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Célia #55

28 de Julho de 2008

Senti a minha hesitação como longa demais. Tudo o que há momentos encarava como certezas, estavam agora dependentes de uma porta que, sabia-o, eu teimava em não querer abrir. Tinha a clara certeza do que viria atrás do meu simples gesto de escancarar uma porta, aquela que pensei ser o cadeado do meu refúgio.
Foi um longo tempo de indecisão.
Do lado de lá já não estaria agora a Célia que me dissera Porque sei que é a ti que amo! mas uma mulher à procura de feridas sem cuidar de sarar as que ainda a faziam sofrer.
Revisitei, no espaço entre o hall e o quarto, de forma fulminante, os detalhes de uma ligação que, ambos sabíamos, não sobreviveria a portas longamente encerradas.
Mariana sorriu, quando me viu ignorar a mensagem que chegara, mas desconhecia que ali estava o que eu mais temia: “Estou no quarto 1302!

Célia -54-

24 de Junho de 2008

Não lhe fiz a vontade. Sabia que aos primeiros acordes, fosse qual fosse a melodia, Mariana não deixaria de me lançar um tentador gesto. E eu queria, naquele momento, mais do que resistir, dissolver todas as intenções, estava decidido em colocar um ponto final no tormento de me repartir em emoções. Procurava qualquer coisa que me ajudasse a não naufragar naquela ocasião, peguei num livro que estava em cima da mesa da sala, folheei-o sem o olhar, ouço Mariana resgatar-me com um “nenhuma das palavras que vais ler te arrancará da solidão em que teimas afundar-te” e pareceu-me que a razão estava ali ao meu lado. Eu não lhe poderia perguntar “vou ou fico?“, pois sabia que a permanência naquele espaço seria o fim.
Mas não era desse fim que eu andava, nos tempos mais recentes, à procura?
Não, tu não queres terminar dessa forma” e ainda a ouvi sussurrar qualquer coisa como “apaga essa página antes que ela te apague a ti“, mas já não a escutei quando a vi levantar-se, ajustar o vestido, compor o cabelo e dirigir-se para a porta da sala.
Desta vez sou eu que te espero no quarto“.
A campainha da porta fez-me despertar do súbito sonho em que me ia lançar.

CÉLIA -53-

15 de Agosto de 2007

Não estás a precisar de te olhares? Não chegaste já ao ponto onde não querias?”
Mariana tinha o saber de se substituir a Célia sempre que via nos meus olhos uma agitação de questões.
Sento-me e vejo-me cansado mas agitado. Vou à cozinha, encho um copo com gelo, regresso à sala, pego numa garrafa de nem sei o quê e emborco-a para dentro do copo.
Queres regressar à porta do cemitério onde já estiveste?”
Como uma flecha, aquela frase atingiu-me. Fez-me despertar e recordar um fosso terrível. Não, não era aquele o meu caminho. Abandono a ideia de beber e volto a sentar-me. Olho em redor e vejo as paredes pejadas de imagens e momentos. Cada moldura tem dentro de si uma história, às vezes só de uns breves momentos. São fotografias a preto e branco que revelam corpos e emoções. Sinto-me bem a olhar para elas.
Para quê essa necessidade de flagelar a tua memória? Não contes comigo”.
Olhei para Mariana. Vi que estava a ser sincera. Subitamente esqueci as últimas horas e vejo-me a perguntar-lhe se quer tomar alguma coisa.
Preferia que me perguntasses que música quero ouvir”.

