Arquivo da Categoria ‘O Olhar de….’

O Olhar de … Bé

29 de Agosto de 2009


foto: joão espinho

    Na noite da vida
    A alma é escura e vazia
    A sua porta de cadeados enfeitada.

    Lá fora, do nada, surge o murmúrio da Madrugada
    Luz suave e crescente, depositando na alma
    As primeiras sílabas de palavras ainda desordenadas e sem rima.
    E de estrofe em estrofe, de verso em verso,
    Se vai construindo o Poema de todos os poemas.

    Os cadeados, esses,
    Assim enferrujados pelo tempo
    Vão quebrando lentamente
    E da Alma, se abre a porta
    Rendida aos brilhos do dia…

    …dos nossos Olhares!

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O Olhar de … Maria Árvore

28 de Abril de 2009


foto: joão espinho

    Os telhados abrigam-nos das intempéries. Transmitem-nos a segurança de que o céu não nos vai cair em cima da cabeça, como o temiam os gauleses. E porém, é nos momentos em que abandonamos a protecção do telhado e saímos para a rua indefesos perante qualquer condição climática que descobrimos o esplendor do arco-íris. Até guardamos mais vivos na memória esses momentos únicos e mágicos. Tal como acontece com os que a objectiva do João Espinho fixa.
    Maria Árvore
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O Olhar de … Rui Sousa Santos

18 de Abril de 2009


foto: joão espinho

    A ferrugem da proibição. O trânsito dos olhares não se faz para lá da porta, por entreaberta que esteja. Houve quem escrevesse é proibido proibir! Muita gente não percebeu… E as coisas proibidas são, lá no fundo, tão descarnadas da realidade como uma porta que já nem o é…
    Rui Sousa Santos
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O meu olhar

9 de Abril de 2009


foto: joão espinho

Caminhando, passei por ti sem te olhar.
Mas o teu perfil alertou-me
para o gemido das letras que desenhavas no horizonte.
Abraço-me a ti e ajudo-te a escrever mais um verso
onde me ditas sonhos
consentidos
e é ali, quem sabe, que me declaras a vida,
semeada entre os gritos do sol que adormece
e a noite de luar feita de segredos.
Agora és a árvore onde me agarro, me abraço
E cuja sombra esconde os nossos beijos.

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O Olhar de … Rui Sousa Santos

7 de Abril de 2009


foto: joão espinho

    Poucas zonas de luz, num fundo homogeneamente escuro. Braços cruzados. Espera, apenas? O olhar é dirigido para o cinzeiro, uma ponta de cigarro. Decisão? Recusa? Pode haver metafísica bastante em meio gin-tónico, afinal…
    Rui Sousa Santos
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O olhar de … Paulo Arsénio

5 de Abril de 2009

caminhos interrompidos foto de joão espinho
foto: joão espinho

    Ir ou não ir,
    Ficar ou partir?

    Ora por caminhos paralelos,
    Ora por trilhos que se cruzam,
    Viajando livre por vias estreitas
    Em busca de linhas que seduzem.

    Parar ou avançar,
    hesitar ou arriscar?

    Vagabundo do espaço imenso,
    Quebrando obstáculos e barreiras,
    Procurando chegar mais longe,
    Viver num mundo sem fronteiras.

    Ir ou não ir,
    Ficar ou partir?
    Paulo Arsénio

foto daqui

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O olhar de … Vítor Encarnação

4 de Abril de 2009


foto: joão espinho

    Escrevo-te este bilhete num papel de parede.
    E em cada crepúsculo, este muro será o horizonte onde eu me ponho dentro de ti.
    Vítor Encarnação
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O Olhar de… Jorge Barnabé

