Nov 02 2017

Alentejo, meu Alentejo

Publicado por as 17:07 em A minha cidade

Escreve Maria Helena Palma:

Alentejo, meu Alentejo …
“No rescaldo do programa Prós e Contras acerca do Alentejo, várias foram as emoções que senti, e vários os pensamentos que me assolaram. De louvar o tempo de antena que foi dado a uma região tradicionalmente esquecida, para relembrar aos poderes públicos que existe um território a sul de Lisboa, por onde velozes automóveis circulam para chegar ao Algarve, ou a Espanha. Grata ao Bruno Ferreira e ao Florival Baioa pela forma como defenderam a nossa “dama” chamada Beja.
Tendo por base a grande precocupação com a situação de seca actual, diferentes temas foram abordados pelos vários intervenientes, colocando o dedo na ferida, no que respeita ao despovoamento, à falta de condições de vida e desenvolvimento, de uma grande superfície do território alentejano, tendo mais uma vez ficado bem patente o desprezo e o alheamento a que os responsáveis governamentais votam um Alentejo que não gira em torno de Évora, e onde existem pessoas que por lá tentam construír as suas vidas, numa atitude perfeitamente estoicista.
Triste constatar que para o Governo, ou para quem o representa, o Alentejo se resume ao Alqueva, ao que em torno dele se tem feito, e que com um comportamento completamente autista e quiçá arrogante, afirma e proclama maravilhas, tendo a ousadia de referir que a auto-estrada chegou ao Alentejo que a linha ferroviária vai ter um enorme investimento, que um novo hospital vai ser construído, que grandes empresas se fixaram, mas … não afirmou em tempo algum que esses investimentos são apenas numa pequena parte do território alentejano: Évora. Triste também verificar que o debate, para o Sr.Ministro, não foi mais do que um discurso político, como melhor lhe conviu, fazendo a apologia do poder instalado, e obviamente, seguido no formato do discurso, por aqueles que a mesma cor têm vestida, e que não querendo crispação, apenas referiram também as “maravilhas” das suas regiões e dos seus interesses.
Não sou céptica quanto ao Alqueva, aliás reconheço a mais valia que foi para muitas regiões do Alentejo a sua construção, e toda a transformação que tem trazido, quer à paisagem, quer à economia alentejanas. A diversificação de culturas permitiu mudar o paradigma instalado durante várias décadas, e o regadio é sem sombra de dúvida uma aposta ganha. No entanto, sendo um investimento determinante para o Alentejo, e encontrando-se uma parte significativa deste investimento em território do Baixo Alentejo, como o Sr.Ministro referiu, não podem as respectivas populações ser votadas a um completo desprezo, porque o Estado já aqui investiu o que havia a investir …. enquanto, numa parcela do Alto Alentejo continua a investir, a desenvolver e a potenciar a instalação de indústria que irá contribuír para a fixação de pessoas, e fazer crescer a economia local. Num Alentejo que ocupa 31 551 km², não é justo que apenas se olhe para 7 393 km² do distrito de Évora, e se marginalizem 6 065 km² do distrito de Portalegre, e 10 229,05 km² do distrito de Beja, tão somente o maior distrito de Portugal, não esquecendo que os restantes 7.863,95 K2 pertencem aos distritos de Santarém e Setúbal. O Baixo Alentejo não se esgota no Alqueva. É muito mais do que isso. E o Alentejo não se esgota em Évora. É também muito mais do que isso. O distrito de Beja, tem tudo para ser um polo de desenvolvimento regional e nacional, bastando para tal, que exista real vontade política. Tem agricultura e algumas inerentes indústrias agro-alimentares, tem litoral com praias de grande qualidade, tem gastronomia, tem património histórico, tem uma cultura ímpar, tem gentes que querem trabalhar e empreender. Faltam condições para atraír investimento e fixar populações. Faltam infraestruturas de apoio fundamentais que possam potenciar o desenvolvimento do aeroporto, ainda que numa vertente de carga, de ensino, ou de desmantelamento. Falta investimento hoteleiro que só será realidade se os investidores virem forma de o rentabilizar. Falta um hospital com maior capacidade e melhores condições. Falta dinheiro a circular. Faltam tantas outras coisas que encadeiam umas nas outras, e que só com a economia regional a funcionar, poderão acontecer. E falta aquilo que vemos desaparecer cada vez mais, e que é o maior e o melhor capital de uma região: as pessoas.
