Set 01 2013

Uma arruada

Publicado por as 17:00 em Geral

arruada

São os dicionários abundantes no significado do vocábulo “arruada”. Tendo dificuldades em encontrar a palavra mais adequada vou de omissão em omissão, já excluí procissão porque leva padre e sacristão, fixo-me, então, em arruada – passeio por uma rua, apregoando qualquer coisa. E depois desta explicação, caro leitor, vou mostrar-vos o que escrevi:
Umas moçoilas, belas, belas com as suas saias curtas e vermelhas, blusas brancas da cor da alegria, pareciam ter sido deixadas pelo céu, no início da rua.
A tarde corria dócil e serena. O sol sumia-se preguiçosamente, talvez com o intuito de assistir ao evento, acabando por deixar o horizonte pejado de esporões de um vermelho carregado. Indiscretas, umas lufadas de vento atravessavam a rua e faziam subir a saia da beldade. Deixando a perna nua, logo umas mãos delicadas a ajeitavam no seu devido lugar. Teimoso, o vento fazia repetir a cena, sem parar. Estas ninfas de braço no ar executavam envolventes movimentos ao som de uma música emitida por potentes altifalantes colocados num carro pequenino (este carro era usado exclusivamente para este fim. Se eleito o candidato trocava-o, de imediato).
À cabeça do cortejo, os candidatos principais distribuíam papelinhos e sorrisos largos e compridos (e eu que queria usar o termo melancolia, assim, não consigo). Logo a seguir vinham os moços de recados e mandados e por fim os indiferenciados. A assistir, o Povo, vago, distante, desinteressado. Pois que não havia de mostrar tal apatia, habituado que estava a só romaria.
Vão, agora, todos jantar. O prato é borrego assado, com vinhos do Alentejo, mais palavras ocas e indefinidas, mais promessas de salvação. Gargantas roucas, mãos doloridas, de tantas palmas e ovações. O director da campanha manda terminar.
Amanhã há nova missão, é preciso poupar energias.
Manuel Dias Horta in Diário do Alentejo

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