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A Língua pode ser um orgasmo da alma

1 de Fevereiro de 2017

Crónica publicada na Rádio Ourique (leia aqui)

Estamos a começar o segundo mês do ano e temos a sensação de que 2017 já vai longo.

Começámos com o falecimento de Mário Soares, figura ímpar na luta pela Democracia e na defesa da Liberdade. Podíamos não gostar do seu estilo, das suas opções políticas ou mesmo da sua maneira de estar na vida, mas temos, e devemos, reconhecer-lhe o indiscutível valor na fundação de um Portugal sem mordaças, livre e democrático.

No campo oposto tivemos a entrada em funções do Presidente dos Estados Unidos da América que, queira-se ou não, é (será?) o líder da nação mais poderosa do mundo. Todos os dias somos bombardeados com os seus despachos, decisões e decretos, cada um pior que o antecedente. O populismo tem em Trump o seu maior e mais perigoso exemplar. Os EUA são muito maiores que o seu presidente e não mereciam ter uma figura destas à frente dos seus destinos.

Por cá, assistimos ao primeiro abanão no governo da geringonça, quando o PSD decidiu juntar-se ao PCP e ao Bloco de Esquerda para “chumbar” o decreto governamental da TSU. Com visíveis ganhos imediatos, resta saber se este tipo de oposição adoptado por Passos Coelho dará frutos no futuro do PSD. E do país.

Nos nossos concelhos vamos assistindo aos preparativos para as eleições autárquicas que terão lugar no Outono deste ano. Quem está no poder vai usando as ferramentas municipais para se vangloriar, ora por obras feitas, ora por obras que promete vir a concluir. Todos os meios servem para fazer propaganda, assistindo-se a uma clara ausência de pudor na utilização de meios públicos para ir fazendo propaganda eleitoral. Na minha cidade (Beja) é assim que tem acontecido. Calculo que o mesmo se passe nos outros concelhos. Basta dar uma espreitadela aos diversos boletins municipais – esses jornais camarários suportados por todos nós – para verificarmos até onde pode ir o descaramento.

Também em Portugal, o país bafiento e cheio de mofo decidiu sair do armário para falar sobre literatura, livros e sobre um tal Plano Nacional de Leitura. Obviamente que não se podia esperar boa coisa, quando alguns pais/encarregados de educação decidem manifestar-se contra duas – sim duas – páginas de um livro que, dizem, incluem conteúdo sexual que consideram “violento” e “inapropriado” para alunos do 3º ciclo.

Subitamente, transformaram-se adolescentes em crianças, em meninos de coro, em “imberbes” que nunca ouviram falar em alhos, confundindo bugalhos com rabos, glúteos com seios sem mamilos, etc… Adolescentes que, não tenho dúvidas, nunca espreitaram na internet aquilo que os seus educadores (alguns) pagam para ver nos canais de tv por cabo. Obviamente que os filhos destas famílias protectoras saberão, na devida altura, agradecer aos seus pais que lhes ocultem Gil Vicente, Saramago, Sophia ou mesmo Eugénio de Andrade.

E porque falamos da nossa Língua, foi notícia que o Acordo Ortográfico vai ser sujeito a uma “revisão ligeira”, pondo fim a algumas situações absurdas que levaram ao “abrasileiramento” do português escrito.

Aqui, como por exemplo com o “assunto eutanásia”, serão os legisladores burocratas a tomar as decisões. Muitas vezes apetece-me dizer que o 25 de Abril não chegou às nossas casas, às nossas cabeças. Enquanto as mentalidades continuarem fechadas em gavetões escuros, a modernidade, o desenvolvimento cultural e o progresso serão expressões inconsequentes no nosso viver.

Termino esta crónica com palavras de Vítor Encarnação, que tão bem tem tratado o escrever português, porque a poesia pode iluminar-nos os dias e trazer-nos um novo olhar sobre as coisas do mundo. E porque a escrita pode ser um orgasmo da alma.

