Arquivo da Categoria ‘Poetas’

Na insolação do sul

17 de Novembro de 2017


foto: Sergey Sorokin

Na insolação do sul
as bocas secam de silêncio.
Antes da maturação das uvas não há palavras,
há somente uma ideia de casta a ecoar na vinha,
apenas cachos de letras redondas
à espera que mãos as venham colher
e as desengacem.
Depois é preciso triturar as letras,
é preciso esmagar o fruto nu
para que, de dentro da pele,
os vocábulos mais puros
escorram e inventem o mosto.
O mosto é o prenúncio da voz.
O mosto é o princípio do poema líquido.
As palavras crescem dentro do mosto,
as palavras fermentam dentro do poema,
as palavras trasfegam do mosto para o poema
e depois para o vinho.
Arrancamos a cortiça da mudez,
soltamos o vinho, soltamos o poema,
vertemos a paixão
e as palavras clarificam-se na boca.
Vítor Encarnação

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Outono

22 de Setembro de 2017


foto: samuel h.

Eram folhas e folhas de palavras
escritas na árvore da tua pele.
O Outono chegou e tu despiste o meu poema.
Ainda bem.
Assim consigo ler-te melhor.
Vítor Encarnação

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Sugestão de leitura

10 de Agosto de 2017

“Era uma vez um homem que pretendia recuperar as histórias das casas abandonadas. Para o conseguir, decidiu tornar-se num afinador de memórias. Num homem dedicado a consertar coisas esquecidas. Logo pela manhã, montava-se no verbo ouvir e percorria ruas e demais vizinhança com o propósito de acabar com a indiferença das pessoas perante tanto desleixo. Pretendia nomes, acontecimentos, factos, enredos e argumentos para reabilitar o que existiu restaurando o que ainda existe. Queria calcetar tudo no presente. Tinha pressa do passado. Ir de porta em porta armazenar futuro atrás de futuro.

Um dia, cansado de tanto esquecimento, declarou: “É do ar que todos vivem, pelo ar mudarão!” E começou a contar tudo o que sabia, de dia, de noite e de madrugada. As palavras saíam-lhe ininterruptas de modo a saturar o ar de histórias ainda não ouvidas. As pessoas, inspiravam-no pela pele, pelo nariz, pelos ouvidos, pelo sonho. Dentro delas, circularam respeitos até então desconhecidos.”

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Do Mosto à Palavra

10 de Maio de 2017

Termina hoje o prazo para submissão dos textos e poemas concorrentes ao 1º Prémio Literário Do Mosto à Palavra.
Recordamos que a revelação e entrega dos prémios terá lugar a 27 de Maio, na Herdade do Monte Novo e Figueirinha, em Beja, num evento aberto ao público e onde se antevê uma tarde de convívio bem passada bem à moda do Alentejo.

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Do Mosto à Palavra

25 de Março de 2017

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Mulheres

8 de Março de 2016

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma
O mar dos meus olhos” – Sophia de Mello Breyner Andresen

————————–

Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.
Algumas Reflexões Sobre a Mulher – Eugénio de Andrade

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Vítor Encarnação

30 de Janeiro de 2016

vitor encarnação

Hoje, na Biblioteca Municipal de Beja, pelas 16H00.

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A Convergência dos Ventos

11 de Outubro de 2015

júdice

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Verão

27 de Junho de 2015

verão

“O Verão é claramente feminino.
Se querem saber, eu acho que o Verão é uma mulher madura, daquelas em que o corpo é um pão quente para pôr manteiga e comer côdea e miolo. E lamber os dedos.
Numa crepitante pele de trigo, derretem-se a manteiga e os homens.”
Vítor Encarnação
(continue a ler aqui)

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Pessoa

13 de Junho de 2015

pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

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Sobre um poema

24 de Março de 2015

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder

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Chuva

10 de Setembro de 2014

dario rial
foto: dario rial

Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.

Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer…”

Miguel Torga (in “Diário II”, 1943)

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