Não é possível fixar populações quando não existem condições nem perspectivas de trabalho. Por isso, na região de Beja, são cada vez mais os jovens e os menos jovens que saem e não voltam. Espalhados pelo país, pelo mundo, os jovens do Baixo Alentejo, procuram oportunidades e constroem as suas vidas, muitas das vezes com o sentimento amargo de terem a sua região natal como madrasta. Ao falar-se de jovens empreendedores na região, é bom que se tenha a consciência de que os jovens empresários agrícolas existentes, na sua grande maioria, desenvolve explorações que já pertenciam às suas famílias, cujas estruturas estavam montadas, e que apenas dão continuidade àquilo que os seus pais e avós faziam, agora numa nova realidade de culturas e distribuição. Um jovem que queira iniciar actividade na agricultura de regadio, que não tenha património fundiário de família, muito dificilmente consegue levar avante o seu projecto, já que os valores de venda do hectare inflaccionaram de tal forma, que chegam a atingir 35.000 euros/ha, e existe ainda todo o restante investimento para efectuar, o que com recurso a financiamentos bancários, se torna perfeitamente inviável. Quando se fala de apoios, eles existem, mas se não forem bem analisados os requisitos e as obrigatoriedades, bem como um plano de exploração adequado e rigoroso, caír no caos é muito fácil. De facto, o regadio é excelente, tem um desempenho económico muito bom, mas apenas para quem já tinha património fundiário, ou para os grandes grupos que cada vez detêm mais hectares no Alentejo, ousando dizer que se num passado algo distante estávamos nas mãos de meia dúzia de famílias, agora arriscamo-nos a estar nas mãos de meia dúzia de grupos económicos.
Inerente a estas explorações agrícolas de grande dimensão, a evolução tecnológica que se impôs, com rega programada, vistoria das propriedades com drone, e todo um conjunto de medidas que se impõe para que os investimentos possam ter alta rentabilidade. A mão de obra permanente local é muito escassa, limitando-se na maior parte dos casos a alguns técnicos, e pessoal “todo o terreno”, que asseguram o dia a dia. Nas alturas de “pico” a mão de obra barata recrutada fora do país, povoa a região, para logo regressar aos locais de origem, e não acrescentando qualquer tipo de riqueza às localidades. São escassos os que permanecem e se radicam, com uma consequente integração na sociedade.
Preocupante, muito preocupante, a actual situação de Beja e do Baixo Alentejo. Uma região estagnada, cuja tendência descendente não vislumbra inversão, uma vez que os seus cerca de 23 400 habitantes do perímetro urbano, 35 854 habitante do concelho e 152 758 habitantes do Distrito, não são preocupação suficiente para o poder central, quando comparados com concelhos como por exemplo Amadora com 175 136 habitantes, Almada 174 030 habitantes, Sintra 381 728 habitantes, logo, mais eleitores e mais votos(dados retirados do Censos 2011).
Directamente relacionada com as pessoas está a habitação. Não sendo Beja uma região em expansão, a construção nova é praticamente nula, e apesar de a tão falada crise do imobiliário estar a ser ultrapassada nos grandes centros urbanos e no Algarve, a verdade é que em Beja o mercado está perfeitamente adormecido e sem crescimento. Foi recentemente publicado um artigo onde está bem patente a actual realidade do Alentejo face ao resto do país. Falamos apenas de índices de avaliação bancária, mas sendo a habitação uma parte importante das nossas vidas, um direito, e um barómetro da economia e do desenvolvimento, basta ler, para perceber as diferenças e tirar conclusões:
“A avaliação bancária subiu na média nacional, mas os valores para o Alentejo continuam a ser significativamente inferiores ao resto do país:
– Entre 1,5% e 2,1% na região de Lisboa e Açores e Madeira respectivamente, face a 0,8% no Alentejo
– Nos apartamentos o valor médio teve uma subida de 3,3% nos Açores, versus 0,7% no Alentejo.
– Os valores de avaliação no Algarve e na área da grande Lisboa foram de 26 e 22% superiores aos verificados no resto do país.
Perante estes valores verificamos a assimetria do País, continuando o Alentejo à margem do crescimento e do desenvolvimento.
Sr. Ministro, Srs Governantes, o Baixo Alentejo não é uma folha de excel, onde investimentos passados, não justifiquem investimentos actuais e futuros. O Baixo Alentejo é composto por pessoas que trabalham e querem trabalhar cada vez mais e melhor, e que merecem a vossa atenção. O Baixo Alentejo é composto por pessoas que precisam de cuidados de saúde sem terem que se deslocar 200 km de ambulância por estradas secundárias. O Baixo Alentejo tem massa crítica e pessoas competentes para colaborar no seu desenvolvimento e crescimento. O Baixo Alentejo é um património nacional, como qualquer outra região do país, que paga os seus impostos e cumpre os seus deveres. Não merecemos despezo. Não somos cidadãos de segunda, e por favor, não brinquem connosco ao afirmarem que está tudo muito bem, e que ficam escandalizados e ofendidos quando falamos do Alentejo real, daquele em que vivemos no dia a dia, e não naquele que os Srs. visitam em feiras e eventos, ou em fins de semana relaxantes, onde tudo vos é servido de bandeja em prato de excessivo optimismo.”

