Ago 19 2018

Leitura obrigatória

Publicado por as 16:57 em A minha cidade

Editorial

Miando pouco,
arranhando sempre
e não temendo nunca

Texto Paulo Barriga

O político comum é como o comum dos gatos. Usa de várias vidas, sabe esgueirar-se e tem a tal agilidade que o faz cair de pé. Quase sempre. Nos últimos tempos, a nível local, tem sido possível observar algumas dessas façanhas. Umas mais ou menos aparatosas. Outras mais ou menos encenadas. Quando a maior empresa de transportes terrestres a operar no País, a Comboios de Portugal, que por mero acaso ainda é pública, deixa apeados no meio do nada, em pleno estio alentejano, os passageiros de uma automotora decrépita, há uma janela que se abre para a política felídea. Criada a ocasião, não sobrou partido pingado que não se atirasse, e bem, sobre o Governo exigindo a assunção de responsabilidades políticas pelo manifesto desinvestimento na ferrovia, redobrando apelos à eletrificação do “ramal” de Beja e ao aceleramento do processo de compra de novos comboios híbridos. Até o deputado socialista saltou em cima da CP, declarando “inaceitável” a atitude da empresa. Quando, na verdade, era à tutela, e mais em concreto às Finanças, que o parlamentar deveria ter pedido explicações pela cativação dos mais de 100 milhões de euros que estavam destinados aos transportes ferroviários e não à senhora que guarda a passagem de nível com a sua bandeirinha de pano. De qualquer das formas, é de bom-tom informar as pessoas que as reivindicações agora expressas de forma unânime (eletrificação da linha e novos comboios) não são materializáveis nos próximos anos e, quem sabe, na próxima década. Já as automotoras estão capazes de nem aguentar a próxima viagem. Pelo que a solução única para o imediato passará pelo aluguer de material circulante. Espanha tem-lo. Haja vontade de o contratar ou, pelo menos, de trocar umas ideias sobre o assunto. Que é o que mais se tem feito nos últimos tempos a propósito da construção de um aeroporto de apoio ao de Lisboa. O PS já o vê no Montijo, cujo concelho, nem por acaso, é socialista. O PCP empurra-o para o chamado campo de tiro de Alcochete que, nem por acaso, fica em Benavente, uma câmara CDU. O aeroporto de Beja, que seria a solução para o agora-mesmo-neste-instante, é aquela aberração que os bichanos da política defendem, mas de mansinho, e que vai ficar a pouco mais de duas dezenas de quilómetros da autoestrada que o Governo se prepara para inaugurar no meio do nada, embora com vista sobre a Lagoa dos Iroses, segundo informa o Google Maps. Se a política de transportes e infraestruturas deste país não é um saco de gatos, o que será, então?

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Uma Resposta a “Leitura obrigatória”

  1. Reinaldo Louro diz:

    Um texto com conteúdo de realidades, mas que qualquer um podia elaborar e dar opinião.
    É fácil narrar caricatas situações que já tem quase duas décadas, o difícil é influenciar decisões gorvenamentais prioritárias e em que o poder local independentemente da côr política não tem força política para o modificar, junto dos decisores.
    Os problemas existem e arrastam-se para o futuro ser pior que o presente e o passado, o que carece é de soluções, para quando se nem a própria ” geringonça ” de esquerda o consegue ?
    A esperança não se perde e mais vale tarde do que nunca.