CÉLIA - 52-

9 de Agosto de 2007

Decido-me por ir a pé. A distância não era muita e ir de carro não me transmitia segurança. E aquele era um momento decisivo nesta geometria de relações encadeadas em mal entendidos e sufocantes dúvidas. Subo a avenida como se o fizesse pela milésima vez, em passo decidido. Hesito entre o cigarro e ligar o telemóvel, e foi neste momento de hesitação que me senti quebrar.
Afinal que iria eu dizer a quem colocava os sentimentos humanos ao nível do esgoto? Que necessidade tinha eu de estar a refazer uma das pontas deste triângulo com quatro peças?
Uma dúvida maior assolou-me no momento: e se Célia tivesse fraquejado no minuto em que saiu de minha casa?
Não, essa hipótese afastei-a de imediato, por me transportar o pensamento para cenários muito escuros.
Decido-me por ligar o telemóvel na busca de caminhos, enquanto afrouxo o andamento.
Percebi que o ímpeto inicial se poderia transformar em algo irreversível.
Sento-me no banco da praceta para ler a mensagem. Olho à minha volta à procura de Célia. Vejo-a encostada mais à frente junto ao muro de escola. Fujo para ela, que me abraça:
conheço-te! sabia que a tua primeira vontade seria esta. ainda bem que desististe”.
Pego-lhe na mão, para regressarmos. Caminhamos em silêncio porque sabíamos que as palavras soariam emocionadas e ruidosas. À porta de casa vejo-a pegar na chave do carro. Convido-a, quase em súplica, para que suba. “Não, João. Agora estou a precisar de me olhar, de ver o que está dentro de mim. Porque sei que é a ti que amo!”.
Ao entrar, a casa pareceu esmagar-me. Mariana havia voltado ao ponto de partida.

CÉLIA -51-

13 de Junho de 2007

Saí de casa. Estacionado à porta, o carro vazio de Célia. Procurei-a.
Exausto e desanimado deixei-me ficar dentro do meu carro. A mensagem de Célia trouxe-me alguma esperança: “Sabes onde me encontrar!”.
Disfarcei que sim.
Percorri o parque, como outrora, olhei para um horizonte que me parecia distante, senti um arrepio. Regresso ao ponto de partida, em busca de pistas. Aterrorizava-me o pensamento de um desfecho brutal, insinuado, demasiadas vezes induzido. Quero um cigarro que me acalme, como se eu não soubesse que ele me iria trazer mais ansiedade. Hesito em responder-lhe “Onde estás afinal?” pois isso seria entregá-la ao tormento das dúvidas e ficar também eu suspenso por uma resposta que poderia não mais chegar.
Por mim passam as imagens dos episódios mais recentes. As vozes que ouço e as que imagino. E chego ao princípio de tudo. Tomo a decisão que quero seja a última. Quero certificar-me de que tudo não acabou tal como começou.
E vou onde sempre pensei não dever ir.
Estranhamente, desligo o telemóvel.

CÉLIA -50-

8 de Agosto de 2005

Não segui atrás dela. Desejava que se acalmasse. Afinal aquele teria sido um princípio de noite demasiadamente agitado e confuso e que certamente lhe terá trazido mais dúvidas que certezas. O seu encontro com o homem com quem terminara uma relação que parecia sólida, o julgar que ele logo de seguida se iria encontrar com Mariana e por fim encarar com esta em minha casa, tudo isto podia levá-la a um abismo. Mas agora teria que ser Célia a tentar resolvê-lo. Encontrar em si explicações para tudo o que sucedera. Ela teria que perceber que entre mim e Mariana nada restava. Pelo menos eu sabia-me indisponível. Mas saberia Célia quais as minhas intenções? O que lhe terá passado pela cabeça ao ver Mariana em minha casa? Perceberia ela que tipo de relações existia nesta geometria de quatro pessoas?
O aviso de mensagem despertou-me destas questões:
Não foi isto que quis para nós. Bastaram-me as traições de outros homens, os fracassos de outras relações. Afinal sou eu que estou a mais”.
Hesitei longamente numa resposta. Poucas coisas teria que explicar. Conhecia-lhe os impulsos para forçar saídas que não a beliscassem. Porém, ali estava Célia enfraquecida, desanimada, culpando-se, desistindo. Esta não era Célia. Tentei equacionar o que teriam dito um ao outro. Ele tê-la ia forçado a tomar alguma atitude? Esta reacção teria sido desencadeada pelo retomar da relação? Poderia eu exigir explicações?
A noite estava ensombrada de dúvidas e questões.
Quando me preparava para sair de casa a mensagem de Mariana confundiu-me ainda mais: “Ela terminou! Ele disfarça que terminou! E tu?”.
Saí de casa. Estacionado à porta, o carro vazio de Célia. Procurei-a.
Exausto e desanimado deixei-me ficar dentro do meu carro. A mensagem de Célia trouxe-me alguma esperança: “Sabes onde me encontrar!”.
Disfarcei que sim.

