Fev 25 2009
Narrativa da tarde
A tarde de hoje foi diferente. Cá em casa foi um rodopio de gajos a entrar e a sair. A instalação de gás natural parece requerer equipas de muita gente. Já nem batiam à porta. Entra e sai e acho que já devem ter acabado. Pelo menos a porta da rua fechou-se.
Depois tive que ir à cabeleireira cortar o cabelo. Fui à que estava mais à mão pois podia ter que regressar rapidamente por causa dos homens do gás.
Chegado e mandado sentar, a ajudanta decidiu borrifar-me a cara e o cabelo como se eu fosse uma flor de estufa. Puf para aqui e puf para acolá. E a água escorria-me pela face. De facto, não sabia se havia de rir se chorar. Eis que aparece a patroa, a que me ia tratar do couro cabeludo. Socas altas, andar firme e sonoro e eu cá para mim “estás feito!”. A ajudanta não despegava do espelho e ria-se para mim, não sei se a gozar comigo ou a querer gozo. A patroa joga-me mais umas borrifadelas para cima. Proporcionais à mão que apertavam o borrifador, os jactos atingiram o telemóvel, o tabaco, as chaves e os óculos que eu tinha colocado numa prateleira à minha frente. Tesourada para a esquerda e para a direita e a senhora ria-se. Eu não achava graça nenhuma mas ela lá estava toda feliz. Percebi que era a sua reacção a uma conversa que estava a ser transmitida no aparelho de rádio. Percebi que era um tipo do Penedo Gordo a chamar Muito Ópticas à MultiOpticas e a fazer dedicatórias aos companheiros de sueca.
E o dito lá pediu a musica: um corridinho do Algarve. Eu não estava a acreditar bem naquilo mas depressa aterrei quando ouvi as socas da patroa a acompanhar o corridinho e a tesoura a swingar nas minhas orelhas. Aquilo estava a ser um verdadeiro fandango. A ajudanta também batia o pé e fiquei com a impressão que usa Colgate branqueador. A patroa, quase a despachar-me arranca com um “onde é que tem o pincel?”, e eu fechei os olhos, quando ouvi a voz salvadora da ajudanta dizer “está aí na primeira gaveta”. Serviço feito, ainda não me olhei ao espelho, mas quando estava a pagar, o Nelson Ned substituíra a algarviada.
A cereja: passei pelo supermercado e a conta €3,03 mereceu da merceeira a pergunta “tem os três?”. Não respondi mas ela também não se preocupou, pois arredondou para quantia certa. Antes assim!

25 de Fevereiro de 2009 às 20:27
Se a merceeira soubesse da conversa anterior nem se atreveria a perguntar. Depois da cabeleireira te ter descoberto o pincel não há mais 3 pra ninguém. Esta vida é um corridinho amigo.
(tens de me explicar esse truque de ilusionismo que é estares com uma cabeleireira e uma ajudanta - como se diz por aí - e meteres o pincel na gaveta)
25 de Fevereiro de 2009 às 22:22
3 euros ou 3 cêntimos?
25 de Fevereiro de 2009 às 22:55
Depois da cena dos homens do gás, da cabeleireira e da merceeira, esta última só podia fazer aquela pergunta.
(mas que deu um naco de prosa muito gostoso, isso deu!
25 de Fevereiro de 2009 às 23:35
@pre - não sabes tu que eu estive para começar esta narrativa assim: “Se eu soubesse escrever tão bem como o Pre, o relato que se segue seria um dos meus melhores post”.
Acredita que cheguei a casa a rir à gargalhada. Ah, o pincel voltou para a gaveta. Ou talvez não. Não havia mais clientes no salão. Ficaram patroa e ajudanta ouvindo Nelson Ned. Achas que isto dava mais uma narrativa, não é?
25 de Fevereiro de 2009 às 23:36
@je - a senhora arredondou para os 3 euros…
25 de Fevereiro de 2009 às 23:37
@maria - deu-me gozo relatar este pedaço do dia.
26 de Fevereiro de 2009 às 0:09
Então se queres uma à Pre, toma lá João:
Com o pincel na gaveta
Diz a ajudante à patroa
Rapar este rapazinho
Não acha que é coisa boa?
Dá-lhe apenas um burrifos
Molha o telefone e os óculos
Que assim ele bem temperadinho
Chamo-lhe um molho de bróculos.
26 de Fevereiro de 2009 às 0:41
Valeu a pena, porque estiveste mesmo bem!!Essa dos 3 é que me deu que pensar…
26 de Fevereiro de 2009 às 1:33
Pois, dos 3 foi gira. Mas e se fossem 5?
Saudações Gloriosas
27 de Fevereiro de 2009 às 1:47
realmente… há dias da vida das pessoas, que passados para papel, ou teclados, ao fim de alguns anos (ou meses) davam uma bela história… Seja comédia.. romance… ou drama!!!