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5 Resposta a “Alentejo, meu Alentejo”

  1. José Bengala diz:

    Felizmente ainda há gente boa e lúcida na minha terra, gente que fala sem segundas intenções que não seja o amor à sua terra e a procura do desenvolvimento e bem estar para os seus habitantes, gente que não precisa da política, tal como a conhecemos, em que apenas se procura protagonismo para atingir os objectivos próprios e dos amigos, e dos amigos dos amigos. Muito bem Maria Helena Palma por este texto cheio de verdade e sentimento, muito bem Bruno Ferreira, Florival Baiôa e tantos outros que tão bem têm defendido esta região sem segundas intenções, este é o caminho e vamos todos atingir o nosso objectivo. Pode levar algum tempo, mas chegará a nossa vez. Estou certo disso.

  2. José diz:

    Um fantástico texto! Parabéns.

  3. enxoe diz:

    Bom.Subscrevo por inteiro.Parabens

  4. ATENTO diz:

    Um texto de excelência onde tudo é tocado sem preocupações de procurar o politicamente correto ou incorreto. Dito com realismo, calma e cordatamente, mas com assinte. Esperemos que estas vozes, juntas a todas as outras que ultimamente têm acontecido, possam, por fim, ser ouvidas. Não tenho quaisquer dúvidas em subscrever este texto. Parabéns à autora.

  5. Hugo Rego diz:

    “O distrito de Beja, tem tudo para ser um polo de desenvolvimento regional e nacional, bastando para tal, que exista real vontade política. Tem agricultura e algumas inerentes indústrias agro-alimentares, tem litoral com praias de grande qualidade, tem gastronomia, tem património histórico, tem uma cultura ímpar, tem gentes que querem trabalhar e empreender. Faltam condições para atraír investimento e fixar populações. Faltam infraestruturas de apoio fundamentais que possam potenciar o desenvolvimento do aeroporto, ainda que numa vertente de carga, de ensino, ou de desmantelamento. Falta investimento hoteleiro que só será realidade se os investidores virem forma de o rentabilizar. Falta um hospital com maior capacidade e melhores condições. Falta dinheiro a circular. Faltam tantas outras coisas que encadeiam umas nas outras, e que só com a economia regional a funcionar, poderão acontecer. E falta aquilo que vemos desaparecer cada vez mais, e que é o maior e o melhor capital de uma região: as pessoas.”

