Arquivo da Categoria ‘Célia’

Célia -37-

25 de Agosto de 2004

O seu olhar nada tinha de sereno. Apesar de me dizer que sim, que estava calma, vi-lhe no rosto marcas de noites de sem dormir, os olhos sem o brilho dos outros dias e noites, uma sombra toldava-lhe a expressão.
Tens a certeza que é mesmo esse o caminho que queres seguir, tentei eu indagar do que mais a atormentava. Pela primeira vez, naqueles quinze minutos de café, agarrou-me uma das mãos, com uma intensidade que me fez estremecer. As lágrimas assomaram-se e os seus olhos tomaram uma beleza que eu nunca lhe tinha visto. Eu não a queria ver chorar, mas aquele súbito encantamento que o seu rosto tomou, fascinou-me. Contive uma forte vontade de a beijar. Não estava ali para a confortar. Célia é forte demais para aceitar um conforto.
“João, ajuda-me! Tenho que partir, mas precisava de ficar”.
Que espécie de ajuda se pode oferecer a quem escolhe um caminho que não quer seguir?
Não lhe podia dizer não vás, e também nunca lhe diria fica!
Tentei articular algo que lhe desse alguma força. Mostrar-lhe que eu estaria sempre ao seu lado, que a ajudaria. Mas até eu estava a sentir-me fraquejar nessa minha vontade. Não sei se o meu ânimo não seria derrotado pelo tempo e pela distância.
Sem perder a determinação que a faz ser uma mulher especial, mas vendo-me afundar, e quase em jeito de súplica, sacudiu-me com um “Não desisto. Mesmo que tu desistas. Aguenta, João!”
Não sei se lhe fiz alguma promessa, se lhe transmiti algum sinal, mas fiquei com o sentimento de que ela acredita que eu não vou desistir.
Coincide com o meu.

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Célia -36-

18 de Agosto de 2004

Pediu-me para que, numa deslocação à capital, lhe sugerisse um local para uma conversa.
“Preciso de ti. Preciso de estar contigo”.
Entrámos no café, um igual a tantos outros, para tentarmos perceber o que se nos tinha passado. Sentámo-nos frente a frente. Queríamos que aquele lugar fosse só nosso e que nenhum de nós desviasse o olhar um do outro.
Tarefa nada fácil.
Logo ao entrar pareceu-me ouvir um silêncio sussurrante. Deveria estar enganado. Naquele local ninguém me conhecia e Célia seria cara nova por ali. Ou até talvez por isso. Estaríamos a ser intrusos?
Que gente estaria interessada em nós?
Numa mesa um jovem lia com ar sôfrego um livro do José Eduardo Agualusa. Sim, era o “A substância do amor”. Recordei alguns dos contos que ali se misturavam com crónicas. Assaltou-me uma imensa curiosidade em saber que conto estaria aquele jovem a ler. Lembro-me de ter lido aquela coisa terrível de que “o amor é apenas o princípio do ódio, o amor é uma vertigem”, mas a sua face mostrava um sorriso apaixonante. Não podia ser aquele conto. Talvez fosse aquela linda história de “no Rossio, à espera de um táxi, quando o telefone tocou numa cabine ao lado” e ele atendeu. Ah, que linda história essa em que “havia muito Sol do outro lado”. Esbocei um sorriso.
Célia acordou-me destes pensamentos, desafiou-me um olhar terno e rasgou-me com um “João, como é que eu posso devolver-te o teu sorriso?”.
A resposta teria sido sem protocolos, não fosse a chegada dos cafés que nem me lembrava de ter pedido.

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Célia -35-

16 de Agosto de 2004

A sua segunda chamada foi mais calma. Não havia ninguém por perto, tinha algum tempo para me contar o que vão ser os seus próximos meses, em que se prepara para a grande caminhada, a caminhada de uma vida, que nem ela sabe bem o que será.
Recordou-me que o país para onde vai fica na Europa, que não estamos longe, que em qualquer altura poderemos olhar-nos, enfim, Célia, no meio daquilo a que ela chama destino, ainda sofre de optimismo, apesar de eu lhe fazer ver que tudo mudou, a partir do momento em que ela assumiu o compromisso de acompanhar o homem com quem vive.
“O que mais me custa, João, não é o não saber o que vou encontrar. É saber aquilo que posso vir a perder”. Célia deixa a capital, onde já se movimentava e tinha os seus contactos, onde “tinha mais por onde escolher”, onde estava a tentar realizar-se. Perante o desafio (ainda não me contou se foi entre a espada e a parede) de seguir a vida confortável que um diplomata tem numa capital europeia a deixar-se ficar por cá, “mais pobre por fora, mas enriquecida por dentro”, Célia, mais uma vez, tomou uma decisão. Diz que era a que tinha que tomar, mas que sabe que não é a que ela queria para si.
Nunca a questionei das razões dessa decisão. Sei que a resposta nos magoaria.
Mas sempre a conheci assim. Tomado o rumo, não há retrocesso.
Célia vai agora “fazer caixotes, embalar livros, comprar roupa”, coisa que tem feito com certa regularidade ao longo da sua vida.
O que eu lhe achei sempre de mágico é que Célia faz tudo isto com o mesmo carinho com que faz precisamente o contrário. Quando rompe, quando se despede, quando refaz caixotes, quando tenta “rasgar as cortinas do passado”.
Não me admirou pois a sua última frase deste primeiro longo telefonema: “Não deixes que as nuvens escondam a luz do Sol”.
Não deixarei!

