Os namorados
3 de Março de 2011
foto: kelin m.
Apenas e só duas bocas onde as línguas tocam no céu como rouxinóis felizes.
Sabem-se de cor. Os dedos já estudaram o corpo todo.
“Os namorados“, de Vitor Encarnação

foto: kelin m.
“Os namorados“, de Vitor Encarnação

foto: susan provider
então,
pela minha pele desliza a tua boca
o rosto as mãos a fome
e pára apenas quando a sede te for
insuportável
bebe-me depois muito lentamente
como orvalho sangue ou seiva
dobra nas minhas pernas o cabo
de todas as tormentas (ou se preferires
de todas as esperanças)
e crava no meu ventre os ritos ancestrais do amor
que para mim sempre estiveram
destinados
Alice Vieira

foto: black__coffee

Horizonte
O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Splendia sobre sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.
Fernando Pessoa

foto: Alex Penner

E é assim que eu gosto dela.
Celebre-se com poesia.
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…”
Florbela Espanca

foto: joão espinho
Céu azul e limpo.
Sol farto a abraçar a terra onde nascem papoilas que pintam a planície.
A temperatura a subir.
Respira-se Alentejo.
A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!…
Miguel Torga

“maçã de adão”, o novo livro de poemas de Vitor Encarnação, tem lançamento marcado para o próximo Sábado, dia 24 de Abril de 2010, pelas 21.00 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal de Ourique.
“Os homens fixam o chão
quando as mulheres lhes pedem horizontes.
Os homens são bichos sem boca,
rastejando no pus das palavras
nunca ditas”
Vitor Encarnação