Jun 01 2021

Beja, boatos e imigrantes

Publicado por as 14:04 em A minha cidade

A cidade de Beja acordou há dias com vários testemunhos e relatos de alegadas tentativas de assaltos, abusos sexuais, perseguições supostamente levadas a cabo pela comunidade imigrante.
Tem sido uma constante nos últimos tempos este tipo de relatos, o que não é necessariamente correlato de veracidade, pelo que a ESTAR quis saber, junto das autoridades, o que verdadeiramente acontecia, designadamente se haviam sido apresentadas queixas. Concomitantemente, demonstrámo-nos disponíveis para colaborar em tudo o que as autoridades entendessem necessário. Há já um ano que trabalhamos direta e diariamente com a comunidade imigrante. Através do projeto Marmita, temo-la conhecido, apoiado e sensibilizado para as nossas tradições, sem nunca desrespeitar as dos seus países de origem, dado que todo o ser humano tem direito inexorável à sua cultura, desde que esta, obviamente, não viole a lei da do país acolhedor.A Associação ESTAR logo teve conhecimento de que todas as acusações eram infundadas e não se baseavam no apuramento de quaisquer factos, logo se demonstrando profundamente preocupada com um grupo criado no Facebook que vinha ganhando alguma força e que partilhava os alegados ataques, reunindo inúmeras publicações e comentários de cariz xenófobo. Para alémde termos procedido à capturas de ecrã, na eventualidade de as ditas publicações serem apagadas, logo tratámos de denunciar os seus conteúdos, bem como os comentários a que deram origem, identificando cada um, antes de mais para memória futura.Jamais esqueceremos o que se passou nesta última semana onde estava inclusivamente programada uma manifestação, em que se pretendia gritar nas ruas por mais segurança e onde se traçava um percurso que passaria pelas residências de muitos dos imigrantes falsamente acusados. Reforçamos o falsamente acusados uma vez que não foi, formalmente, apresentada qualquer queixa na PSP.
A Associação ESTAR repudia sem reservas e em absoluto este tipo de ações e acusações e pugnará, como tem feito desde sempre, pela defesa da igualdade e pela garantia de melhores condições de vida para todos aqueles que nos procuram.Mais informamos que somos um país de acolhimento de refugiados e que em breve a cidade de Beja irá acolher duas famílias que procuraram o melhor para os seus, fugindo da guerra, atravessando o Mediterrâneo em botes de borracha, com filhos nos braços, sem mais do que esperança de acabar a jornada todos vivos, em terra firme — terra firme essa que consistiu primeiramente em campos de refugiados e muito em breve será Beja, com a Associação ESTAR.
Todos os dias nos orgulhamos do nosso trabalho e, por vezes, a nossa cidade não corresponde; não obstante, estamos preparadas, para que, ainda que seja no porta a porta, explicar a cada bejense que há atitudes inaceitáveis no século XXI e que todas elas têm consequências. Sabemos também que foi perdida uma oportunidade relevante para discutir de forma séria a violência sexual, a partir do momento em que usaram os imigrantes como bodes expiatórios.
Não esqueceremos igualmente que o grupo de Facebook que nasceu para causar este alarme social era dirigido e composto por pessoas que considerávamos esclarecidas, que têm profissões de responsabilidade na educação das nossas crianças e jovens; dele constavam comentários abonatórios de pessoas com responsabilidades em instituições respeitáveis e despeitadas da nossa cidade. Não olvidaremos também que este alarme levou a que alguns senhorios quisessem desalojar os inquilinos imigrantes: não bastando já as condições em que vivem e trabalham, iriam ainda para a rua com tudo o que isso acarreta. Todos os atos têm consequências e esta situação não terminou quando o grupo foi eliminado. O pensamento existe, as pessoas são reais. E nós, ainda incrédulas, sugerimos a todos que vejam e assistam com olhos de ver e sentir, a série que começou ontem na RTP, onde estão relatos, na primeira pessoa, de imigrantes que vivem entre nós. Olhar e ver não é para todos, mas nós cá estamos e estaremos para ajudar, ao menos para elucidar e denunciar com provas quando os indícios são de crime. Venha ele de onde vier.
A todos aqueles que têm receio de procurar as autoridades, estamos cá para ajudar.A todos aqueles que precisam de ajuda para melhor compreender o que se passa à sua volta, também estamos cá.
Só uma última nota, se as crianças e jovens estão assustados com tudo o que se tem passado é imperioso que se faça uma avaliação do que verdadeiramente está na origem desse medo. Que se elucidem com quem realmente sabe o que se passa e com a realidade.

