Arquivo da Categoria ‘Poetas’

Pessoa

13 de Junho de 2015

pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Share

Sobre um poema

24 de Março de 2015

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder

Share

Chuva

10 de Setembro de 2014

dario rial
foto: dario rial

Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.

Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer…”

Miguel Torga (in “Diário II”, 1943)

Share

Fotografias

25 de Agosto de 2014

“Pai, não me tires mais nenhuma fotografia porque eu não me quero ver, aliás, não serei capaz de me ver, daqui a muitos anos como eu era, como sou agora, ainda tão novo. Por favor não me documentes mais, não me tentes eternizar, deixa que o tempo me vá levando como tiver que ser. Não congeles as minhas feições que eu sei hei de perder um dia. É que sabes, tudo muda, principalmente as pessoas, e dentro delas as crianças, para o ano já serei diferente, imagina tu daqui a vinte anos. Pouco restará desse momento que tu queres prender nas fotografias. Então já haverá muito tempo que eu já não serei eu. Serei apenas uma ideia que tu guardas de mim, uma magra consolação do que eu era antes de o tempo me ter feito outro. Não sejas egoísta, não te iludas, larga o meu tempo, deixa-o fluir, deixa-nos ir, ele e eu, incógnitos e irreconhecíveis, não deixes marcas dos meus sorrisos, não deixes testemunho do que fui, não deixes provas dos sítios por onde passei, não registes aquilo que há de ser o meu passado, não me amarres às lembranças, não me obrigues mais tarde a ter saudades. Pai, por favor não me tires mais nenhuma fotografia. Acredita que depois será pior se me quiseres guardar como te parece que sou hoje. Lembras-te como o avô era bonito e agora está morto?” Vítor Encarnação

Share

chove. nada apetece

20 de Maio de 2014

regresso da chuva

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…
Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Share

da poesia

21 de Março de 2014

Crespúsculo

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra…
E quando às sete da tarde
morre o dia
– que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

David Mourão-Ferreira

Share

No Dia da Mulher

8 de Março de 2014

O mar dos meus olhos

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética

Share

Na minha rua

4 de Novembro de 2013

dsc_0151cao
foto: joão espinho

Conto de Manuel Dias Horta

É manhã cedo.! Abro a porta e saio de casa. O sol teima em romper a forte e impenetrável opacidade por onde se escapam as estrelas mais tardias. Lá fora na leveza do ar quente, ouço a doçura da voz duma mulher, logo seguida dum vozeirão.
O que se passará na minha rua, pacata e segura e onde mora gente com educação? Percorro o quarteirão, ao cimo da rua há um ajuntamento, dizem-me, é tudo por causa do có-có dum cão.
O maroto do cão da minha vizinha foi deixar o serviço ao portão do meu vizinho que não tem cão. Perde o homem a compostura, há raios e coriscos e tribunais à mistura, estabelece-se a confusão. No calor da discussão, não vê o meu vizinho a aproximação dum camião que vem espalhando água e lama que cobrem o chão. Tem agora o meu vizinha o có-có ao portão e o fato que ficou em lastimoso estado de apresentação. Dão-se alvíssaras, dirigem-se à loja do cidadão.” Aqui não”, grita o chefão !. Corre o dia, o sol exausto vai-se chegando ao poente, há várias pastas com legislação em cima do balcão, mas nenhuma que contemple tal acção. Bem medidas as coisas, recomendou o chefão que para a próxima vez tivessem mais atenção, o homem com o camião e a minha vizinha com o cão. E é neste preciso momento que o cão alça a perna e faz longa mijadela no cadeirão do chefão..

Cansado, vencido, o chefão grita –Oh! não… senão ainda ponho as mãos no chão.

Beja, 2013..04.01 Manuel Dias Horta.

Share

Mia Couto

1 de Novembro de 2013

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

Share

chuva

23 de Outubro de 2013

chuva

Chove como sempre. E,
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva – de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
“Que Inverno!”; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.

NUNO JÚDICE
Um Canto na Espessura do Tempo (1992)

Share

Pessoa

13 de Junho de 2013

fernando pessoa

Ás vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.

Share

Boas notícias

16 de Maio de 2013

Nuno Júdice ganha prémio Rainha Sofia.

    O poeta português Nuno Júdice ganhou hoje o 22.º prémio Rainha Sofia de poesia ibero-americana, sucedendo assim a Ernesto Cardenal, da Nicarágua, a quem tinha sido atribuído o galardão no ano passado, de acordo com o “El País”.

(ler aqui)

Share