Arquivo da Categoria ‘Poetas’

tecidos

19 de Agosto de 2011


foto: a.j. kahn

meu corpo
é uma floresta fechada
onde escolheste o caminho

depois de te perderes
guardaste a chave e o provérbio.

    ana paula tavares
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da chuva

2 de Agosto de 2011


foto: alex krivtsov

A chuva cai na poeira como no poema
Eugénio de Andrade
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corpo

23 de Junho de 2011


foto: hans klopp

    Respiro o teu corpo:
    sabe a lua-de-água
    ao amanhecer,
    sabe a cal molhada,
    sabe a luz mordida,
    sabe a brisa nua,
    ao sangue dos rios,
    sabe a rosa louca,
    ao cair da noite
    sabe a pedra amarga,
    sabe à minha boca.
    Eugénio de Andrade
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verão

21 de Junho de 2011


foto: fred lucas

    Vê como o verão
    subitamente
    se faz água no teu peito,

    e a noite se faz barco,

    e minha mão marinheiro.
    Eugénio de Andrade

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Pessoa

13 de Junho de 2011
    Se às vezes digo que as flores sorriem
    E se eu disser que os rios cantam,
    Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
    E cantos no correr dos rios…
    É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
    A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
    Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
    À sua estupidez de sentidos…
    Não concordo comigo mas absolvo-me,
    Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
    Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
    Por ela não ser linguagem nenhuma.

Alberto Caeiro

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da poesia

21 de Março de 2011


foto: mattias holst

    dou-te palavras
    dou-te palavras ao ouvido
    como se te desse mel.

    Espessas e vagarosas
    escorrem para o teu pescoço
    e para os ombros
    e depois para todo o lado,
    e as minhas mãos,
    felizes e açucaradas,
    enfeitam o teu corpo
    com as inquietações
    formidáveis do desejo.
    Vitor Encarnação

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retorno

15 de Março de 2011


foto: dwajot

    Mergulhado em teus braços
    trago-te o beijo
    leve dos meus dedos.

    mergulhado em teus lábios
    tens-me a romper
    o fogo da tua boca.

    mergulhado em teu corpo
    acendo-te o ventre
    de manhãs claras.
    José Jorge Frade, “Efémeros Vestígios” (poesia) – 1996

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mulher

8 de Março de 2011
    Espáduas brancas palpitantes:
    asas no exilio dum corpo.
    Os braços calhas cintilantes
    para o comboio da alma.
    E os olhos emigrantes
    no navio da pálpebra
    encalhado em renúncia ou cobardia.
    Por vezes fêmea. Por vezes monja.
    Conforme a noite. Conforme o dia.
    Molusco. Esponja
    embebida num filtro de magia.
    Aranha de ouro
    presa na teia dos seus ardis.
    E aos pés um coração de louça
    quebrado em jogos infantis.
    “Auto-retrato” – Natália Correia
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Os namorados

3 de Março de 2011


foto: kelin m.

Para além deles não há nada. Nem tempo, nem chão, nem altura.
Apenas e só duas bocas onde as línguas tocam no céu como rouxinóis felizes.
Sabem-se de cor. Os dedos já estudaram o corpo todo.
Vitor Encarnação

Os namorados“, de Vitor Encarnação

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dois corpos tombando na água

25 de Janeiro de 2011


foto: susan provider

então,
pela minha pele desliza a tua boca
o rosto as mãos a fome
e pára apenas quando a sede te for
insuportável

bebe-me depois muito lentamente
como orvalho sangue ou seiva
dobra nas minhas pernas o cabo
de todas as tormentas (ou se preferires
de todas as esperanças)
e crava no meu ventre os ritos ancestrais do amor

que para mim sempre estiveram
destinados
Alice Vieira

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chuva

5 de Dezembro de 2010


foto: black__coffee

    Tão calma é a chuva que se solta no ar
    (Nem parece de nuvens) que parece
    Que não é chuva, mas um sussurrar
    Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
    Chove. Nada apetece…
    Fernando Pessoa
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Pessoa

30 de Novembro de 2010

Horizonte

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Splendia sobre sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

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