Arquivo da Categoria ‘Poetas’

Livro

28 de Fevereiro de 2008

Lançamento do novo livro de poemas de Jorge Castro.

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David Mourão-Ferreira

24 de Fevereiro de 2008

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

    David Mourão-Ferreira

Nasceu a 24 de Fevereiro de 1927

nocturno

20 de Fevereiro de 2008

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foto: didier bonnel

    O desenho redondo do teu seio
    Tornava-te mais cálida, mais nua
    Quando eu pensava nele…Imaginei-o,
    À beira-mar, de noite, havendo lua

    Talvez a espuma, vindo, conseguisse
    Ornar-te o busto de uma renda leve
    E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
    Em ti, a branca irmã que nunca teve…

    Pelo que no teu colo há de suspenso,
    Te supunham as ondas uma delas…
    Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
    Era um convite lúcido às estrelas….

    Imaginei-te assim à beira-mar,
    Só porque o nosso quarto era tão estreito…
    - E, sonolento, deixo-me afogar
    No desenho redondo do teu peito…

    David Mourão-Ferreira

Repouso

14 de Fevereiro de 2008

Esta manhã, quando acordei, e a tua imagem
se atravessou à minha frente, ainda olhei pela
janela, não fosse ter nascido da luz que entrava.
Depois, pensei que podia ter sido um pedaço de
sonho que se partiu durante a noite, quando
o atirei para o chão. Mas não vi
nada, à minha volta, como se uma imagem pudesse
ter desaparecido de um momento para o outro,
ou a noite nunca tivesse existido. Saí
de casa, atravessei a rua até ao café e, enquanto
o bebia, fechei os olhos. E a imagem voltou,
tão real que, quando olhei de novo para a frente,
a mesa vazia transformara-se num sofá onde
estavas estendida, em repouso, como se o dia todo
tivesse passado por ti, e a noite te envolvesse
com o seu peso branco.
Nuno Júdice

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foto: Marta Gliska

O Olhar de … Nuno Júdice

18 de Janeiro de 2008

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foto: Anne Vitale

    DEMOCRACIA

    Fui dar com a democracia embalsamada, como
    o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
    numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
    unguentos e colónias, queimavam-lhe incenso
    e haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
    Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
    o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
    a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
    cheirava a cemitério, como se esperasse
    autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
    que lhe dessem família e descendência. Esperei
    que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
    o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
    na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a mexer
    os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
    a última verdade do mundo? «Que queres?»,
    perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»
    Nuno Júdice

poema

7 de Janeiro de 2008

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foto: Oleg Kosirev

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

in “O amor, meu amor” - Mia Couto - “Idades Cidades Divindades - Poesia”

Intimidades

26 de Dezembro de 2007

Quebro a rotina de (re)começar Lobo Antunes na noite da consoada. Sempre no Natal, por rotina que não sei explicar. Neste Natal só me apeteceu a Poesia. A que me oferecem, que leio, a que me ofereço, que escrevo. E rasgo as minhas palavras para desaguar nas letras dos Poetas. Como se estivesse a viver em poesia.
E só me apetece Poesia.

A romã
Tirei os bagos, um a um,
de dentro da romã. Juntei-os
no prato do poema, e construí com eles
a tua imagem para que
a pudesse morder como se ama,
até ouvir o teu riso perguntar-me: «Que
fazes?», enquanto libertavas
os seios de dentro
da camisa, para que a luz os mordesse
como se morde a romã.
Nuno Júdice

Olhando-se

13 de Dezembro de 2007

O espelho enche-se com a tua
imagem; e queria tirá-lo da tua
mão, e levá-lo comigo, para
que o teu rosto me acompanhe
onde quer que eu vá.

Mas sem ti, o espelho
fica vazio; e ao olhá-lo, vejo
apenas o lugar onde estiveste, e
os olhos que os meus olhos procuram
quando não sei onde estás.

Por que não fechas os olhos
para que o espelho te prenda, e
outros olhos te possam guardar,
para sempre, sem que tenham de olhar,
no espelho, o rosto que eu procuro?
Nuno Júdice

sem título

18 de Novembro de 2007

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foto: joão espinho

“É tarde e és tu.
acima de tudo,
entre a manhã e as árvores,
à luz dos olhos,
à luz só do límpido olhar.”
Nuno Júdice, in “subitamente surge. tem o teu nome” - Poesia Reunida 1967-2000

sol

27 de Outubro de 2007

“Oxalá o Sol continue (…) parado sobre mim e eu embalsamado nele. Vestido dele. Afogado nele. (…)”
António Lobo Antunes - in Visão - Outubro 2007

Lua Cheia

25 de Outubro de 2007

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foto: eric kellermann

“(…) Entregai-me depressa à lua cheia (…)”
Vinicius de Moraes
(more…)

repouso

3 de Outubro de 2007

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foto: serge g.

Esta manhã, quando acordei, e a tua imagem
se atravessou à minha frente, ainda olhei pela
janela, não fosse ter nascido da luz que entrava.
Depois, pensei que podia ter sido um pedaço de
sonho que se partiu durante a noite, quando
o atirei para o chão. Mas não vi
nada, à minha volta, como se uma imagem pudesse
ter desaparecido de um momento para o outro,
ou a noite nunca tivesse existido. Saí
de casa, atravessei a rua até ao café e, enquanto
o bebia, fechei os olhos. E a imagem voltou,
tão real que, quando olhei de novo para a frente,
a mesa vazia transformara-se num sofá onde
estavas estendida, em repouso, como se o dia todo
tivesse passado por ti, e a noite te envolvesse
com o seu peso branco.
Nuno Júdice