Ago 11 2020

Reguengos de Monsaraz – Um filme de terror

Publicado por as 11:46 em COVID19

Transcrevo do “Expresso”:

As mortes por covid em Portugal têm sido pouco mais do que um número. Não têm nome, não têm rosto e, tirando a região e o intervalo etário, quase nada se sabe sobre quem eram ou as circunstâncias em que partiram. Mas das 1579 vítimas registadas até ontem há, no entanto, 16 que agora sabemos como morreram. E não foi do vírus. Foi de abandono. No lar de Reguengos de Monsaraz, onde um surto iniciado em junho contagiou 80 idosos e 26 profissionais, não tiveram quem lhes desse os medicamentos ou sequer quem lhes matasse a sede. A maioria morreu de desidratação e por descompensação das doenças crónicas de que já sofriam, segundo as conclusões do inquérito conduzido pela Ordem dos Médicos (OM).

O relatório, divulgado sexta-feira, mostra que falhou quase tudo. O lar não tinha condições para cumprir as orientações mais básicas da Direção-Geral da Saúde (DGS), como o isolamento dos infetados ou o distanciamento dos casos suspeitos, o que fez disseminar o vírus como fogo num palheiro. Muitos funcionários, que já antes eram poucos, foram contagiados e mandados para casa, sem haver quem os substituísse. Em consequência, “vários doentes estiveram alguns dias sem as terapêuticas habituais, por falta de quem as preparasse ou administrasse”. Mais: “deixaram de ter alguém com tempo para lhes dar água e alimentar“, denunciou este fim de semana em entrevista ao Expresso a coordenadora da comissão de inquérito da OM.

Totalmente dependentes, frágeis e doentes, foram mantidos em “circunstâncias penosas“. Duas semanas depois do início do surto, e numa altura em que já havia oito mortes, os idosos infetados foram transferidos para um pavilhão, “que não tinha condições para ser sequer um hospital de campanha”. A auditoria da Ordem culpa não apenas os responsáveis do lar, gerido por uma fundação a cujo conselho de administração pertence o presidente da câmara, mas também a autoridade de saúde e a Administração Regional de Saúde do Alentejo. Em última análise, a própria DGS, a quem o bastonário apela a que “controle mais de perto estas situações que envolvem lares”.

O caso, que devia envergonhar o país, está agora a ser investigado pelo Ministério Público. Apesar da extrema gravidade do que aconteceu, poucas foram as vozes que se ouviram. “[Os idosos] Morreram porque foram abandonados à sua sorte. O que se seguiu? Gritos histéricos nas redes sociais? Não. Gritos histéricos dos partidos da oposição? Não. Palavras de conforto de Marcelo Rebelo de Sousa? Não. Mensagem grave, em direto para o telejornal das 20h, da Ministra da Saúde, da diretora-geral da Saúde ou da ministra do Trabalho e da Segurança Social? Não. Admito que me possa ter falhado alguma notícia, mas de facto não assisti a nenhuma comoção nacional”, espantou-se ontem no Expresso Luís Aguiar-Conraria.

O que aconteceu em Reguengos de Monsaraz é “um filme de terror”, que configura “um retrato brutal do falhanço do Estado português, do desinteresse pelos mais fracos, da cobardia dos responsáveis locais, da incúria dos responsáveis nacionais”.

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3 Resposta a “Reguengos de Monsaraz – Um filme de terror”

  1. olha a festa diz:

    “a cujo conselho de administração pertence o presidente da câmara”. Não. O presidente da câmara é o presidente da instituição. E portanto, é o primeiro responsável pela instituição. Não percebo, ou percebo, porque é que existe um manto de silencio generalizado em torno desta questão. Será porque o homem está escalado para ser o candidato do PS à câmara de Évora?

  2. Revoltado diz:

    Demissão é pouco. Do Calixto, do Robalo, da Graça, da Marta. E de mais alguns ainda. Mas isso era numa democracia a sério. Mas como estamos em Portugal, vai tudo ficar bem. E impunes os culpados. E se calhar o autarca ainda vai ser nomeado para algum cargo ou candidato em 2021.Que tristeza de país.

  3. Serodio J. diz:

    Há muito tempo que se conhecem os problemas destas instituições (um pouco por toda a parte)- falta de recursos técnicos, carências ao nível do pessoal assistente, de enfermagem, sobrelotação dos lares, má gestão, etc, etc…
    Este acontecimento só veio pôr a nu essa realidade, que existe em grande escala, com a conivência dos serviços de segurança social, das autarquias, dos familiares dos utentes, da população em geral!…A desgraça do País vem ao de cima nos momentos de crise e de aflição, como é o caso!…na questão dos incêndios, a mesma coisa todos os anos!…Triste País este em que vivemos!
    Assim como é lamentável, que a indignação geral, surja apenas nos piores momentos, quando diariamente há gente que faz das tripas coração, para cuidar dos outros!

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