que não acontece morre no silêncio de cada um que resiste
jorge barnabé in O Outro Crepúsculo

foto: joerg siegert
… Só colado ao teu , meu corpo se sabe corpo.
Por isso para que nada se perca, para que
não nos percamos, vem.
Silvia Chueire via plan(o)alto
“ontem à noite
sonhei de corpo inteiro
– acordei com teu cheiro”
Alonso Alvarez

foto: Eric Boutilier-Brown
“Assim, eu e tu, tecendo o pano do amor, nas costas do infinito”
Nuno Júdice