Arquivo da Categoria ‘O Olhar de....’

O Olhar de … Élia Carvalho

19 de Julho de 2008

cristo
foto: joão espinho

    Ao fim de muitos anos voltei… quebrei o que disse, desde a última vez que fechei esta porta…
    Voltei…
    Na esperança de um reencontro… incerta em relação ao que iria encontrar… mas… arrisquei…

    A lembrança doce de cada entrada que fiz nesta porta… de cada vez que fechei este postigo… foi mais forte que qualquer outro pensamento…

    Curioso… reconheci cada curva da estrada… cada árvore centenária… até os candeeiros da entrada estão iguais… sem luz…

    Um gélido arrepio me percorre… Sinto o teu calor, aproximas-te, e sussurras… “Abandonei-a… tal como me fizeste. Mas… ainda hoje cá volto à mesma hora… só para sentir o cheiro que deixaste impregnado neste ar… Que nem as vidraças partidas deixam o vento levá-lo…”

    Em cada passo oiço um estalido, algo se quebra… cacos por todo o lado… curioso… o espelho que parti no mesmo sítio… e os vidros caídos em seu redor…

    “Foi preciso eu partir para saberes o quanto me querias… Mas olha em teu redor… Podes ver nestas paredes como eu estava quando daqui saí…”

    O teu abandono começou muito antes de eu fechar esta porta a última vez…
    Élia Carvalho

O Olhar de … Vítor Encarnação

27 de Junho de 2008


foto: Igor Amelkovich

    Esta noite preciso que me raptes.

    Preciso que me prendas
    as mãos ao teu corpo
    e me digas onde se ouvem
    os gritos da tua pele.

    Preciso que me ates ao escuro
    e me ensines o teu cheiro
    e eu prometo que aprendo a
    a voar em ti.

    Preciso do branco dos teus dentes
    roçando levemente
    a minha vida toda
    e tu e eu, com os lábios ávidos,
    comeremos a loucura à dentada
    até nos dividirmos em dois cansaços.

    Esta noite rapta-me
    e mantém-me cativo,
    tolhido em lençóis e luxúria.
    Vítor Encarnação

O Olhar de … Ana Ademar

20 de Junho de 2008

alentejo-amarelo
foto: joão espinho

    Girassóis

    Se me trazes girassóis
    se me lembras girassóis
    se os trazes no bolso em segredo
    sem se que se saiba.

    Oferece-me girassóis,
    traz um molhinho,
    pequeno,
    desarranjado,
    ou traz só um.
    Oferece-me um girassol.
    Um que seja,
    para enfeitar a parede da casa onde não vens,
    para calar o silêncio que me ensurdece.
    Traz uma folha, uma pétala,
    mesmo no bolso
    já murcha,
    seca.
    Traz e deixa-a na minha mão,
    como um dia te deixei os olhos, a boca, a alma e mais qualquer coisa que não sei precisar,
    mas de que preciso agora,
    para seguir.
    Ana Ademar

O Olhar de … Miguel Almeida

4 de Abril de 2008

pastores moinho guadiana quintos foto de joão espinho
foto: joão espinho

    Os rostos cansados, dos velhos, que já foram jovens, lembram-se lá ao longe dos sonhos que tiveram e não realizaram nem metade deles. Rostos cansados, dos dias solarengos, das noites ao relento, do vinho que beberam, das noites de folia, dos bailaricos, e de namorarem à janela das suas cachopas. Rostos cansados de tantos anos a fazer o mesmo, sempre o mesmo.
    Levantar, passear pelos campos os animais, entreterem-se com as brincadeiras dos cães que ainda guardam as poucas ovelhas que ainda têm, que o tempo hoje não é para pastores, é para os computadores. Já nada é como antigamente. Deitam-se, os ossos já rangem, os comprimidos, se é que têm dinheiro para os ter, tomam, para descansarem. Rostos cansados, mas cheios de sabedoria e experiência da(e) vida. Isso ninguém lhes tira. Rostos cansados, mas cheios de histórias para contar, de coisas que eu já não sei o que são, de coisas que nunca ouvi falar, de coisas que só estão na minha imaginação, porque nunca as vivi. Rostos cansados que nos lembram que temos um passado, de vivermos o presente, para depois, contarmos ao futuro, como eles a nós, o passado. De rostos cansados…
    Miguel Almeida