9 de Março de 2009


foto: joão espinho

    Desço a rua empurrado pela saudade e firme no desejo de acreditar que ao fundo um campo de esperança se abre ao encontro dos meus braços. O caminho empedrado e as casas rasas que servem de encosto aos cansaços conduzem os meus passos desacertados. O silêncio da tarde que se perde nas casas cerradas, no branco lavado da cal, desafia a ambição de um dia seguinte. Pergunto pelo futuro, questiono os caminhos para além deste – passivo e incómodo – e respondem-me os postigos emperrados, as vozes caladas e as gentes acomodadas, os rostos gastos na desesperança e um céu azul que ilustra o nada de uma vida inteira. Ao chegar ao fim da rua uma outra ruela me trava, uma linha branca de moradas perdidas me separam dos campos abertos e verdes que procuro. Como a esperança do futuro. Olho para trás, para o cimo da aldeia que desci e um ou outro corpo se atreve no caminho empedrado, encostados à brancura da cal, desanimados como a confiança. Terá esta terra futuro? Pergunto ao meu íntimo pensamento. Não, enquanto existirem os labirintos, disfarçados de lugares comuns.
    Jorge Barnabé

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O Olhar de … Jorge Barnabé

6 de Outubro de 2008


foto: joão espinho

    Conhece-me a dureza do campo melhor do que me conheço. As brisas quentes do Verão. O vento áspero do Inverno. A terra rude que me enlaça os pés. Perdi a conta ao tempo, deixei-me vencer pelo suor dos dias. Permiti que o sol me levasse a esperança de uma vida melhor.

    Já não me atrevo a olhar sobre o ombro para não me abater pelo desencanto amargo dos meus desejos de rapazinho. Nessa altura, quando olhava o horizonte para além das cabeças de gado desafiava-me a mim próprio em ideias revolucionárias. Queria conhecer o mundo. Queria percorrer nos meus próprios passos outras estradas, bem mais suaves.

    Quis o destino fazer de um cajado meu guia. Um pedaço de pau calejado que me prende ao chão, que me ergue ao sol-posto. Quis o destino contrariar-me noutros passos. Roubar-me a esperança como um lobo rouba a vida ao rebanho indefeso. Quis a rotina dos dias tomar-me como se fosse um desigual. E eu acedi, resignado, enclausurado na terra que o passado me deixou em herança. Agora, aguardo na solidão a fantasia do dia depois de hoje. Caminho pela estrada irregular e satisfaço-me com as sombras das azinheiras, mais frescas que a vontade de sonhar.
    Jorge Barnabé

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O Olhar de … Miguel Ângelo

1 de Outubro de 2008

homem na cafetaria do jorge serafim beja foto joão espinho
foto: joão espinho

    NOSTALGIA

    Das sombras
    vens
    como um anseio
    até mim.

    Sombras
    que carregam de cinza
    a luz branca
    que ficou na
    tua ausência.

    Sombras
    como
    almas perdidas no tempo
    e que
    vestem este
    manto que me tolda
    a memória.
    Miguel Ângelo

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O olhar de … Francisco Mósca

30 de Setembro de 2008


foto: joão espinho

    Solitário e nu,
    desce o fundo do tempo.
    Com mãos de corda,
    sobes.
    E na quietude divina
    cresce a salsa.
    Francisco Mósca
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O Olhar de … Élia Carvalho

19 de Julho de 2008

cristo
foto: joão espinho

    Ao fim de muitos anos voltei… quebrei o que disse, desde a última vez que fechei esta porta…
    Voltei…
    Na esperança de um reencontro… incerta em relação ao que iria encontrar… mas… arrisquei…

    A lembrança doce de cada entrada que fiz nesta porta… de cada vez que fechei este postigo… foi mais forte que qualquer outro pensamento…

    Curioso… reconheci cada curva da estrada… cada árvore centenária… até os candeeiros da entrada estão iguais… sem luz…

    Um gélido arrepio me percorre… Sinto o teu calor, aproximas-te, e sussurras… “Abandonei-a… tal como me fizeste. Mas… ainda hoje cá volto à mesma hora… só para sentir o cheiro que deixaste impregnado neste ar… Que nem as vidraças partidas deixam o vento levá-lo…”

    Em cada passo oiço um estalido, algo se quebra… cacos por todo o lado… curioso… o espelho que parti no mesmo sítio… e os vidros caídos em seu redor…

    “Foi preciso eu partir para saberes o quanto me querias… Mas olha em teu redor… Podes ver nestas paredes como eu estava quando daqui saí…”

    O teu abandono começou muito antes de eu fechar esta porta a última vez…
    Élia Carvalho

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