Célia -49-

12 de Abril de 2005

Célia avisou-me que aquele encontro seria só para que não restassem ódios e rancores na relação que agora terminara. Sempre a vi como uma mulher decidida, sem hesitações, determinada, pelo que aquele encontro me pareceu uma pura perda de tempo, ou, e isso eu não queria admitir, uma tentativa para não encerrar mais um capítulo da sua vida. Pelo menos ela não quereria que a relação terminasse de forma violenta. Não equacionei que se tratasse de um retrocesso.
Durante as horas em que Célia se manteve ausente, decidi-me a rasgar atalhos e contactos do meu passado recente. A mim apetecia-me terminar o livro. Mais do que concluir um capítulo. Sabia que Mariana não desistiria de se assumir como mais uma peça nesta relação inicialmente triangular. Tinha a certeza que ela regressaria.
Quando deparei com o seu número, hesitei. Esquecer, ignorar, apagar? Ou deixar ficar?
Inexplicavelmente, liguei-lhe. Mariana pareceu-me agitada. Percebi que estivera a chorar.
É também por ti. Posso ir a tua casa? Agora?
Fiquei quase sem resposta. O que diria Célia, que prometera voltar directamente para o meu apartamento, se visse ali Mariana? Sem que eu a avisasse antes?
Vi o carro de Célia à porta da casa dele” – disse-me, com um ar de quem lamentava a traição de que eu estaria a ser vítima.
Não tive tempo para explicar o que se estava a passar. Célia meteu a chave à porta, entrou, e olhando para Mariana ainda disse: “Pensei que era contigo que ele se ia encontrar agora”, e saiu sem que eu conseguisse dizer uma única palavra.

Célia -48-

15 de Março de 2005

Foi com ternura que lhe olhei profundamente.
Sabia que Célia, naquele momento, precisava essencialmente de carinho, ternura e que as palavras fossem poucas. As minhas e as dela.
O rompimento, que assumira em privado, estava a causar-lhe problemas na redacção da revista onde trabalha. Intromissões vindas do exterior, mas que ela soube identificar, quase que lhe destruíam a carreira e a levavam ao abandono do periódico.
Não quis estar a pedir-lhe definições quanto ao futuro. Tinha receio que me questionasse sobre Mariana e tudo o que se passara nas últimas semanas.
Agora queríamos só tentar olhar-nos e compreender-nos. Sabíamos da fortaleza que teríamos que construir à nossa volta. Pensei, quando lho disse, que estaria a ajudá-la, mas Célia não perdeu tempo:
“ e tu estarás a reconstruir as tuas defesas?”.
Ela sabia e tinha permitido que me entregasse. Mas percebia também as reservas. Tentei desviar o assunto. Em vão. “Sem a tua segurança não conseguirei dar o passo seguinte”.
Questionei-me quantos seriam os passos seguintes. O que faltava para que os pesadelos e medos se diluíssem. Uma mensagem cai-lhe no telefone. Levanta os olhos, onde vejo uma tristeza que me atormentou, e diz-me: “É ele. Quer uma última conversa comigo”.
De repente vi, como num filme que nunca mais termina, imagens das primeiras hesitações.
Nessa noite quis ficar só. Entreguei-me a escrever. Ignorei as mensagens de Mariana. Fechei mais esta porta.

