Mar 28 2008

Notas soltas da política bejense

Publicado por as 10:24 em Crónicas

Crónica publicada no Correio Alentejo de 28/3/2008

O período que antecedeu a Quaresma trouxe à política bejense algum fervor, pouco habitual, e que alguns justificam por se estar a entrar em período pré eleitoral, apesar de Outubro de 2009 ainda estar longe. Não diria que esta vivacidade seja já pré-campanha, mas percebe-se que o horizonte das autárquicas do próximo ano não está longe, mesmo sabendo-se que todos estes tiros são de pólvora seca e que pouco ou nada de novo irão trazer aos cenários instalados.
Vejamos, então, o que se passou e ainda anda a passar por aí.

1 – O governador civil de Beja indignou-se, e com toda a razão, contra a cedência gratuita pela Câmara Municipal de Beja de um autocarro para transportar até Lisboa um grupo de manifestantes que foram participar numa Marcha de protesto contra a política educativa do governo.
Na verdade, só por meras razões partidárias e sindicalistas se verificou esta oferta de transporte. Seguramente que o mesmo critério jamais será aplicado se forem outras associações a solicitar transporte para, por exemplo, levar manifestantes a um protesto contra a repressão chinesa no Tibete ou contra as ditaduras de Cuba, Cambodja, Coreia do Norte, etc…
Porém, esta tomada de posição pública por parte do governador civil provocou algumas alergias a quem prefere o silêncio do representante do governo no Distrito. Habituados a ver no governador civil uma espécie de rainha de Inglaterra, ficaram incomodados com as palavras de quem não gosta de mordaças e a quem foi já negado, pela mesma Câmara, o referido transporte, não para grupos de manifestantes mas para pessoas realmente carenciadas.
As “vozes alérgicas” tiveram num antigo presidente de uma câmara comunista o seu maior megafone. Em comentário radiofónico, o ex-autarca não se coibiu de lançar uma série de suspeições sobre o governador civil, que lhe respondeu com elevação e que só a contenção verbal a que se obriga gente bem educada e com princípios evitou que se transformasse num bom par de açoites verbais.
Lopes Guerreiro, o ex-edil em questão, deveria saber que em política não pode valer tudo, mesmo quando o horizonte das autárquicas pareça estar próximo.

2 – O recém-eleito líder dos socialistas no concelho de Beja esteve numa rádio local onde, pensava-se, iria aproveitar para explicar como vai conseguir levar o PS a vencer as próximas eleições no concelho de Beja. Durante cerca de uma hora, porém, não se ouviu uma única linha sobre o que este dirigente socialista pensa sobre a cidade e o concelho, que estratégia tem para apresentar aos eleitores que os convença de que o PS é melhor que o PCP a gerir os destinos da Câmara de Beja. Ficámos a saber, isso sim, que o PS não irá concorrer coligado com o PSD, afirmação que lhe deu espaço noticioso e o ruidoso aplauso de António Saleiro. O seu antecessor já o havia sublinhado: a mudança de rumo na CMB terá sempre que passar pelo PS. Haja alguém que acrescente que essa mudança não se fará contra o PSD.

3 – O PSD na região vai realizar em Almodôvar um 2º congresso distrital, passados que estão 12 anos sobre a primeira edição realizada em Beja. Este hiato temporal atesta bem o que tem sido a actividade dos dirigentes distritais social-democratas, cujas aparições são esporádicas e só ocorrem quando estão garantidos os holofotes dos meios de comunicação social. Apesar da legitimação dada pelo Conselho de Jurisdição, esta Distrital do PSD não existe, não se lhe conhecem posições públicas sobre os mais variados assuntos de importância para a região, vive enclausurada num silêncio de morte, pelo que se compreende que este designado Congresso lhe sirva como prova de vida. Sê-lo-á, obviamente, para quem se sujeite a pactuar com a inércia. Para muitos, e para mim também, não passa de uma certidão de óbito, com a agravante de ter a assinatura dos mais altos dirigentes do partido.
O Alentejo precisa do PSD. Mas não deste, seguramente.

Nota à margem: O Correio Alentejo completou 2 anos de existência. Parecendo vida curta, é, na realidade, um projecto com sucesso, não obstante os ventos contrários que lhe auguraram a morte súbita. Estão de parabéns o seu Director e a equipa por si liderada. E os leitores também.

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2 Resposta a “Notas soltas da política bejense”

  1. charamba diz:

    Navegando em águas bem diferentes daquelas em que se move João Espinho, continuo a surpreender-me com a frequência das ocasiões em que estamos de acordo. Cidadão independente sem obrigações de obediência partidária, o que não é o caso do João, é por certo a sua independência de pensamento, quase sempre fomentadora de heterodoxia, nele como em qualquer ser pensante, que me possibilita esta feliz sintonia.
    Inteiramente de acordo quanto à referência ao Governador Civil. E nem percebo as críticas a um seu excessivo intervencionismo político, porquanto bem mais “políticos” foram Malveiro, Saleiro, para não citar outros. De resto, sendo o cargo o de representante do Governo no distrito, o que pressupõe e obriga a uma completa consonância com actuação governamental, uma apatia política seria de todo absurda. Só os crânios do PC pretendiam, a quando da primeira nomeação de Manuel Masseno, que o governador fosse comunista, por ser então o eleitorado maioritariamente comunista.
    Ponho também as maiores reservas ao acerto de o PS afastar liminarmente a hipótese de entendimento com o PSD para a conquista da Câmara de Beja. Se o entendimento com a gente da Distrital seria, por certo, difícil, não me parece de todo intransponível o obstáculo em relação às pessoas da Concelhia. É que é mesmo outra gente, para melhor.

  2. H V&P diz:

    @charamba: confesso que desconhecia críticas ao excessivo intervencionismo do GC; antes, pelo contrário: muitos criticam a sua extrema discrição (que apenas quebrou nas críticas ao “autocarro” e ao decidir responder a LG)!

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