Ago 25 2014

Fotografias

Publicado por as 11:17 em Poetas

“Pai, não me tires mais nenhuma fotografia porque eu não me quero ver, aliás, não serei capaz de me ver, daqui a muitos anos como eu era, como sou agora, ainda tão novo. Por favor não me documentes mais, não me tentes eternizar, deixa que o tempo me vá levando como tiver que ser. Não congeles as minhas feições que eu sei hei de perder um dia. É que sabes, tudo muda, principalmente as pessoas, e dentro delas as crianças, para o ano já serei diferente, imagina tu daqui a vinte anos. Pouco restará desse momento que tu queres prender nas fotografias. Então já haverá muito tempo que eu já não serei eu. Serei apenas uma ideia que tu guardas de mim, uma magra consolação do que eu era antes de o tempo me ter feito outro. Não sejas egoísta, não te iludas, larga o meu tempo, deixa-o fluir, deixa-nos ir, ele e eu, incógnitos e irreconhecíveis, não deixes marcas dos meus sorrisos, não deixes testemunho do que fui, não deixes provas dos sítios por onde passei, não registes aquilo que há de ser o meu passado, não me amarres às lembranças, não me obrigues mais tarde a ter saudades. Pai, por favor não me tires mais nenhuma fotografia. Acredita que depois será pior se me quiseres guardar como te parece que sou hoje. Lembras-te como o avô era bonito e agora está morto?” Vítor Encarnação

Share

Não são permitidos comentários.