Arquivo da Categoria ‘Poetas’

As palavras interditas

29 de Junho de 2008
Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
Eugénio de Andrade

eva

8 de Junho de 2008


foto: joão espinho

Quando Eva andava nua pelo paraíso,
disfarçava o tédio à sombra das árvores, colhendo
as flores, cheirando o seu perfume,
e pensando como seria bom ter um céu
para espreitar.

Um dia, uma dessas flores transformou-se em
fruto; e Eva levou-a à boca, trincou-a, provou
a sua polpa. Por um estranho efeito
de causa e consequência, o sabor da maçã
obrigou Eva a cobrir a sua nudez
com folhas e flores, que passaram
a ser uma metáfora do corpo
que escondem.

Então, o pecado tornou-se uma simples
figura de retórica, e o sexo um exercício
de interpretação.
Nuno Júdice

poeta que o pariu

31 de Maio de 2008

adormeço contigo.
a dor meço sem ti.

João Gaspar

Adeus

27 de Maio de 2008

O Vítor Encarnação, para além de professor (e logo de alemão), escreve como poucos.
Publica as suas crónicas no Correio Alentejo.
Com autorização do autor, e a devida vénia, transcrevo aqui “Adeus”, a sua mais recente crónica .

    Quando eles se conheceram, estava calor e a noite tinha um decote grande que deixava ver as estrelas todas.
    E estava quente o banco de pedra onde ela, com olhos inquietos de ter chegado agora à vila, se sentava. Agitava-se como se fosse uma pequenina brisa perdida do resto do rebanho do tempo, e os pés, extremidades de carne de uma mini-saia de ganga, eram duas âncoras espetadas no cimento do jardim. Aqueles olhos não eram dali e aquele rosto nunca morara naquelas ruas.

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no silêncio da noite

16 de Maio de 2008

foto de Pavel Kiselev
foto: Pavel Kiselev

    Volta até mim no silêncio da noite
    a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
    que eu não esqueço. Volta até mim
    para que a tua ausência não embacie
    o vidro da memória, nem o transforme
    no espelho baço dos meus olhos. Volta
    com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
    vestido com a mortalha da névoa; e traz
    contigo a maré da manhã com que
    todos os náufragos sonharam.
    Nuno Júdice

Bom fim de semana.

Acordo ortográfico

8 de Abril de 2008
    Gosto do teu rosto exacto,
    com o cê bem desenhado,
    mesmo quando não se ouve,
    para te pôr, como laço
    nos cabelos, o circunflexo
    em que nenhum traço há-de
    faltar, mesmo que um pacto
    sem cê nem concessão te
    roube o pê nessa pose
    de pura concepção.

Nuno Júdice

Sonho

2 de Abril de 2008

foto de robert farnham
foto: robert farnham

    A forma que o sonho adquire fica presa
    nas mãos, de onde se solta à medida que a noite
    avança. E se os olhos estão fechados, é porque
    isso é necessário para que se possa ver
    a única paisagem que importa: um comboio
    de palavras que avança nas linhas da vida,
    atirando para o céu do futuro um fumo
    de imagens. O poema captá-las-á; e
    poderás acordar, então, vendo que o sono
    serviu para alguma coisa.

    Nuno Júdice

Hoje

21 de Março de 2008

Comemora-se o Dia Mundial da Poesia. Um poema de Eugénio de Andrade.

    poema de eugénio de andrade

E as palavras iluminam-se nesta noite de Lua cheia.

Génese

19 de Março de 2008

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foto: Alexei Kovalev

Génese
“Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura – a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por uma acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.”
Nuno Júdice

Livro

28 de Fevereiro de 2008

Lançamento do novo livro de poemas de Jorge Castro.

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David Mourão-Ferreira

24 de Fevereiro de 2008

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

    David Mourão-Ferreira

Nasceu a 24 de Fevereiro de 1927

nocturno

20 de Fevereiro de 2008

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foto: didier bonnel

    O desenho redondo do teu seio
    Tornava-te mais cálida, mais nua
    Quando eu pensava nele…Imaginei-o,
    À beira-mar, de noite, havendo lua

    Talvez a espuma, vindo, conseguisse
    Ornar-te o busto de uma renda leve
    E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
    Em ti, a branca irmã que nunca teve…

    Pelo que no teu colo há de suspenso,
    Te supunham as ondas uma delas…
    Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
    Era um convite lúcido às estrelas….

    Imaginei-te assim à beira-mar,
    Só porque o nosso quarto era tão estreito…
    - E, sonolento, deixo-me afogar
    No desenho redondo do teu peito…

    David Mourão-Ferreira