    “dou-te palavras ao ouvido
    como se te desse mel.
    Espessas e vagarosas
    escorrem para o teu pescoço
    e para os ombros
    e depois para todo o lado,
    e as minhas mãos,
    felizes e açucaradas,
    enfeitam o teu corpo
    com as inquietações
    formidáveis do desejo.”

João Espinho – 31 de Janeiro de 2017

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RIP – Figura do ano 2016

31 de Dezembro de 2016

 No final de Dezembro somos sempre tentados a olhar pelo retrovisor e a fazer um balanço do ano que termina.
De acordo com as crónicas que por aí proliferam, o ano de 2016 terá sido marcado pela morte de muitas figuras públicas, desde actores a artistas de música, passando por desportistas, escritores e muita gente dos diversos mundos do espectáculo, das artes, da ciência, etc… 
Alguém perguntou: Morreram mesmo mais celebridades em 2016 comparativamente a anos anteriores? 
É provável que sim. Talvez a explicação seja a que “as pessoas que começaram a ficar famosas na década de 1960 estão agora a entrar nos seus 70 anos e começam a morrer”.
Vamos aceitar que assim tenha sido.
Para nós, o que mais nos toca é o desaparecimento de familiares próximos e de amigos chegados. Mais chocados ficamos quando esse desaparecimento acontece de forma súbita e inesperada, assim como quando atinge os mais novos que, num ciclo normal da vida, cá deveriam continuar por muitos mais anos. Recordo, muito rapidamente, e para dar exemplos de quem era da nossa região alentejana, a morte imprevista de Nicolau Breyner e de Manuel Castro e Brito. Paz à sua alma, que descansem em paz. Ou como passou a ser moda, principalmente nas redes sociais, RIP.
Mas, e desculpem-me a linguagem, porra para o RIP.
Explico
Na maior parte dos obituários das agências funerárias, que agora nos dão conta, em tempo quase real, das mortes que vão sucedendo, é recorrente aparecerem uns RIP, sinónimo julgo eu, do pesar pelo falecimento de alguém e que, por qualquer razão, não podemos manifestar de viva voz aos familiares e amigos.
Durante algum tempo segui com atenção as páginas online de diversas funerárias e constatei várias coisas. Primeiro, que há uns rip’s que são mais intensos do que outros, pois fazem-se acompanhar de bonequinhos a verter lágrimas ou de velas incandescentes, reforçadas por “mais uma estrela no céu” a que, tem que ser, somam mais umas lágrimas.
Depois, o que achei mais estranho, foi a constante participação de algumas pessoas que ripavam (de rip) ora em alguém que tinha falecido num longínquo Carcavelinhos-de-Cima ou numa casa nas vizinhanças. A Dona Alísia de Sousa, que faleceu aos 87 anos, num monte isolado na serra do Caldeirão, teve também direito a alguns RIP’s, o que deixou os familiares muito sensibilizados mas, simultaneamente, atrapalhados, por não encontrar forma de agradecer pessoalmente aquilo que pareciam ser as condolências.

Desaparecidos os cartões-de-visita, que deixávamos nas casas mortuárias durante os velórios, e onde simplesmente escrevíamos “s.p.” (sentidos pêsames), optou-se agora para se ir ao Facebook, escrevendo-se um epitáfio simples mas eficiente: RIP – forma abreviada de requiescat in pace – locução latina que significa “que repouse em paz” e utilizada pelos anglófonos como “rest in peace”.
Isto é, deixámos de saber dizer, ou escrever, sentidas condolências, sentidos pêsames, ou outras expressões muito mais portuguesas e com muito maior significado, para nos abreviarmos num simples e frio R.I.P.

Como epitáfios poderemos voltar a usar o “descanse em paz” ou, para os mais crentes, paz à sua alma. Aos familiares e amigos, poderemos voltar a dizer “sentidas condolências”, “sentidos pêsames”, “lamento muito”, e tantas outras afirmações de pesar. Se o voltarmos a fazer futuramente, pode ser que estejamos a enterrar o ano que vai terminar.

