Mai 21 2004

Crónica Radio Pax

Publicado por as 10:00 em Crónicas

Desloquei-me de propósito ao Jardim do Bacalhau a fim de ver o sítio escolhido pela autarquia para colocar a peça escultórica de Jorge Vieira que, até há dias, se encontrava na rotunda da estrada de Lisboa/Évora/Espanha.
Fui ali só com esse propósito, pois poucos ou quase nenhuns são os motivos apelativos para me deslocar ao centro da cidade. Aproveitei o feriado municipal, o que me deu a garantia de poder estacionar o carro, coisa que em dia normal não me passaria pela cabeça.
Como eu, muitos bejenses abandonaram o centro da cidade e viraram-lhe as costas. As razões são sobejamente conhecidas e não vale a pena estar a “bater mais no ceguinho” pois o pior cego é aquele que não quer ver.
Atitude, esta a de não querer ver, que faz parte do dia-a-dia dos decisores autárquicos que têm assento na Câmara e que tomam as decisões mais disparatadas, aconselhados vá-se lá saber por quem, e à revelia daquilo a que se considera o bom senso.
Vamos por partes.
A escultura que homenageia o preso político é, quanto a mim, a melhor peça escultórica de que a cidade de Beja dispõe, e talvez, a mais simbólica, daquele que é considerado o mais marcante escultor português do século 20, em nada ficando a dever à que se encontra na área da Expo98, em Lisboa.
Estava, até ao princípio desta semana, numa rotunda que, sendo exterior à cidade, é a que tem mais movimento rodoviário e por onde passam, diariamente, milhares de olhares.
Tive, por diversas ocasiões, oportunidade de a fotografar e, sempre que o fazia, descobria-lhe uma nova faceta, um novo enquadramento. Aquela escultura, ou antes, aquele monumento, para mim, tinha vida.
Sempre achei que, quem ali a tinha mandado colocar, seria pessoa de bom gosto e com espírito imaginativo. Pensei, por isso, que mais nenhum local da cidade poderia servir de pedestal à escultura e lhe viesse a dar mais grandiosidade.
Alguém, porém, viu as coisas de maneira diferente. E, como já vai sendo hábito nesta cidade, em que as coisas se mudam só para dizer que se mudam, sem se saber do seu verdadeiro interesse, pegaram no monumento e foram enterrá-lo num local perfeitamente descaracterizado, sem enquadramento histórico ou urbanístico e onde a obra perde a imponência de que antes dispunha.
Ficámos, agora, na presença de um, mais um, artefacto com 6 metros de altura. Pouco mais será do que isso. Perdendo a visibilidade que tinha anteriormente, o monumento morreu. Servirá agora para os pombos da rua fazerem as suas cagadas.
Os bejenses, os presos políticos e Jorge Vieira mereciam mais consideração.

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10 Resposta a “Crónica Radio Pax”

  1. Madalena diz:

    Porque razão haveria o Nikonman de gostar desta alteração? Seria de estranhar… continuarei atenta a esta sua coerência para saber até quando irá durar…
    Quero ainda dizer-lhe que as suas fotografias são realmente espectaculares… parabéns…

  2. Madalena diz:

    Para quem não sabe passo a informar ainda que a escultura do Jorge Vieira estava colocada na rotunda temporariamente, porque era desejo do próprio escultor a colocação desta no centro da cidade… Foi cumprido o seu desejo.

  3. Zé Chaparro diz:

    Bons dias…
    Realmente estava à espera que no Praça da República se dissesse qualquer coisa sobre o assunto. Apenas tive oportunidade de ver os 3 buracos feitos na calçada e uma fita que, com honras de obra em curso, circundavam o local. não estava à espera que ali fosse parar, que ali fosse deixada, que ali fosse abandonada. Enfim. Parece que nesta altura as palavras em nada mudarão a decisão tomada. Fica contudo aqui o meu sinal de reprovação.

  4. nikonman diz:

    @madalena- “a escultura do Jorge Vieira estava colocada na rotunda temporariamente”. tal como o bom gosto dos senhores que lá a colocaram – provisório, efémero.
    “era desejo do próprio escultor a colocação desta no centro da cidade” – não duvido. duvido que o escultor a quisesse ali, onde está agora (provisoriamente?). e não se esqueça das transformações que a cidade sofreu. o centro da cidade já foi lugar de passagem de muita gente. hoje, é a ante-câmara de um cemitério.
    não tenho dúvidas, madalena, que o seu bom gosto a levarão também a achar que aquele não é certamente o melhor sítio para uma obra tão grandiosa.
    obrigado pelo elogio às fotografias. eu sabia que a madalena tinha bom gosto :-)!

  5. carlos a.a. diz:

    Divido-me, Nikonman, entre a estética e a vontade do autor.
    No entanto, estou do teu lado – a escultura vai perder imenso – e, por outro lado, não saberemos nunca o que Jorge Vieira pensaria da localização se ainda fosse vivo e visse a “bacalhoada” que para aí fizeram…

  6. AB diz:

    Acima de tudo a minha opinião é a de que a escultura fica esteticamente sufocada… Sem espaço para respirar…

  7. nikonman diz:

    @AB – diria que fica “presa”.

  8. boleta diz:

    Eh pá, tanta nostalgia que para aí vai… A mudança não é boa? Porque é que as coisas têm que ser sempre à antiga? Como era dantes é que era bom… Isso é o que o meu pai dizia em relação à escola e aos professores – ele que fez a 4ª classe com distinção com o professor Caeiros (pai) na escola de Entradas – lá do alto e da sabedoria dos seus 70 anos. Será que ele tem assim tanta razão como isso? Viva o “amanhã” porra. Venha mais eu até Castro e vejam as lindas rotundas que por lá há, com ovelhas, porcos, chaparros e até pirites (a sério, pirites!!!). Abertura, comadres e compadres. O nosso futuro vai ser o passado longínquo de tanta gente e vai ser tão criticado… não antecipem esses tempos de discórdia!

  9. Garr diz:

    Quanto ao nivel da peça escultória e o que ela significa ninguem tem dúvidas e é esse o motivo que nos leva a debeter este tema. Que o escultor teria desejado que ela ficasse exposta dentro da cidade parece também não haver dúvidas.
    Agora que tenha sido colocada no meio de um passeio público e á mercê das cagádas dos pombos e não só…, é que não se compreende e é de facto uma grave falta de consideração pelo escultor, pelos presos políticos e por todos os bejenses.

  10. Anna diz:

    Ah! e já agora deixem-me dizer “quem dera que as eleições autárquicas fossem hoje”.
    Precisamos de gente nova, com ideias bonitas e não de quem já anda nisto há uns anitos e mostra cada vez menos sinais de bom senso. Beja merece merece melhor que isto.