Arquivo da Categoria ‘Poetas’

Passamos pelas coisas sem as ver

10 de Setembro de 2019


foto: j.e.

“Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.”
Eugénio de Andrade

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Lenha

19 de Novembro de 2018

    “Dentro de todo o Alentejo que tenho dentro de mim, ou seja dentro do que sou, encontro uma das sensações mais simples e ao mesmo tempo mais profundas. Espero pelas formigas de asa, espero que elas me digam que é tempo, eu acredito nas formigas de asa porque sei que elas são a voz da chuva, sei que são o prenúncio do frio, o augúrio das geadas, até agora nunca falharam e já muitos outonos e invernos me passaram por cima. E por isso, por saber que virão dias cortantes e virão noites em que na rua só haverá gatos com cio, encomendo lenha, melhor, encomendo uma emoção que arde. Varro o alpendre, aprumo a telha, dou um aconchego nas paredes, faço uma casa para a lenha vir morar comigo. E quando a camioneta chega já tenho a casa pronta, os homens atiram a lenha para o chão, os tarolos e os madeiros trazem musgo agarrado à casca e bichos-de-conta nas saliências, arrumo-os, faço paredes de azinho, o azinho faz paredes tão bonitas, arrumo as enxapotas, escolho o madeiro para o Natal, será o maior, há-de arder noite e dia. E depois quando o frio chega, às vezes ainda não há frio mas eu já não aguento a espera, acendo um fósforo e puxo fogo à minha emoção, primeiro a lenha miúda, depois a casca, depois a carne da lenha, depois os ossos da lenha, vou ardendo lentamente, faço-me em fumo, ergo-me em labaredas, renasço das cinzas. Ponho as mãos no fogo e não me queimo.”

Vítor Encarnação

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Poesia

21 de Março de 2018

Ternura
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira, in “Infinito Pessoal”

Foto: raft & lea

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O olhar de…

4 de Dezembro de 2017


foto: joão espinho

    “Escrevo poemas na água à espera que um dia tu tenhas sede.”
    Vítor Encaranação
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Na insolação do sul

17 de Novembro de 2017


foto: Sergey Sorokin

Na insolação do sul
as bocas secam de silêncio.
Antes da maturação das uvas não há palavras,
há somente uma ideia de casta a ecoar na vinha,
apenas cachos de letras redondas
à espera que mãos as venham colher
e as desengacem.
Depois é preciso triturar as letras,
é preciso esmagar o fruto nu
para que, de dentro da pele,
os vocábulos mais puros
escorram e inventem o mosto.
O mosto é o prenúncio da voz.
O mosto é o princípio do poema líquido.
As palavras crescem dentro do mosto,
as palavras fermentam dentro do poema,
as palavras trasfegam do mosto para o poema
e depois para o vinho.
Arrancamos a cortiça da mudez,
soltamos o vinho, soltamos o poema,
vertemos a paixão
e as palavras clarificam-se na boca.
Vítor Encarnação

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Outono

22 de Setembro de 2017


foto: samuel h.

Eram folhas e folhas de palavras
escritas na árvore da tua pele.
O Outono chegou e tu despiste o meu poema.
Ainda bem.
Assim consigo ler-te melhor.
Vítor Encarnação

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Sugestão de leitura

10 de Agosto de 2017

“Era uma vez um homem que pretendia recuperar as histórias das casas abandonadas. Para o conseguir, decidiu tornar-se num afinador de memórias. Num homem dedicado a consertar coisas esquecidas. Logo pela manhã, montava-se no verbo ouvir e percorria ruas e demais vizinhança com o propósito de acabar com a indiferença das pessoas perante tanto desleixo. Pretendia nomes, acontecimentos, factos, enredos e argumentos para reabilitar o que existiu restaurando o que ainda existe. Queria calcetar tudo no presente. Tinha pressa do passado. Ir de porta em porta armazenar futuro atrás de futuro.

Um dia, cansado de tanto esquecimento, declarou: “É do ar que todos vivem, pelo ar mudarão!” E começou a contar tudo o que sabia, de dia, de noite e de madrugada. As palavras saíam-lhe ininterruptas de modo a saturar o ar de histórias ainda não ouvidas. As pessoas, inspiravam-no pela pele, pelo nariz, pelos ouvidos, pelo sonho. Dentro delas, circularam respeitos até então desconhecidos.”

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Do Mosto à Palavra

10 de Maio de 2017

Termina hoje o prazo para submissão dos textos e poemas concorrentes ao 1º Prémio Literário Do Mosto à Palavra.
Recordamos que a revelação e entrega dos prémios terá lugar a 27 de Maio, na Herdade do Monte Novo e Figueirinha, em Beja, num evento aberto ao público e onde se antevê uma tarde de convívio bem passada bem à moda do Alentejo.

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Do Mosto à Palavra

25 de Março de 2017

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Mulheres

8 de Março de 2016

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma
O mar dos meus olhos” – Sophia de Mello Breyner Andresen

————————–

Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.
Algumas Reflexões Sobre a Mulher – Eugénio de Andrade

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Vítor Encarnação

30 de Janeiro de 2016

vitor encarnação

Hoje, na Biblioteca Municipal de Beja, pelas 16H00.

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A Convergência dos Ventos

11 de Outubro de 2015

júdice

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