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CÉLIA -34-

15 de Agosto de 2004

Telefonou-me hoje, por fim. Uma conversa angustiantemente adiada.
Pedi-lhe para não me contar nada. Pelo menos por agora.
Foi uma conversa rápida. O suficiente para lhe dizer o essencial.
“Sim, João, é o essencial que me perturba”.
Roguei-lhe silêncio.
Apeteceu-me dizer-lhe como o poeta em Madredeus:
“Haja o que houver”.
Desligámos. Simultaneamente.
Não me disse quando parte. E por quantos anos.
Mas fiquei com a sensação de que regressará.
Um dia.

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Célia (da vida)

13 de Agosto de 2004

Alguém, em silêncio, chorou perante o fim de Célia.
Chegaram-me os ecos desse choro.
Esclareço: Célia está sempre presente.
Jamais teria a coragem de romper ou cortar os laços que se estabelecem entre Célia e o que aqui escrevo.
Continuarei.
Mas Célia vive hoje uma nova vida. Uma vida que não escolheu. Alguém escolheu por ela. A vida pregou-lhe uma valente rasteira. Não sei como é que ela se vai levantar. Manifestei-lhe disponibilidade de ajuda. Rejeitou.
Vejo-a hoje mais perto de mim. Mas ao mesmo tempo a caminhar em sentido contrário ao meu. Ou talvez não.
Célia regressa à Praça.
Um aviso: as palavras que Célia me vai enviando são, a maior parte das vezes, demasiado brutais para que se creiam verdadeiras. Mas são.
Outro aviso: qualquer semelhança não passará disso. Não queiram estabelecer pontes. Estas sou eu que tenho que reconstruir. Para tentar salvar Célia do seu destino.
Até já.

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Célia (interregno)

9 de Agosto de 2004

É provável que o episódio 33 de Célia tenha sido o último desta série.
É também provável que uma outra série surja.
Também é possível que Célia desapareça.
Talvez outra Célia lhe dê lugar. Ou a mesma.
Não sei.
Tudo depende de Célia.

Para todos os que ao longo deste tempo acompanharam Célia, fica a garantia de que a escrita não me abandonou. E o habitual obrigado pela atenção dispensada.

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Célia -33-

9 de Agosto de 2004

Pegou na garrafa e verteu mais uma quantidade daquele álcool.
Levou o copo à boca. Pousou-o e iniciou uma dança estranha.
Primeiro de uma forma descoordenada. Depois a um ritmo mais lento, mas mesmo assim descompassado.
Percebi que aquela seria uma noite diferente.
Pediu-me que a acompanhasse nos movimentos.
Enlacei-a pela cintura. Compreendi que me queria mais próximo.
Deixei-me embalar pela sua sensualidade.
Os nossos corpos estavam agora colados, acompanhando com movimentos suaves a música que nos embriagava.
Fez escorregar a sua mão.
Abracei-a.
A música – “Hold on my heart”- parecia dar agora os seus primeiros acordes.
Esquecemos naquele momento o copo que se entornara.
Olhei-a nos olhos. Vislumbrei-lhe umas lágrimas.
“João, estas não serão, certamente, as últimas lágrimas que derramarei no teu peito”.
Disse-mo, seguido de um adeus. Este não se assemelhou aos anteriores.
Não sei se lhe agradeci, mas era essa a minha intenção.

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Célia -31-

5 de Agosto de 2004

Levantei-me, pus uma toalha à volta da cintura. Fui para a sala. Precisava de fumar um cigarro.
Liguei a MTV. Pela não sei quantas vezes repetia-se Britney e o “Everytime”.
Ela apareceu à porta da sala. O seu corpo, ainda transpirado, reflectia rasgos de uma luminosidade que nunca lhe tinha visto. Os cabelos desalinhados transluziam uma beleza rara. Olhei para ela como se a estivesse a ver pela primeira vez.
Aproximou-se, olhou para a televisão: “Esta música não tem nada a ver connosco, pois não?”.
De que estaria ela a falar? Os meus olhos estavam embriagados.
Como seria possível que, após tantos registos, eu não tivesse reparado na perfeição dos pormenores.
Célia percebeu o meu embevecimento. Pegou-me na mão. Levantei-me do sofá.
Ali mesmo, em frente à TV, e com uma sensualidade estonteante, Célia segredou-me: “I guess I need you”.

“Everytime” voltou a ouvir-se, não sei se no mesmo canal.