Célia -47-

4 de Fevereiro de 2005

Mariana, como lhe era hábito, descalçou os sapatos e atirou-se para cima do sofá.
Vinha com uma saia preta curta, que lhe assentava na perfeição sobre as meias pretas.
Para que me convidaste para um café e tens a mesa cheia de chocolates?”.
Lancei-lhe ingenuamente um sorriso como que a pedir desculpas. Ela sabia que o chocolate era a minha iguaria preferida. E que só partilhava em ocasiões especiais.
Queres saber de Célia?”, não esteve com meias medidas, rematando “ela sabe bem o que quer. Não te preocupes”.
Senti-me invadido nos meus pensamentos quando me lança, em tom provocatório “E nós, João?”.
Aquele não seria propriamente o momento para falar. Nem de Célia, nem de nós os dois.
Percebi que entre ambos havia qualquer coisa a resolver. Não me apetecia saber como se sentia enquanto amante do companheiro de uma das suas maiores amigas. Mariana adivinhou-me os pensamentos: “Ele é mais um passageiro. Que entrou e sabe que vai sair. Não sei até quando, mas ele será só um passageiro”.
Tentei perceber a intensidade dos seus sentimentos. Não me deixou raciocinar um segundo, “tal como eu sou para ti”, beijando-me sem que me desse tempo de concordar com ela.
Nessa noite soube o quanto amávamos Célia.

Célia -46-

1 de Fevereiro de 2005

Cancelei o meu voo. E pouco me interessa o que ele vai fazer”.
Assim, a frio, muito mais cedo do que esperava, Célia começa a desmanchar uma relação que parecia, aos olhos de todos, sólida e duradoira.
Sem saber o que lhe dizer, pois tantas já haviam sido as palavras de esperança, equacionei o que poderia vir a seguir. Este rompimento não se tornaria fácil. Os vértices das relações dificilmente seriam demolidos. A permanente presença, quase asfixiante, do seu companheiro diplomata, a sua relação com Mariana e desta com aquele, a visibilidade que adoptara no meio e a súbita forma como se aproximara de mim, tudo isto se iria tornar num sombrio pesadelo para Célia.
Imaginei que as forças lhe voltassem a faltar, que mais uma vez iria tentar uma fuga para o abismo. Tinha a certeza que esta seria a última oportunidade que se estava a oferecer. Um fracasso poderia ser fatal.
“Se quiseres saio da tua vida para poderes respirar sem a minha presença”, mandei-lhe a mensagem, numa tentativa de lhe dar espaço para avaliar os caminhos que escolhera. Hesitei em ligar a Mariana que, mais perto, poderia saber melhor o estado de Célia. Eu temia o pior e naquele momento não sabia se o pior era mesmo o seu abandono, aceitar esquecer-me, o seu regresso ao companheiro ou se uma fraqueza demolidora a levaria a cometer a loucura.
Senti-me egoísta a pensar que Célia seria incapaz de tomar as decisões certas para ela.
Estava unicamente a pensar em mim e no que seria mais fácil para que, o que me viesse a surgir, não fosse surpresa. Pensei na minha felicidade e, talvez por isso, arrisquei em dizer-lhe por mensagem “espero o tempo que for preciso e como for preciso. Preciso de ti livre”.
Desconheço que razões me levaram a mandar uma mensagem a Mariana a convidá-la para um café. Tive uma súbita sensação de infidelidade, mas a verdade é que me apeteceu estar com Mariana. Ela aceitou, e pela rapidez da resposta, não duvidei das suas intenções.

Célia -45-

21 de Dezembro de 2004

Mariana sentou-se à minha frente. Os seus olhos traziam um traço diferente. Vem seduzir-me, pensei eu. Durante o jantar pouco falámos do que interessava. Meia dúzia de expressões pouco importantes, sobre assuntos ainda mais desinteressantes.
Não sei o que me levou a convidá-la para jantar, num dia em que havia tomado decisões e em que Célia escolhera o caminho do que ela julgou ser o da felicidade.
No fim do jantar convidei-a para minha casa. Precisava que ela me contasse mais do mundo que agora rodeava Célia. Não lhe quis dizer que estivéramos ambos a conversar e que estavam desenhados os nossos rumos. Isso poderia inibi-la de me revelar qualquer coisa que estivesse ainda na penumbra.
Assim que se sentou no carro disse-me: “Ela não vai ficar com ele. É a ti que ama e não lhe passa pela cabeça viver sem ti”! Isto confirmava o que Célia me dissera há poucas horas. Fiquei, porém, espantado, sem fala, quando Mariana confessa “eu tenho uma ligação muito forte com o seu companheiro. Ele tem-se insistentemente declarado apaixonado mas incapaz de o dizer a Célia”. Afinal quantos vértices teriam as nossas vidas? Como poderia eu transmitir a Célia a traição da sua maior amiga.
Mariana leu-me os pensamentos “não precisas de lhe contar. Célia é inteligente e sabe que o seu companheiro lhe é infiel”. Mas saberia ela que Mariana se preparava para ocupar o seu lugar?
Olha, João, as nossas vidas dão voltas muito grandes. Onde pensavas existir o teu amor por Célia há vértices que se vão desfazendo para depois outros reaparecerem”.
Pensei no enigma que Mariana acabara de me dizer. Incompreensível, vindo da sua boca. Um pouco sem saber o que dizer, é Mariana que completa o monólogo em jeito de conselho: “Olha, vive hoje à noite a tua Lua Cheia. Não é ela que te dá mais nitidez às ideias?”.
Seria de facto uma noite diferente.
Esta noite é só nossa. A primeira de muitas outras. Amo-te muito. Olha para a Lua e sonha. Vamos em breve concretizar os nossos sonhos. Sente a magia no ar”.
Não fosse esta mensagem de Célia e a noite teria sido mais uma noite.

