Arquivo da Categoria ‘Poetas’

Os namorados

3 de Março de 2011


foto: kelin m.

Para além deles não há nada. Nem tempo, nem chão, nem altura.
Apenas e só duas bocas onde as línguas tocam no céu como rouxinóis felizes.
Sabem-se de cor. Os dedos já estudaram o corpo todo.
Vitor Encarnação

Os namorados“, de Vitor Encarnação

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dois corpos tombando na água

25 de Janeiro de 2011


foto: susan provider

então,
pela minha pele desliza a tua boca
o rosto as mãos a fome
e pára apenas quando a sede te for
insuportável

bebe-me depois muito lentamente
como orvalho sangue ou seiva
dobra nas minhas pernas o cabo
de todas as tormentas (ou se preferires
de todas as esperanças)
e crava no meu ventre os ritos ancestrais do amor

que para mim sempre estiveram
destinados
Alice Vieira

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chuva

5 de Dezembro de 2010


foto: black__coffee

    Tão calma é a chuva que se solta no ar
    (Nem parece de nuvens) que parece
    Que não é chuva, mas um sussurrar
    Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
    Chove. Nada apetece…
    Fernando Pessoa
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Pessoa

30 de Novembro de 2010

Horizonte

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Splendia sobre sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

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Leituras

6 de Novembro de 2010

“ampla a vereda onde o sol adormece. para ser febre nas tuas pálpebras”

Isabel Mendes Ferreira – “As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar”

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Setembro

10 de Setembro de 2010


foto: Alex Penner

    “Em Setembro, depois de sair de um deserto de sol, apetece-me arrumar a vida. Apetece-me pensar outra vez, recomeçar a sentir a fragilidade da existência, regressar à dúvida, cimentar ilusões.
    Apetece-me regressar à rotina, preparar a lenha de azinho, fechar as janelas, calçar pantufas, voltar a ler antes de dormir.
    Em Setembro já há um prenúncio de romãs doces na minha boca e por isso não me importo que a luz se desprenda das árvores e morra.”
    Vítor Encarnação in Correio Alentejo
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Sophia

2 de Julho de 2010

Praia

Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

A praia é lis e longa sob o vento
Saturada de espaços e maresia

E para trás fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.

Sophia de Mello Breyner

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Ela aí está!

28 de Abril de 2010

E é assim que eu gosto dela.

Celebre-se com poesia.

    “Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
    A essa hora dos mágicos cansaços,
    Quando a noite de manso se avizinha,
    E me prendesses toda nos teus braços…

    Quando me lembra: esse sabor que tinha
    A tua boca… o eco dos teus passos…
    O teu riso de fonte… os teus abraços…
    Os teus beijos… a tua mão na minha…

    Se tu viesses quando, linda e louca,
    Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
    E é de seda vermelha e canta e ri

    E é como um cravo ao sol a minha boca…
    Quando os olhos se me cerram de desejo…
    E os meus braços se estendem para ti…”
    Florbela Espanca

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É disto que eu gosto

26 de Abril de 2010


foto: joão espinho

Céu azul e limpo.
Sol farto a abraçar a terra onde nascem papoilas que pintam a planície.
A temperatura a subir.
Respira-se Alentejo.

A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!…

Miguel Torga

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maçã de adão

19 de Abril de 2010

“maçã de adão”, o novo livro de poemas de Vitor Encarnação, tem lançamento marcado para o próximo Sábado, dia 24 de Abril de 2010, pelas 21.00 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal de Ourique.

Os homens fixam o chão
quando as mulheres lhes pedem horizontes.
Os homens são bichos sem boca,
rastejando no pus das palavras
nunca ditas

Vitor Encarnação

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No Dia Mundial da Poesia

21 de Março de 2010


foto: stark raven

Sobre o teu corpo caio
daquele modo que o verão tem de espalhar os
cabelos
na água esparsa dos dias
e faz das peónias uma chuva de oiro
ou a mais incestuosa das carícias.
Eugénio de Andrade

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Improviso na madrugada

3 de Março de 2010


foto: stephen chard

“Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)”
Eugénio de Andrade

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