Aproveito para desejar, a todos os que por aqui passam, um feliz ano novo e , já agora, RIP 2016.

Crónica escrita para a Rádio Ourique.

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Os ditadores não morrem

6 de Dezembro de 2016

radio-ourique

A minha crónica na Rádio Ourique

Hesitei sobre o título desta crónica. A torrente de informação é de tal forma intensa nestes tempos conturbados, que é por vezes difícil escolher um tema, discernir sobre aquilo que nos parece realmente importante, e separar as evidências do que é, aparentemente, acessório.

 No momento em que começo a escrever este pequeno comentário, terminou a “Caravana da Liberdade”, que transportou as cinzas de Fidel Castro, durante 9 dias, pela ilha de Cuba, pondo assim fim a um quase interminável funeral. Durante este período de luto para algumas franjas da esquerda, assistimos a tudo: louvores à revolução cubana, destemperados elogios à figura do déspota e, noutro lado, a comparações ignorantes com ditadores do século passado. Estive tentado em titular este escrito com um rotundo: os ditadores também morrem! Mas, afinal, parece que não. Quando se pensava que Fulgêncio Baptista estava bem morto e enterrado, alguns fizeram questão de nos recordar que ele foi presidente eleito, que depois fez suspender a Constituição, transformando o regime cubano numa ditadura. Castro mandou-o para o exílio com uma Revolução onde se destacou o irmão Raul, actual presidente, e esse ícone e figura emblemática na minha juventude, Che Guevara. Um ditador deu o lugar a um tirano. A morte de Fidel fez, assim, ressuscitar o ditador que o antecedeu.

 Apetece dizer: “Os ditadores não morrem!”.

 Foi possível ler crónicas onde se desenterraram Hitler, Mussolini, Estaline, Franco e, veja-se bem, Salazar, o ditador saloio de Santa Comba. Que haja quem tente branquear a História, compreende-se, mas que haja quem a tente reescrever, é inadmissível. No caso de Fidel, a História se encarregará de relatar, desapaixonadamente, o papel de Castro e do castrador castrismo. Até à morte do próximo ditador, deixem as cinzas sossegar e esperar que o povo cubano saiba fazer o luto e regresse às ruas para tocar e dançar boleros. E reclamar por liberdade e democracia.

 Outro tema quente, é o que se passa na Europa.

 A Áustria disse não à extrema-direita e em Itália o europeísmo foi derrotado num referendo. Com um calendário recheado em 2017, a Europa vai enfrentar tempos conturbados: eleições na Alemanha, Holanda e França, um brexit a contaminar a zona euro e, previsivelmente, o fortalecimento do italexit. Seria bom que a Europa deixasse de ser um clube de burocratas e se dedicasse mais às pessoas, aos europeus. Com a eleição de Trump, a Europa tem uma ocasião ímpar para se impor e impor os seus valores democráticos e humanistas. Não podemos cair na tentação de experiências populistas cujos resultados, veja-se a História recente, podem ser devastadores, fatais.

 Por cá foi a animação habitual, com a Caixa Geral de Depósitos a liderar os títulos dos media.

 Igualmente a merecer destaque o regresso do feriado de 1 de Dezembro. E com ele um ataque, justificado, a Passos Coelho e à “geringonça de direita”. A vida está a correr mal ao líder do PSD.

Às críticas, não disfarçadas, do Presidente da República, somou-se o “não!” de Santana Lopes. Com Rui Rio (e outros) à espreita, os tempos de Passos Coelho não vão ser fáceis.

 Por cá, no nosso Alentejo, as ruas (algumas) iluminaram-se abundantemente com as cores do Natal.

Com que custos? E em detrimento do quê? Em 2017 saberemos. Até porque, por cá, vamos ter eleições autárquicas. E é também nas urnas que se derrubam ou se afastam “ditadores”.

