Jul 18 2018

Deixar de ler

Publicado por as 16:15 em Geral

Tive uma relação de ódio/amor com “Os Maias”. De ódio, pois era uma obrigação chata, aborrecida, mas essencial para poder completar o antigo 7º ano. As páginas do livro sucediam-se, entediantes, obrigando-me a voltar para trás, continuava mas não progredia, aquilo não era um livro, era um sacrifício.
Não era pelo tamanho – parecia um livro grande – mas pela história que considerava desinteressante. Estava habituado a ler, já tinha lido livros grandes (ex. Guerra e Paz, Armagedão, etc.) mas “Os Maias” estavam a tornar-se um pesadelo.
Valeu-me, na altura, o Prof. Armando Madeira, que me ensinou a ler e a interpretar a obra. Preparou-me para o exame de 7º ano e, depois de umas férias agarrado ao livro, lá fui para o dito exame. Saí de lá com a nota de 16 valores. Fui aconselhado a pedir revisão de prova , para subir a nota, mas não o fiz. Queria encerrar o capítulo do 7º ano e não via vantagens em subir (no máximo) 1 ponto na nota. Realço que o exame de português foi sobre “Os Maias”.
Fiquei a gostar do livro, mas nunca mais pensei nele.
Anos mais tarde, já em meados da década de 1990, e quando estava na Alemanha, regressei a Eça de Queirós. Reli “Os Maias”, obviamente que com outros olhos, e o livro ficou-me marcado como sendo uma obra essencial da literatura portuguesa.
Mais recentemente, e para desenjoar de AAL (que andava a ler sofregamente), voltei a ler “Os Maias”. Tenho-o, contrariamente aos entendidos, como um grande livro.

Hoje, nas notícias, leio que “Os Maias deixam de ser de leitura obrigatória no secundário”.
Não sei qual é a racional, mas julgo que o objectivo seja que os nossos jovens deixem, simplesmente, de ler. Sim, um povo culto e letrado, é um povo perigoso. Para quê, então, obrigar os jovens a ler?.

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2 Resposta a “Deixar de ler”

  1. Ecce homo diz:

    Compreendo a sua exposição na essência. O problemas maior do programa nacional de leitura e dos currículos escolares, não passa tanto pela discussão das obras de leccionamento “obrigatório”, mas pela forma com a leitura é imposta!…A leitura não pode ser imposta, tem necessariamente de ser estimulada pelo sistema de ensino, educacional, social e familiar!…os jovens não são hoje motivados, por força dos padrões sociais da comunicação de massas, da sociedade tecnológica em que vivemos, etc… Da minha experiência pessoal e familiar, tenho como dado adquirido, que a promoção da leitura tem de acontecer em primeiro lugar no seio da estrutura familiar e educacional de base, na criação de hábitos que suscitem e apelem á descoberta, ao mistério, á aventura, à curiosidade e ao conhecimento – predicados da nossa própria existência, e cuja tarefa cabe a todos nós, na medida da nossa capacidade de interagir culturalmente com o meio envolvente!…

    “A cultura é o modo avançado de se estar no Mundo, ou seja a capacidade de se dialogar com ele”.
    \Vergílio Ferreira

  2. João Espinho diz:

    @ecce – inteiramente de acordo consigo. É verdade, os hábitos de leitura devem ter início no seio familiar. Mas sei de casos em que alguns elementos da prole rejeitam ou desprezam a leitura. Deverá ser aí que a escola pode ter um papel importante. Não sei se a obrigatoriedade vai servir de incentivo, mas “desobrigar” a leitura de algumas obras essenciais vai, seguramente, formar mais iletrados e, arrisco, mais analfabetos.
    E, já o disse várias vezes, é irrelevante se o jovem vai ter que ler a obra X do autor Y, mesmo que sejam veículos de dita “literatura popular”, o que é importante é que leiam. Digo eu, que já não tenho tempo para reler o que queria 🙂