Nov 25 2012

Jornalistas

Publicado por as 19:20 em Geral

Editorial do Diário do Alentejo de 23 de Novembro de 2012:


“Escrevo estas palavras com tristeza e sem uma pontinha sequer de júbilo: o “Diário do Alentejo” é um dos raros jornais em toda a região que ainda mantém uma redação ativa, dinâmica e plural. Entendendo redação como aquele lugar único onde os jornalistas, em equipa, discutem a atualidade, separam o lombo informativo das gorduras dos dias, transformam em bifes noticiosos os acontecimentos com mais sabor e melhores nutrientes. A redação é isso mesmo: uma sala de desmancha da inconsumível carcaça noticiosa que, posteriormente, é colocada nas vitrinas dos jornais, das rádios, das televisões, pronta a consumir. O jornalista é o talhante do acontecimento. E o seu cutelo afina apenas pela pedra de esmeril que resulta do seu compromisso ético e deontológico para consigo próprio e, essencialmente, para com os seus leitores, ouvintes, telespetadores. E é esta e apenas esta a única forma de aferir a qualidade do jornalista e dos produtos de serve: a manutenção imaculada e absoluta da relação de confiança que estabelece com os seus interlocutores. A montante e a jusante da notícia. E por isso escrevo com palavras desconsoladas que o “DA” terá das poucas, talvez a única redação em todo o Alentejo. Que é a menos brutal das maneiras de dizer que a comunicação social atravessa uma crise sem precedentes na nossa região. Muitos órgãos locais e regionais fecharam nos últimos tempos, outros estão em vias de encerrar, outros diminuíram drasticamente as tiragens e as edições, outros, em desespero de subsistência, fazem os jornalistas derrapar nas areias movediças da publicidade, da lavagem política, da promiscuidade. A juntar a tudo isto, outra desgraça: os órgãos de comunicação social de matriz nacional, públicos e privados, estão a desinvestir fortemente no Alentejo. O que nos deixa em plena antecâmara da orfandade noticiosa. Uma região sem uma comunicação social forte, dinâmica, livre, independente, isenta, é uma região doente e enfraquecida do ponto de vista social, cultural e, claro, económico. As notícias são a proteína, a boa proteína, de toda e qualquer sociedade, principalmente nas comunidades de vizinhança, num mundo globalizado. É na comunicação de proximidade que irrompe o direito à diferença. É aqui que nos reconhecemos uns aos outros. Que nos relacionamos uns com os outros. Que a nossa voz se faz ouvir com mais estrondo. E isso os jornalistas do Alentejo sempre perceberam. E você?” 
 Paulo Barriga 
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4 Resposta a “Jornalistas”

  1. Carmo Roque diz:

    Uma visão muito pessimista da realidade. O Paulo Barriga foi meu professor no IPBeja. tenho dele a melhor opinião e até o achava um optimista militante. Ao ler este seu artigo fico esmagada com uma realidade que desconhecia e que nunca nela tinha pensado. os nossos dirigentes aqui da região devem prestar mais atenção ás questões da comunicação social. Pois é como o Paulo diz, sem um bom jornalismo ficamos todos ainda mais pobres.

  2. Reinaldo Louro diz:

    Concordo com o essencial do texto.

    Porém, existe neste contexto a diferença, que é e pode ser total nestes tempos de crise económica / financeira, os outros todos orgãos de comunicação regional a que se refere o PB, são de capitais sociais de privados e o DA é suportado pelo contribuinte português via AMBAL ( Associação de Municípios do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral ).

    Para bom entendedor meia palavra basta, o que não desclassifica o vosso trabalho e bem pelo contrário é meritório no informar e formar.

  3. José Frade diz:

    “Tiro o meu chapéu”, às palavras do Paulo Barriga.

  4. Tira Borbotos diz:

    Também tiro o meu chapéu às palavras do Paulo Barriga.
    Mas como alguém comentou numa rádio, o Paulo Barriga tem andado muito manso até aqui, porque será ?
    Agora, pergunto eu; será que é pelo bom pilim que ganha no Diário Alentejo???

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