 Se não nos virmos antes, votos de um Santo Natal.

João Espinho – 5/12/2016

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A obsessão antiamericana

14 de Novembro de 2016

trump

Ponto prévio – desde que começou a campanha presidencial nos EUA, em que surge Trump a correr para ser candidato pelo Partido Republicano, que achei que o dito senhor era uma carta fora do baralho e com evidentes falhas de civismo e bom senso.

Apesar de significativas contrariedades dentro do próprio partido, impôs-se como candidato e fez uma campanha que, aos olhos de um europeu e de qualquer democrata, estava condenada ao fracasso.

Sempre pensei, e esperei, que Donald Trump não fosse eleito presidente dos Estados Unidos da América.
Dito isto, pretendo avançar para o que se assistiu nas horas seguintes aos actos eleitorais.

Foi com pasmo, e tristeza, que vi Trump ser eleito para o cargo político mais poderoso do mundo.
Foi uma escolha do povo e em Democracia “o povo é quem mais ordena”.
Porém, nas redes sociais, parece que Povo só é povo se votar nos candidatos da nossa preferência. Pior, se esse povo decide votar num candidato que odiamos, esse povo passa a ser “burro, inculto, estúpido, xenófobo, racista, grunho” etc…
Eu compreendo esta nova vaga de “comentadores” que, evidentemente, desconhece que os EUA têm uma Lei Fundamental ( Constituição) desde 1787, sendo das mais antigas democracias que conhecemos. O seu preâmbulo começa com um expressivo “We the People”.
Será talvez por ignorância, ou por alinhamento desinformado, ou mesmo por uma questão de moda, que muitos adjectivam o povo americano com nomes como os que atrás referi.
Porém, nos tempos que correm, esta obsessão antiamericana tem outras raízes. Órfãos da União Soviética, vêm nos ataques aos Estados Unidos uma bóia de salvação para as suas crises de orfandade e de saudades das pátrias do socialismo soviético.

Aqueles que militam na obsessão antiamericana não perdoam que os americanos tenham prosperado economicamente e que, simultaneamente, constituam um povo que vive em democracia e onde a Liberdade não é só uma estátua.

Donald Trump foi eleito e o que aí virá não se sabe. Durante um ano ouvimo-lo dizer grandes atrocidades, demonstrando um elevado grau de desumanidade e com um discurso carregado de selvajaria e violência.

Queremos acreditar que o Presidente não será uma cópia do candidato.

Podemos, e devemos, protestar contra as opções que Trump escolher e que nos pareçam colocar o mundo ainda mais perigoso.

Durante o trajecto podemos, e devemos, evitar ser grunhos, burros e estúpidos. As redes sociais não podem servir para isso.

Atrás dos tempos vêm tempos. Desejo, e luto por isso, continuar a viver em Democracia e Liberdade.

Crónica publicada igualmente na Rádio Ourique

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Autárquicas – as previsões

27 de Setembro de 2013

Tendo por base as diferentes propostas eleitorais, as particularidades da região e o clima político e social do País, quais são as previsões para a eleição de domingo?