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4 Resposta a “Beja, boatos e imigrantes”

  1. Mais Beja diz:

    👏👏👏

  2. diz:

    Espinho, mais uma vez é chamada aqui a atenção a problemas relacionados com os imigrantes, e mais uma vez ninguém comenta nada.

    Já tenho vindo aqui discordar de algumas das suas opiniões quando acho que são injustas, mas agora é altura de lhe agradecer a visibilidade que dá aos problemas dos imigrantes, lá terá as suas razões para isso mas não é isso que interessa.

    O que interessa é que ao levantarmos estes assuntos, porque os julgamos importantes, mais do que as tricas politicas, estamos à frente daqueles que se dizem paladinos dos trabalhadores e dos outros beatos que afinal são os primeiros a apontar o dedo.

    Aquela frase que muitos rejeitam não podia estar mais certa neste caso, “não vale tudo”.
    E o mais preocupante é que se tem revelado um modo de atuar consertado, comum a outras regiões e até mesmos outros países, espalhar mentiras metodicamente de modo a provocar alarme social, insegurança, revolta e, por fim, retirar dividendos politicos.

    Quem está disposto a assumir responsabilidades politicas tem de estar atento e na linha da frente.
    Era por isso importante que os candidatos dissessem algo.
    O actual presidente tem de mostrar a sua preocupação, dar informações que descansem as populações e divulgar o que está a ser feito.
    Os outros candidatos também têm de se manifestar, o candidato da CDU, como grandes defensores da classe trabalhadora, julgo que dos trabalhadores imigrantes também, tem de divulgar as suas propostas para a melhoria das condições gerais dos mesmos.

    Por fim o candidato do PSD tem de esclarecer, e bem, qual a sua postura face á carta publica da JSD dirigida ao presidenta da câmara, em que são levantados um conjunto de problemas sem nenhum fundamento.
    Este esclarecimento é de extrema importância pois marca um tipo de atuação e discurso que convém identificar com antecedência.

  3. João Espinho diz:

    @zé – “a visibilidade que dá aos problemas dos imigrantes, lá terá as suas razões para isso” . É uma questão cultural. Para além disso, durante alguns anos, vivi em cidades multiculturais, com vizinhos das mais diversas raças e religiões. E vivemos de acordo com as regras de cada um, sem atropelos.

  4. António Raposo diz:

    Boa noite, amigo espinho.

    Onde à fumo à fogo.., ainda esta semana um amigo meu, comentando disse.. no outro dia tive que atravessar cidade para ir da rua de lisboa ao estacionamento da Ovibeja. palavras dele.. tive medo.. e ate trouxe uma faca simpática ..só encontrei bue de quantidade de imigrantes. Se ele teve receio, naturalmente terá que ter mais receio pelas suas filhas..

    Fazendo minhas as suas palavras…” E vivemos de acordo com as regras de cada um, sem atropelos…”, vamos esperar que assim seja… Não esquecendo, que esta malta, vai enfrentar muitos problemas, sociais, familiares, económicos, efetivos e outros…

    Ainda no ultimo fim de semana, tive um contacto com um casalinho de Moldavos, que me abordaram para lavar a roupa numa maquina de lavar de rua, Não sabiam uma única palavra em português, espanhol, inglês.. Estes talvez deveriam alguma ajuda…

    Perto da minha residência, verifico, constantes entregas de cx de alimentos, entregues por chiques da nossa cidade em brutos bolides , ate se empatam (fazem filas) umas às outras. Neste caso concreto é uma família, que tem condições para pagar um apartamento igual eu meu, tem dois carros, tem mais filhos que eu. Porque apesar de querer ter mais mais tive que ponderar se tinha condições económicas para os criar. Hoje sabendo o que sei estou arrependido, bastava ter o estatuto desta malta e em vez de… chega..É apenas um desabafo.
    Já agora , aproveitando o tema do voluntariado, ainda não vi qualquer comentário à ultima polemica da cidade …

    cumprimentos
    Um tipo farto de hipocrisias e hipócritas

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