O Olhar de … Horácio Flores

14 de Março de 2008

mensagens-que-o-tempo-apaga.jpg
foto: joão espinho

    Foi por certo precisa muita determinação e intencionalidade para tratar este tema a preto e branco, descarnando a fotografia da cor, elemento por certo dominante no processo de criação da sua jovem autora, aluna do 6º ano, a “Tu sabes” (e o feliz Gonçalo é que sabe), que terá à volta de 12 anos, e que deve estar a viver o seu primeiro amor.
    A renúncia à cor na reprodução publicada terá muito provavelmente a intenção de nos chamar a atenção para o significado da mensagem, por muito que a forma não tenha sido desprezada. Suportou bem essa renúncia.
    O nascimento do amor na entrada da adolescência pode ser preocupação para os pais, mas é enternecedor para os outros. Preocupante é bem sabermos, mesmo os não puritanos, que com a crescente banalização do sexo dentro de escassos três ou quatro anos o Gonçalo e a Tu Sabes se poderão tornar clientes mais ou menos assíduos da pílula do dia seguinte. Este passar, numa só geração, do 8 para o 80, gera nos mais velhos um certo desconforto.
    Melhor teria sido talvez ficarmos pelos 40.
    Horácio Flores

O Olhar de … Hugo Lança

22 de Fevereiro de 2008

da-memoria-beja-2007.jpg
foto: joão espinho

    A fotografia é absolutamente soberba. Com a mesma honestidade intelectual que afirmei não apreciar a primeira foto que comentei, cometo a audácia de a considerar das melhores fotos do João Espinho!

    Perco-me na película e deixo-me penetrar pelo passado, a nostalgia toldar-me a mente, infiltrando-se em mim. Esboço um sorriso triste de patética inveja, num suspiro de ansiedade, rogando que tudo na vida devia ser assim, que as lembranças fossem apenas patéticas e consumidas cinzas de um passado perdido no tempo, imagens desalinhadas que os anos fizeram perder o norte e o sentido, despojos do que se deixou esquecido na memória para jamais regressar.

    Detenho-me nas paredes semi-desnudas, no chão coberto de entulho esparso, objectos deslocados, sem nexo, sem conteúdo ou contexto: como todo o passado devia ser! Apenas ténues lembranças, de vivências que já não são nossas!
    Hugo Lança

O Olhar de … Jorge Castro

15 de Fevereiro de 2008

bancos-de-espera_shapes_joao-espinho.jpg
foto: joão espinho

    moldo em quadrados o quadro
    enquadro a quadra moldada
    sobram-me espaços no adro
    dessa igreja esvaziada

    corro e percorro o espaço
    buscando o tempo que tarda
    que de espesso me deslaço
    sem tempo que no chão arda

    Jorge Castro

O Olhar de … Paulo Arsénio

8 de Fevereiro de 2008

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foto: John Moore/Getty Images

    Explodir, Destruir, Ferir…INTIMIDAR;
    Rebentar, Mutilar, Matar…INTIMIDAR;
    Condicionar, Assustar, Amordaçar…INTIMIDAR;
    Sujeitar, Chocar, Violentar…INTIMIDAR!

    Paulo Arsénio

O Olhar de … Manuel Vilhena

1 de Fevereiro de 2008

953128quintos_fotojoaoespinho.jpg
foto: joão espinho (publicada aqui)

    Começo com uma lapalissada, não, com duas – só desaparecem fotografias a quem as tira e o facto de se saber onde está tal coisa não impede que se dê a mesma como desaparecida.