    Tem tudo? Tudo o quê? Há alguma região que “tenha tudo”? Não me parece. E mesmo dentro do “tudo”, há graus, ou níveis de potencial. Se a região “tem tudo”, tem quanto de tudo? Tem quanto de quê? Estas questões é que vão determinar qual o verdadeiro potencial das partes que constituem o “tudo”.

    A questão da gastronomia, do património, da cultura ímpar. Isto necessita de ser abordado com seriedade e, sobretudo, com racionalidade. Se estamos a falar destas vertentes enquanto potencial económico, então teremos que abordá-las enquanto produtos, na óptica de mercados e desapaixonadamente. Abordar esta parte do “tudo” e colocar as mesmas questões. Temos “tudo isto” mas “isto” tem características de produto? Está desenvolvido enquanto oferta? Tem identidade distintiva e para que mercados? Existem competências suficientes na região para vender este produto? Qual o nível de procura? Quais são os concorrentes aos nossos produtos? De que fatores dependem a produção e manutenção do padrão identitário desses produtos? A cadeia de valor está identificada/construída? Há acompanhamento do desenvolvimento económico destes produtos/serviços? Há objetivos establecidos? Métricas? Avaliação?

    ” Faltam condições para atraír investimento e fixar populações”
    Esta afirmação é muito bonita. Tão bonita que serve para qualquer cenário, qualquer região, qualquer país em qualquer ponto do mundo. Seria interessante explicar-se que condições e de que forma é suposto essas condições terem impacto na fixação das populações. Não basta afirmar-se “É preciso dinheiro” porque temos exemplos de sobra sobre como a existência de dinheiro, de financiamento, conduziu ao desperdício e à criação de estruturas que o tempo e os mercados acabaram por demosntrar como irrelevantes. E até hoje não me parece haver uma abordagem muito séria à questão – tem-se assistido a um avolumar de reinvindicações para a criação de uma série de serviços. O Setor Serviços compete com o setor Primário por Recursos Humanos. Fala-se em combater a perda de população nas freguesias rurais e clama-se por investimento nos Serviços…

    “Faltam infraestruturas de apoio fundamentais que possam potenciar o desenvolvimento do aeroporto”
    A relação de Beja para com o aeroporto assemelha-se a um casamento falhado: foi uma aposta falhada, nenhum tem ganho nem ganhará nada com isso, cada dia que passam juntos serve apenas para perderem foco noutras oportunidades, mas mantêm-se juntos porque “investiram uma parte da sua vida nisto”. O investimento não tem retorno, apenas se traduz em mais perdas, de tempo, de oportunidades, mas a incapacidade em reconhecer que o “casamento falhou nos seus objetivos”, em assumir que não resultou, vai manter este ritmo de perdas. Grave porque era uma relação em que, desde os tempos de namoro, já existiam evidências mais que suficientes que não faria sentido. Agora, racionaliza-se a relação. “Vamos ter uma empresa de desmantelamento”. “Um investimento de 5 milhões de euros”! Investiram-se anos, dezenas de milhões de euros. Para ter um retorno de 5. Quem me dera encontrar quem quisesse fazer negócios deste calibre comigo…

    “Falta um hospital com maior capacidade e melhores condições.”
    Esta vou-me coibir de comentar porque revela um grande desconhecimento da realidade contextual mas haveria tanto a dizer…

    Uma nota: estatisticamente, os números relativos à população estão incorretos. As últimas estimativas de população residente (2016) situam a mesma nos 119.024 – em 25 anos estima-se uma perda de 40.190 residentes (+-25%, o que dá uma média de 1%/ano). Nos últimos 5 anos, a perda acumulada foi de 5,44% (média de 1,1%/ano), o que confirma um acelerar da tendência relativa descendente.

    Independentemente dos pontos de vista, parabéns pela objetividade. Estes temas devem ser abordados com profundidade, difícil de obter em “estreias mundiais de vídeos”…

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