Aproximamo-nos do fim desta jogatana que teve início há não sei quantas semanas e que tem entretido os “homens da bisca” e os leitores do Diário do Alentejo. Foi um “campeonato” transparente e não houve renúncias, tendo cada um jogado o melhor que sabe e sem jogadas baixas. Foi um jogo às cegas pois quase a terminar ainda não conheço alguns dos parceiros de bisca. Devo dizer que algumas vezes fiz batota, pois as cartas que jogava eram-me sugeridas por colegas ou amigos, a quem eu perguntava que carta deveria jogar. Desconheço quantos Valetes lancei e se as minhas manilhas foram jogadas em vão. Chegados a esta fase, pedem-nos previsões. Não quero acreditar que os meus parceiros de bisca se vão esconder no tradicional “previsões só no fim do jogo”.
Eu vou arriscar e começo logo por destrunfar, jogando a carta mais alta, o Ás de ouros: embora me parecesse, no início, o contrário, isto é, que o PSD sairia fortemente penalizado, prevejo agora que o PSD poderá salvar a face, bastando-lhe manter Almodôvar, o que, afinal não é impossível, conseguindo um excelente resultado em Alvito, bons resultados na Vidigueira e Moura, e obtendo uma subida generalizada do número de votos nas mais diversas autarquias. Deixo para o fim o concelho de Beja onde tudo pode acontecer. Porém, pedem-me previsões. Arrisco a vitória do PS para a Câmara, dependendo os resultados do PSD da expressividade dessa vitória. Nas Juntas de Freguesia poderá haver surpresas, sendo de prever uma luta renhida para os lados de S. João Baptista (mais Santiago) onde, dizem, poderá funcionar o voto útil a favor da atual Presidente (PSD). No próximo domingo somos nós que decidimos. Por isso deixo o apelo: Vá votar!
João Espinho
no ( DA)

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O Dia Mundial da Democracia

27 de Setembro de 2013

A 15 de Setembro celebra-se o Dia Mundial da Democracia. O actual sistema garante a plena liberdade democrática e o exercício da cidadania ao nível dos órgãos autárquicos?

Bem me parecia que a democracia não se estava a celebrar todos os dias, como devia, havendo necessidade de criar essa figura do “Dia Mundial” para que os mais distraídos se recordem que, não sendo perfeito, ainda é o melhor dos regimes. Apesar de todos os atropelos a que é sujeita a todo o momento, atropelos esses feitos em nome da própria democracia, apesar da sua constante desfiguração, não me imagino a viver noutro regime que não em democracia.
Portugal atravessa uma grave crise, não só económica e financeira, mas também de valores democráticos e arrisco dizer que este modelo de regime se esgotou, havendo necessidade de procurar, dentro do quadro democrático, um novo sistema que torne efectiva a participação dos cidadãos nas decisões que lhes dizem directamente respeito, não perdendo de vista a necessidade de os decisores primarem pela tolerância e respeito pela liberdade de cada um. A democracia representativa, que o poder autárquico diz defender e praticar, necessita urgentemente de se revigorar, criando novas ferramentas que possibilitem uma intervenção mais activa dos munícipes na vida das suas urbes. Também vai sendo tempo que se reformule o papel das assembleias municipais, dando-lhes mais poderes e instrumentos de fiscalização, devendo as mesmas abandonar o seu comportamento de câmaras de eco das direcções partidárias, onde se discutem, até altas horas, dezenas de moções que em nada contribuem para a qualidade de vida dos munícipes.
O actual sistema está enfermo. Carece de tratamento urgente feito por “agentes” dedicados e “descontaminados.
João Espinho
(no DA)

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A Comissão Nacional de Eleições

25 de Setembro de 2013

É à Comissão Nacional de Eleições que compete estabelecer os critérios jornalísticos na cobertura das eleições, nomeadamente nas Autárquicas?

A democracia portuguesa sai fortemente prejudicada com a posição tomada pela Comissão Nacional de Eleições (CNE) sobre o tratamento jornalístico da campanha eleitoral autárquica. Ao exigir tratamento igual àquilo que não é igual, a CNE intromete-se numa área que não deveria ser a sua, registando-se um anacronismo legislativo que vai provocar, ainda mais, o alheamento dos eleitores para o acto eleitoral que se avizinha. É verdade que as pessoas andam cansadas da política, é também verdade que os eleitores pouco ou nenhum interesse mostram pelos tempos de antena produzidos nas e pelas direcções partidárias.
Mas exigir que as redações de jornais e TV adotem uma linha editorial que põe no mesmo patamar aquilo que não é equalitário, veio provocar nos órgãos de comunicação social uma atitude que os arreda de efetuar uma cobertura jornalística da campanha eleitoral, o que fará com que o eleitorado fique menos informado e esclarecido sobre as diversas posições e programas das listas concorrentes, o que resultará, indiscutivelmente, num aumento da abstenção. Já o disse: esta democracia está doente. A Comissão Nacional de Eleições só veio demonstrar que as metástases surgem donde menos se esperava e se espalham e contaminam por áreas que se pretendiam imunes.
A CNE prestou um mau serviço a Portugal e à democracia.
João Espinho – no DA)

