Fev 01 2016

Lebrinha

Publicado por as 21:51 em Geral


foto: joão espinho

Editorial de Paulo Barriga no Diário do Alentejo

“Em Portugal, marcas como “Cervejaria Lebrinha” haverá poucas. E no Alentejo, por muitas voltas que dê à cachola, não encontro outra que se lhe compare em pujança, eficiência, reconhecimento. A eficácia da marca ganhou tal dimensão e notoriedade que “Lebrinha” chegou a ser a única forma de nos referirmos a Serpa, sem ter a necessidade de dizer Serpa. O mais curioso é que por detrás do segredo desta marca de leitura geral e imediata está um produto que pouco tem a ver com Serpa ou com o Alentejo: cerveja à pressão. É verdade. Durante anos se apurou nas catacumbas do Lebrinha a “receita” de uma imperial que, segundo os especialistas encartados e todo o tipo de empiristas, era imbatível. A melhor do País, atestavam os diplomas que estavam dependurados nas paredes da cervejaria. Estava fechado a sete chaves, o tratamento cabalístico que levava a imperial do Lebrinha. Era um dos mais reservados e enigmáticos segredos da indústria da restauração e similares de Portugal. Um milagre da multiplicação do gás a brotar do fundo de um copo de cerveja. O queijo tipo Serpa é famoso, as queijadinhas de requeijão da senhora Paixão também o são, são muito apreciados aqueles cantares à maneira de Serpa e as festas da Senhora de Guadalupe, igualmente. Mas Serpa, na viragem do século XX para o século XXI, não teve embaixador nem propaganda externa que chegasse sequer aos calcanhares da imperial do Lebrinha. Ainda hoje, na Internet, existem fóruns de debate em torno daquele borbulhar milagroso: ou era dos copos especiais e mal lavados, ou era do comprimento do cabo que leva a cerveja do barril até à torneira, ou era da pressão… Talvez fosse da pressão. Mas não da mesma pressão que levou à falência, dizem-me que há pouco tempo, a Cervejaria Lebrinha, esse ícone aloirado de Serpa e do Alentejo. Reconheça-se que os tempos mudaram. Que a tecnologia democratizou a boa imperial. Que nem só de cerveja de manivela vive o homem. Que quem vai a Serpa também o faz por um bom petisco que encontrará com facilidade no Manel Gato, no Alentejano, no Chico Engrola, no Molhó Bico, no Pedra de Sal, na Tradição e em quase todas as tascas e restaurantes de Serpa que tenham um fogão escondido por detrás do balcão. Coisa que faltava exatamente ao Lebrinha nos últimos anos. Não sei se alguém ou alguma instituição ainda pode fazer alguma coisa pelo Lebrinha. Se nada se fizer é certo que não se perde tudo, mas perde-se a oura maneira de dizer Serpa, sem falar em Serpa. O que é muito, não é?”

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Uma Resposta a “Lebrinha”

  1. marcos aguiar diz:

    O melhor elogio que já li sobre uma cervejaria.

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