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CÉLIA -30-

2 de Agosto de 2004

Ao virar a página daquele caderno, reparei no que me parecia o texto de uma carta. A entrada não enganava. Um esclarecedor “Olá amor!” só poderia significar uma comunicação. Fechei o caderno. Não me podia autorizar a violar um espaço que sabia ser mais do que privado. Estavam ali os seus desejos mais íntimos. O relato cru de emoções e sentimentos. Tudo escrito na 1ª pessoa.
Entreguei-lhe o caderno.
Fitou-me profundamente e perguntou-me: “Queres ler essa carta?”
Achas que devo?
Tinha curiosidade em saber como é que Célia se relacionava com a pessoa que amava. Ao mesmo tempo assaltava-me um medo de que aquelas palavras me provocassem algum desconforto.
“Lê, e peço-te silêncio”.
Prometo.
Abri de novo o caderno no sítio onde me parecia que estaria aquela carta.
De dentro do caderno solta-se um pedaço de papel que me cai aos pés. Apanho-o e consigo ler: “Olá amor! Escrevo-te estas pequenas linhas para te dizer simplesmente que te amo. És o oásis do deserto onde vivo. De todas as palavras que te escreva, estas são as mais sinceras. Um beijo”.
Guardei o papel no meio do caderno e preparava-me para ler a carta quando Célia, sem hesitar, me diz:
“Não vale a pena leres a carta”.
Fechei o caderno.

A letra do manuscrito que me caíra aos pés não era a de Célia.

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CÉLIA -29-

26 de Julho de 2004

Podes estar descansada. Estou num tempo de me entregar a uma só pessoa. Percebes isso?
Não sei se seriam estas as palavras exactas que Célia queria ler. Não me admiraria que ela me telefonasse, para confirmar pela voz aquilo que eu acabara de escrever. Também não seria de estranhar que, mesmo no calor de uma noite, me quisesse ler nos olhos a verdade do que acabara de lhe enviar.
O toque de mensagem afastou-me destes pensamentos. Obviamente que Célia não teria duvidas.
“Porque é que me amas?”
Marquei o seu número e acho que fui bem claro quando lhe disse que a última vez que me questionaram sobre o amor, a resposta foi sem rodeios.
“E que te perguntaram, João?”
– Porque não me amas?
“Pode saber-se o que respondeste?”

Nessa noite a temperatura subiu nos termómetros.

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Célia -28-

22 de Julho de 2004

Célia anda triste. Depois do seu regresso definitivo de Londres, onde deixou e largou o chinês e uma estabilidade pacientemente construída, instalou-se na capital para, diz ela, “tenho mais por onde escolher”. E escolheu. Não sei se foi logo na avenida do aeroporto, esse lugar mítico dos que regressam à pátria, mas não demorou a dizer-me que tinha um tecto confortável e uma comodidade de que ela estava a precisar.
Versátil como a conheço, tenho estado à espera que me venha relatar o enjoo de uma ligação eterna, o tédio da rotina, a incapacidade para ser fiel.
Foi com um certo pasmo que a ouvi dizer que estava apaixonada. Pensei que seria do homem da avenida com sofás de marca. “Estás louco?”, não percebi bem porquê nem ela me deixou perguntar. “Vejo-o nos intervalos das viagens, e foi entre intervalos que conheci alguém de quem estou loucamente apaixonada”.
Isso passa-te, avancei logo, não fosse ela pensar que eu ignorava o seu temperamento.
“Não, João! Agora é diferente. Não te sei explicar”.
Não me venhas dizer que, de um dia para o outro, descobriste a tua alma gémea.
“Não sei se é alma gémea. Chama-lhe o que quiseres. Sei que é alguém que já amava antes mesmo de conhecer. A quem entreguei o meu coração, que ele preencheu de uma forma tão terna e tão doce que não tenho dúvidas que é com ele que quero acabar os meus dias, a desfrutar cada minuto”.
Nunca tinha visto Célia tão apaixonada. Seria a mesma Célia que eu conhecera, distante, despregada?
“Mas estou triste.” Ele não te corresponde? Só te quer para inflamar o corpo? Deseja-te somente para a volúpia?
“Não, não é isso. É um amor que corrói. É demasiado angustiante não o ter sempre perto de mim. Tenho uma enorme sede de viver as coisas com ele”.
Um nó encravou-se-me na garganta. Fui ver as mensagens em arquivo.
Como foi possível não ter percebido logo quem é a nova paixão de Célia…?!

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CÉLIA -27-

20 de Julho de 2004

“De que lado da cama dormes?”. Achei aquilo um perfeito disparate. Áquela hora tardia, uma mensagem sem conteúdo, sem sentido.
Não tinha disponibilidade para lhe contar como se ocupa todo o leito. Quando já nada nos impede de ser dono daquele território. Que aquele espaço só é invadido quando apetece que alguém se transforme em invasor.
“Estás a demorar a resposta”. Incomodado, gritei-lhe em maiúsculas que os livros já ocupam ambas as mesas. Que aquela não tinha resposta.
“Que pena a tua cama só ter um lado”! Silenciei o telefone, desliguei a luz e virei-me para o lado. Não consegui dormir. Percebi então que não consigo sonhar nos dois lados da cama.

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