Ago 12 2010

A soldado desconhecida

Publicado por as 19:06 em Geral

“Josefa, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante de Engenharia Biomédica, trabalhadora de supermercado em part-time e bombeira voluntária. Acumulava trabalhos e não cargos – e essa pode ser uma primeira explicação para a não conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que frequentamos nas revistas de consultório, arranja forma de chamar os holofotes. Se é futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; se é cantora, mostra o futebolista com quem namora; e se quer ser mesmo importante, é mandatário de juventude. Não entra é na cabeça de uma jovem dispersar-se em ninharias acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, talvez, que um colega mais experiente dissesse dela: “Ela era das poucas pessoas com que um gajo sabia que podia contar nas piores alturas.” Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um azar… Aconteceu: anteontem, Josefa morreu em Monte Mêda, Gondomar, cercada das chamas dos outros que foi apagar de graça. A morte de uma jovem é sempre uma coisa tão enorme para os seus que, evidentemente, nem trato aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela nos disse: que há miúdos de 21 anos que são estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem nós sabermos. Como é possível, nos dias comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar das Josefas que são o sal da nossa terra?”

Por FERREIRA FERNANDES, Diário de Notícias

Share

6 Resposta a “A soldado desconhecida”

  1. C Gomes diz:

    Perguntem aos editores, directores e escritores de notícias!
    Perg untem aos portugueses que se babam a ler com quem o futebolista passou a noite, que vestido a apresentadora levou e que plásticas fez um hibrido qualquer.
    A Josefa era uma soldado desconhecida que no seu código genético tinha gravada a marca generosidade.
    São as Josefas desta terra que fazem do mundo um espaço onde é possível viver, apesar de tudo.
    A Josefa deverá constar de todos os manuais escolares para que todos a assumam como um ícone.

  2. Reinaldo Louro diz:

    Porque é que este exemplo de estudante, trabalho e voluntariado como bombeira, não é reconhecido como devido neste monte global cada vez menos sem sentimentos ?
    Era uma jovem como muitos outras(os) sem interesses materiais mas com espírito de formação, solidariedade e dedicação que mereciam por parte do Presidente da República e do 1º Ministro, não uma palavra mas sim um texto, para quem deu a vida em prol da defesa de Portugal e não esquecer a mãe destroçada perante a tragédia.
    Tenho uma certa revolta interna pela indeferença da sociedade portuguesa por esta heroina de 21 anos, tenho duas filhas de 24 e 28 anos e não me importava de ter mais uma filha , como esta Josefa.
    Uma flôr para ti , é a minha homenagem e sentido reconhecimento.

  3. Celso Pereira diz:

    Há algum tempo atrás vi uma reportagem na Tv sobre um pastor cego e de idade avançada, que com as limitações que tinha, pastava as suas cabras nas encostas da serra da Estrela. Mas o que me emocionou foi a sua esposa, uma senhora também já com uma certa idade, mas que se desdobrava nas tarefas que tinha com um sorriso nos lábios, e ainda ajudava o marido na labuta do dia a dia. A senhora falou para o jornalista e mostrou uma nobreza de princípios e de carácter que nada tem a ver com os das revistas dos consultórios. Comentei com quem estava comigo, o que são as paris hiltons deste mundo comparadas com esta Mulher ?!

    Cumpts,

  4. El Juanito diz:

    Em primeiro lugar quero prestar um momento de homenagem à sua memória e apresentação de pêsames à sua família enlutada.
    Agora, quero dizer que infelizmente existem muitas soldados Josefas por esse mundo fora, digo infelizmente mais pelo sentido depreciativo de quem a todo custo se atropela a si próprio e atropela os outros para estar debaixo das luzes da ribalta. Refiro-me à maior parte dos peões de revistas cor-de-rosa. Estes soldados incógnitos não se sentem infelizes mas sim pelo contrario, sentem uma felicidade intrínseca por serem naturalmente generosos.
    Deus a tenha em paz!

  5. maria espinho diz:

    Desde miuda dos meus dez doze anos, por me ter visto envolvida num incêndio, que a minha admiração é enorme, por estes homens e mulheres que no seu voluntariado dão tudo até a vida por nós.
    Fico triste ao ouvir certos comentários, só para aparecer na televisão, o meu muito obrigado e admiração aos Bombeiros de Portugal.

  6. Miguel Correia diz:

    Um texto magnífico do Ferreira Fernandes (um dos olhares mais contundentes do DN e mesmo da nossa actual imprensa, que até nem vive dias felizes). Uma referência inteligente do colunista à contínua relevância do acessório em detrimento do essencial. Nos media, nos blogs, nas mesas de café… Cada vez mais, as Josefas do nosso mundo ficam para trás, esquecidas (a não ser que algo de “anormal” aconteça, como foi o caso). O que parece contar nos dias de hoje são os que falam sobre o que não sabem, os que falam sobre o que não sabem fazer, os que dizem que fazem sem nada fazer, e os que nada fazem mas querem aparecer.
    Não concordo com grande parte das opiniões de carácter político do João Espinho aqui expressas neste blog (principalmente das estritamente partidárias). Tiro-lhe, contudo, o chapéu por algumas das referências que faz a determinados temas da actualidade, e que por vezes passam despercebidas aos olhares mais “distraídos”. É por isso que este é um dos poucos blogs que visito regularmente.
    Mas este nosso mundo, que cada vez mais gira à volta da informação instantânea e descartável, é assim: amanhã ninguém se lembra da Josefa, como não se recorda das muitas Josefas que felizmente connosco têm partilhado a vida há muitos anos. Mas cá estamos para escutar as “imprescindíveis, inadiáveis e consistentes” opiniões de alguns políticos, desportistas, actores e afins mais mediáticos sobre tudo e nada, e por vezes – cúmulo dos cúmulos – até sobre as próprias Josefas. Estranho mundo este, não?

Deixe Uma Resposta