    Vi esta foto aqui por duas vezes. Na primeira, mal a contemplei, vi-me transportado para os campos para lá de Ourique, para os primeiros colos da serra que se espalha por toda a largura do reino, a separá-lo naturalmente do Algarve. Para aquela imensidão quase despovoada que se perde de vista. Para o meu deserto.

    Ali, num certo dia do ano 2000, andando em busca de memórias perdidas e de horizontes largos, tropecei num portal de um cemitério que ostentava a data do próprio ano jubilar de 2000 e cuja singela cruz me fez logo cativo. Como se uma entre as vulgares cruzes de pedra fosse coisa muito para além do já visto.

    A verdade é que aquela imagem, que era magnífica, dadas as condições de luz e de ermamento e por ser a primeira vez que via em letra de pedra o mágico número dos três zeros, causou ainda assim uma certa decepção porque eu procurava ali outra coisa que não aquela - um cemitério antigo, não um acabado de renovar.

    Enquanto ali me detive, já perto do sol-posto, as cores perdiam calor e eu substituía, consciente, uma memória por outra.

    As fotos desses dias sei onde estão. É pouco provável que apareçam. Sei que há lá uma que é a que motivou estas linhas. Mesmo que não exista a não ser na minha memória.

    Memória substituída esta. Mais uma vez. Por esta foto do João.

    É que também lá está um rosto feminino. Um só? Divisam-no(s)?

    Manuel Vilhena

O Olhar de … Gisela Cañamero

25 de Janeiro de 2008

beja-seculo-21.jpg
foto: joão espinho

    eu vejo-os:
    desvendo os olhos cegos de quem
    ao olhar
    nada vê.

    eu vejo-os:
    intrusos. tão só
    intrusos.

    há no meu jardim um canto denso
    em manso
    assobio.

    nem rancor
    nem sorriso
    nem rasto de fulgor.

    eu vejo-os:
    tão prisioneiros de certezas vãs.

    que nunca o canto feito vento
    lhes revele o meu pensamento.

    Gisela Cañamero

O Olhar de … Nuno Júdice

18 de Janeiro de 2008

504245anne_vitale.jpg
foto: Anne Vitale

    DEMOCRACIA

    Fui dar com a democracia embalsamada, como
    o cadáver do Lenine, a cheirar a formol e aguarrás,
    numa cave da Europa. Despejavam-lhe por cima
    unguentos e colónias, queimavam-lhe incenso
    e haxixe, rezavam-lhe as obras completas do
    Rousseau, do saint-just, do Vítor Hugo, e
    o corpo não se mexia. Gritavam-lhe a liberdade,
    a igualdade, a fraternidade, e a pobre morta
    cheirava a cemitério, como se esperasse
    autópsias que não vinham, relatórios, adêenes
    que lhe dessem família e descendência. Esperei
    que todos saíssem de ao pé dela, espreitei-lhe
    o fundo de um olho, e vi que mexia. Peguei-lhe
    na mão, pedi-lhe que acordasse, e vi-a mexer
    os lábios, dizendo qualquer coisa. Um testamento?
    a última verdade do mundo? «Que queres?»,
    perguntei-lhe. E ela, quase viva: «Um cigarro!»
    Nuno Júdice

O Olhar de …. Horácio Flores

11 de Janeiro de 2008

vendedor-de-castanhas-em-beja.jpg
foto: joão espinho

castanhas-assadas.jpg
foto: joão espinho

    Tal como acontece com certas peças de música, designadamente erudita, que ensinam a gostar de música a quem as ouve pela primeira vez, enquanto outras exigem alguma cultura musical para uma nem sempre fácil e imediata adesão, estas duas fotografias, que se completam e por isso não as dissocio, para além da excelência estética, têm uma potencial função didáctica, pois ensinam qualquer não iniciado a gostar de fotografia de autor.
    Até o Nunes da ASAE, o da cigarrilha no casino, gostaria: é que o João Espinho, à cautela, teve o cuidado de substituir a castiça folha de lista telefónica velha por um asséptico papelinho branco

    Horácio Flores