Célia -44-

25 de Novembro de 2004

Sentei-me no carro, desta vez decidido. Não poderia adiar por mais tempo uma conversa que teimava em não surgir. Quando, naquela noite, depois da súbita visita de Mariana, e já muito depois da sua saída, liguei o telefone, reparei que Célia havia tentado chamar-me uma dezena de vezes. Estranhamente não me deixara nenhuma mensagem nem nada para que eu pudesse perceber aquela ânsia.
Há alguns dias trocámos algumas palavras, curtas, pois as suas mais recentes decisões haviam-lhe cortado a liberdade. Agora sentia-se refém de si própria. Sabia que todos os seus passos estavam a ser seguidos e que o próprio telemóvel era sujeito a inspecção. Numa das mais recentes missivas dizia-me que não amava o homem com quem escolhera viver. Mas que não tinha outra alternativa se não continuar a seu lado e a acompanhá-lo em mais esta missão no estrangeiro. Seria a última do diplomata e, para ela, provavelmente, também um ponto final na felicidade que procurava. Deu-me a entender que seria quase impossível voltarmos a conversar longamente e os contactos telefónicos tornar-se-iam raros. Talvez uma carta ou outra, mas mesmo essas ela tinha receio que fossem interceptadas. O diplomata era pessoa influente e ela, com os seus medos e, não tenho dúvidas, inseguranças, sentia-se espiada por toda a parte.
Antes de sair, hesitei em dar-lhe um toque para o telemóvel. Tinha consciência que esse era um risco demasiado grande. Tentaria vê-la, ao longe, e quando a soubesse livre, ligar-lhe-ia para lhe dizer que estava ali, bem perto, e pedir-lhe-ia uma breve conversa.
Verifiquei se levava comigo a carta que lhe ia entregar. Não sabia se teria tempo disponível para lhe dizer que seguisse o seu caminho, pois que eu teria que seguir o meu. Sabia que aquelas seriam palavras duras, para ambos, mas eu não poderia continuar a viver numa correria desenfreada para o abismo. E se ela já tinha visitado as profundezas da depressão e de uma tentativa de suicídio, eu não me podia permitir acompanhá-la nessa viagem.
Quando ponho o carro em marcha, para percorrer as centenas de quilómetros até à capital, e sem saber sequer se a conseguiria ver, toca o telemóvel e vejo que é Célia:
Estou aqui perto de ti. Vai ter comigo ao Parque. Tenho pouco tempo.”
Não me deu tempo para responder.
Segui a toda a pressa para o sítio combinado e, meio perdido, procurei-a.
Ao vê-la, naquela manhã de céu cinzento e nuvens carregadas, mas por onde o Sol ainda conseguia romper, senti que tudo o que lhe queria dizer não fazia sentido.
Só tenho meia hora”.
Foi o tempo suficiente para decidirmos os nossos futuros.
Li-lhe a carta. A seguir rasguei-a e entreguei-lha num sinal de perdão.
Guardou os pedaços daquela escrita e, naquele momento, soubemos ambos compreender o significado deste gesto.
Nessa noite convidei Mariana para um jantar.