Mar 10 2019

Beja

Publicado por as 21:23 em A minha cidade

As palavras, o desabafo, de uma amiga que reencontrei. E revejo-me no que escreve:

“Voltar à minha terra é uma viagem aos sons e sabores do passado, trazer para o presente uma cidade mais antiga do que Portugal não resulta, não é a mesma cidade, a vida escoou-se do que antes era centro e agora faz-se em formato donut, circular como num carrossel.
Nem o sol que ilumina traz mais vida, um dia lindo e vivido e as ruas são habitadas por casas sem gente, descascadas e esfareladas, lojas a desfalecer em ruinas, algumas agonizando antes da derrocada final em pouco convincentes tentativas de “vende-se” nas placas desbotadas de imobiliárias desconhecidas naquelas paragens.

O que sobrevive está cuidado e branco, o alentejano sempre gostou do branco das casas, conjuga-se com a luz azul desta manhã gloriosa, sabe bem estar aqui e apreciar esta paz esquecendo a decadência do abandono, é difícil para quem por cá nasceu e cresceu, quem conheceu a vida não se conforma com as ruínas.

Uns turistas vagueiam perdidos, pouco há para ver ou fazer porque, sabe-se lá porque decisão inábil, tudo fecha ao fim-de-semana e até encontrar um restaurante para acalmar o palato é uma busca na planície, dificilmente estes turistas voltarão e dificilmente se entenderá a falta de iniciativas de Direcções de Turismos Regionais e afins.

Cheira a azeite, é assim desde que o olival escorraçou o trigo, agora há formações em parada de oliveiras todas do mesmo tamanho, procuro o ondular das searas salpicadas de papoilas e não encontro, as papoilas concentram-se em linha nas bermas do olival, há que respeitar as formações.

Estrada da Salvada, está no mesmo sítio e foi a ambição máxima de viagem em horizontes curtos, como se tem um horizonte curto na imensa planície, sei lá, a animação hoje está na Cabeça Gorda (um dia hei-de descobrir a origem do nome da aldeia ), silarcas, workshops, tendinhas, uns cogumelos selvagens deliciosos, não me atrevo a comprar por receio de não os saber tratar, betinha de cidade habituada a compra-los lavadinhos e alinhados, que faço eu com estes tão mais genuínos?
Rendo-me a quem os cozinha com arte, delicia, provamos quase todos os pratos, quem diria que havia tantas maneiras de silarcar e tantos que sabem como tirar o melhor do que a terra deu? Cozinhar é cada vez mais uma arte, até com silarcas.

Cheira a orégãos, pudera, tinha comprado uns ramos numa das tendinhas e esqueci no fundo da mala, levarei de volta o cheiro dos temperos e a memória dos sabores e no meio disto tudo, o mais importante e que realmente me move, é a companhia de bons amigos e lá vamos todos além da estrada da Salvada.”
Ana Nobre Rebelo Gonçalves

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