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Leituras políticas das Autárquicas 2013

25 de Setembro de 2013

A exactamente um mês das eleições, quais são as leituras políticas que se podem antever ou antecipar das Autárquicas 2013?

No momento em que jogo esta vaza, o imbróglio das candidaturas socialista e comunista à Câmara de Beja está nas mãos do Tribunal Constitucional (TC) que, por sua vez, mandou os seus juízes passar uns dias de férias, estando por isso a meio gás.
Não se sabe, portanto, se a Beja Capital ficará com Pulido ou com Velez, e se a coligação Afirmar Beja mantém Rocha ou faz avançar Picado. Cá para mim, a coisa já está resolvida e o TC vai pronunciar-se pela elegibilidade de ambos o que
– resolve o problema dos mega cartazes de Pulido Valente que, doutra forma, teriam que ser substituídos, o que significaria uma enorme despesa, nada consentânea com o alegado pagamento de dívidas de que o referido cartaz se faz eco;
– vai criar uma chatice a João Rocha que poderá alegar que, se a sua candidatura é viável em Beja, também o seria em Serpa; o candidato comunista vai amuar e dizer que não quer saber de Beja, declarando “afirmar Serpa” é que faz sentido. Para além disso João Rocha via-se livre de ter que explicar durante a campanha a quem se dirigia o recado (crítica) da “falta de ligação à comunidade e disponibilidade para ouvir e para dialogar” que proferiu na apresentação da sua candidatura.
Estamos no final de agosto e as máquinas partidárias parecem estar ainda em ensaios de motores, não se percebendo qual das candidaturas trará a debate ideias novas para o concelho e para a própria cidade. Apesar de muito se falar do “peso” dos votos no movimento independente, parece-me que a este restará sonhar com a soma dos votos do BE em 2009 a algumas migalhas que venham a ser desperdiçadas pelo PCP e pelos socialistas. Prognósticos, por enquanto, ficam só para mim. Prometo, na derradeira bisca antes das eleições, mandar um palpite, sabendo-se que não passará disso mesmo.

João Espinho no DA ( 30-08-2013

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Ser presidente de câmara é um cargo atrativo?

2 de Agosto de 2013

Ser presidente de câmara é um cargo atrativo quando, hoje em dia, as autarquias estão muitíssimo limitadas em termos de competências e de orçamentos e quando os autarcas são responsabilizados pessoalmente pelos seus atos?

Obviamente que o cargo de presidente de câmara deve ter muita coisa boa para oferecer, caso contrário ninguém se candidataria a:
– presidir a uma empresa falida;
– ver a sua vida particular devassada;
– ter a perspetiva de vir a ser um presidiário por decisões políticas tomadas e fundamentadas em pareceres técnicos indiscutíveis;
– ser alvo de invejas e de “holofotes pidescos”;
– perder vida própria;
– deixar de ser um cidadão normal para passar a ser “mais um malandro de um político”;
– ter que diariamente ouvir adjetivos pouco elegantes; etc…
Admito que haja alguns (não muitos) que acreditam que podem contribuir para uma sociedade melhor, para uma cidade mais bonita, para uma região mais próspera. Há-os, sem dúvidas, aqueles que abraçaram o serviço público como missão de vida e trabalham abnegadamente tendo como finalidade única o bem-estar das populações eleitoras. São raros, é verdade, e é por isso que o nosso regime vai apodrecendo, sendo já os tribunais a tomarem decisões que caberiam exclusivamente ao poder político, numa promiscuidade que não vai trazer nada de bom a um país que, por variadas razões, caminha aceleradamente para o abismo.
Enfim, a cadeira do poder é apetecível, muitas das vezes pelas piores razões. O que é pena.
Jogo o duque de paus, pois não arrisco perder uma carta mais alta.
João Espinho
(no DA)

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Mudámos de roupa

25 de Julho de 2013

Mas não trocámos de camisola

Semanalmente no Diário do Alentejo.

bisca lambida

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O que poderá ganhar Beja com a candidatura de João Rocha?

