Célia estaria, por ocasião do final do mês passado, a principiar uma caminhada de que ainda não se tinha dado conta. Os quilómetros percorridos para estar comigo, as viagens rápidas que fazia a partir da capital, às horas mais estranhas e que se sucediam a um ritmo cada vez maior, faziam com que ela se sentisse a viver entre um sonho e o fio da navalha.
Os riscos que corria eram calculados e dizia-me ter tudo sob controlo.
Para essa noite, Célia havia feito um desafio, no mínimo encantador.
Gostaria de estar comigo, mas de uma forma diferente.
Sabendo a atracção que tenho pelas noites de luar, desafiou-me para um encontro que “pudesse ser abraçado” pela intensidade de uma Lua Cheia.
Será uma espécie de rave a dois, gracejei-lhe, perfeitamente rendido à sua ideia. Combinámos que não entraria na cidade.
Quando nos abraçámos, senti que Célia tremia. Olhei-a. Tentou disfarçar com um “comprei este vestido a pensar em ti”.
A música que tocava no leitor do meu carro havia sido previamente combinada. Sabíamos em que momento não resistiríamos ao impulso do nosso fervor.
A magia da Lua, aquela luz profunda, colou-se-nos ao corpo. Sentíamos que nada à volta existia. Quisemos que aquele momento fosse único. Como se fosse o último.
Com uma ternura que lhe é pouco habitual, despediu-se de mim. Dei-lhe um pedaço de papel. Para ler em casa.
Não sei que razões me levaram a não lhe dizer ali, naquele lugar, que “a tua presença tem o efeito da maresia sob o olhar fascinante de uma Lua que sorri, pois na sua face oculta alguém diz Amo-te”.
(Célia 32 corresponde ao desafio lançado no Aliciante para que hoje, noite de luz intensa, se falasse da Lua. Nenhum dos leitores se apercebeu que a numeração de Célia havia saltado de 31 para 33. Está reposta a sequência numérica e temporal)