Jan 31 2017

Ilusionismos

Publicado por as 9:43 em A minha cidade

O editorial de Paulo Barriga no Diário do Alentejo:

É difícil a qualquer utente do comboio, que compre bilhete entre Beja e Casa Branca, não ficar assanhado com tudo o que envolve o próprio comboio. A começar pela constatação de que comprou bilhete para o comboio mas que, afinal de contas, não há comboio nenhum. Há um veículo automotorizado que circula, quando está em condições de circular, pelos mesmos carris onde poderia circular o comboio para o qual comprou bilhete mas que, bem vistas as coisas, não existe. De facto. Não existe o comboio, nem existe a menor pinga de dignidade naquilo que é oferecido pela empresa dos comboios em troca do dinheiro do bilhete do comboio que não existe. Aliás, a CP – Comboios de Portugal, na relação que estabelece com os utentes que compram bilhete entre Beja e Casa Branca, revela não ser exatamente uma empresa de prestação de serviços de transporte, mas antes um circo que funciona apenas com palhaços e ilusionistas. Sendo que os palhaços, os utentes que compram o bilhete de comboio entre Beja e Casa Branca, já não riem nem fazem rir, e os ilusionistas, invariavelmente vestidos de cinzento, cada vez têm mais dificuldades em transformar a lata com rodas de ferro no comboio rápido Intercidades que é anunciado no bilhete dos utentes que o compram em qualquer estação entre Beja e Casa Branca. A ilusão da automotora nunca funcionou. E, repetida à exaustão, apenas acentua a tristeza do espetáculo que continua a ser vendido com letras douradas nas bilheteiras do comboio entre Beja e Casa Branca. Na passada terça- -feira, 24, o “Jornal de Notícias” oferecia a quem o comprou a seguinte manchete: “Quatro autoestradas fazem disparar custos com as PPP”. Por assinalável falta de assunto, as televisões, todas elas, replicaram a notícia, assegurando que as concessões das autoestradas do Douro Interior, Transmontana, Litoral Oeste e Baixo Alentejo vão sugar em 2017 perto de 203 milhões de euros aos cofres do Estado, em virtude de quatro ruinosas parcerias público-privadas. Caído em desuso e tapado de ridículo, há muito que o truque da autoestrada não saía da cartola. A autoestrada do Baixo Alentejo apenas está a dar cabo das contas públicas porque o Governo ainda lá não mandou colocar portagens. Ou melhor, porque ainda nem sequer foi construída. Daí o belo e surpreendente momento de ilusionismo que a autoestrada voltou a proporcionar. Nem dá para acreditar, pois não?

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Uma Resposta a “Ilusionismos”

  1. dadinho diz:

    Como diria o outro; cá está um notável naco de prosa.

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