21 de Julho de 2013

O que poderá ganhar Beja com a candidatura de João Rocha? O exemplo de Serpa é transponível para a capital de distrito?

Com esta candidatura, Beja e os bejenses ganham bastante, principalmente em conhecimento dessa espécie a que se vulgarizou chamar de “dinossauros”, sinónimo de políticos que se perpetuam no poder e que têm sempre um projecto novo para apresentar. Ficamos a saber, por exemplo, que 32 anos não chegaram para João Rocha concluir o seu projecto autárquico e que, por via da sua dedicada militância comunista, é-lhe dada mais uma oportunidade, desta feita na capital de distrito, para levar a cabo algo de novo e que ainda não se sabe bem o que é.
Esta candidatura traz-nos uma outra mais-‑valia: revela-nos o súbito embevecimento de que muita gente padece com o “desenvolvimento que se assistiu em Serpa”, havendo quem faça comparações com a cidade de Beja, ficando esta a perder, sendo humilhada pela “movida” da Margem Esquerda, pelo “glamour” serpense, pois de Serpa, dizem, só bons ventos e coisas boas. Esquecem-se estes recém-convertidos aos encantos de Serpa que, durante mais de três décadas, foi Beja, e quem a governou – curiosamente do mesmo partido de João Rocha, que se deixou ultrapassar, que optou pela apatia e pelo marasmo. Obviamente que, quando não se vai a jogo, ou se perde por falta de comparência ou alguém toma o lugar dos ausentes.
Serpa e Beja são realidades distintas e só por mera propaganda política se pode dizer que Serpa é um “exemplo”. Que alguns querem agora transferir para Beja. Em Setembro ficaremos a saber se os eleitores estão assim tão enfeitiçados com a obra de João Rocha.

João Espinho
(no DA)

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Mértola e a CDU

18 de Junho de 2013

“A aposta da CDU em Miguel Bento será suficiente para recuperar uma câmara que sempre foi muito cara ao PCP?”

Pode parecer estranho, mas a realidade é mesmo esta: depois de ter dominado o concelho, onde desde 1976 ganhava folgadamente as eleições, o PCP chega enfraquecido a 2001, ocasião em que é derrotado por poucos (mas bem recontados) votos, numa clara advertência dos eleitores de Mértola de que a política à volta do património e das escavações arqueológicas não lhes era suficiente. Os resultados da coligação comunista/verde nunca conseguiram recuperar do forte abanão que constituiu a queda daquela parte do império comunista no Alentejo. Limitando-se a fazer oposição largando uns tiros de pólvora seca, o PCP local tem vindo gradualmente a definhar, quer em actividade quer, obviamente, em resultados eleitorais. Nem mesmo a antecipada saída de Jorge P. Valente (em 2008) nem as apostas “fortes” que tem feito com alguns cabeça de lista, conseguem fazer a CDU aproximar-se do seu principal rival. A experiência de “facilitar” o aparecimento de um Movimento Independente, com o claro objectivo de retirar votos aos socialistas, não surtiu os efeitos pretendidos, acabando por fazer mais uma vítima, o PSD, que quase desapareceu dos mapas dos resultados.
Estou em crer que as duas centenas de votos que o PS teve de vantagem, em 2009, poderão ser suficientes para que Jorge Rosa seja reeleito como presidente da Câmara de Mértola.
João Espinho
(no DA)

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